O texto a serguir faz parte de uma coletânea que parece ter sido inicialmente escrita entre os anos 200 e 250, sendo posteriormente reeditada entre os anos 300 e 350 por outro grupo. O texto foi inicialmente atribuído a Clemente Romano, mas controvérsias quanto à sua verdadeira autoria começaram a surgir já no século quatro e foi finalmente classificado como inautêntico no século XIX.
Epifânio de Salamina (315-403 d.C.) em sua obra "Panarion" também conhecida como "Contra as Heresias", citando parte das pseudo-clementinas disse que (30.15.1) "eles [os ebionitas] usam alguns outros livros também — as chamadas e supostas Viagens de Pedro escritas por Clemente, embora corrompam seu conteúdo enquanto deixam algumas poucas passagens genuínas. (30.15.2) O próprio Clemente os condena de todas as maneiras em suas epístolas gerais, que são lidas nas santas igrejas, porque sua fé e sua fala são de caráter diferente das produções espúrias feitas em seu nome nas Viagens".
Observe que Epifânio considerava como espúrias "As Viagens de Pedro", texto que fazia parte das pseudo-clementinas. Ele as menciona como falsamente atribuídas a Clemente. No entanto, obseve que ele reconhece que os heterodoxos ebionitas mencionados acima, "corropem seu contéudo" e que também "deixaram algumas passagens genuínas" no texto. Além disso, Epifânio cita as "epístolas gerais escritas pelo próprio Clemente que eram lidas nas igrejas", uma provável referência às duas epístolas de Clemente aos irmãos de Corinto, pois, embora hoje a segunda carta não seja considerada autenticamente escrita por Clemente, ela foi considerada assim por muito tempo.
Rufino de Aquiléia, escritor e tradutor cristão, por volta de 407 d.C. decidiu traduzir "Os Reconhecimentos de Clemente", que também são parte integrante das pseudo-clementinas. Ele as traduziu do grego para o latim editando as partes consideradas heréticas para tentar deixar apenas as "partes genuínas", que, inclusive, já haviam sido mencionadas por Epifânio. No prefácio da sua obra de tradução ele disse: "Eu, porém, como pude, removi o que me parecia inserido contra a fé universal... O restante, que contém doutrina sã, revisei em dez livros. Pois no códice grego que recebi, havia dez livros, mas neles muitas coisas foram inseridas que repugnavam à doutrina sã."
A CRENÇA EM UM NÚCLEO GENUÍNO
Epifânio parece pressupor que as pseudo-clementinas derivam de um texto ou tradição original genuínos, talvez uma narrativa apostólica perdida ou elementos deixados pelo Clemente autêntico, que teriam sido "corrompidos" pelos ebionitas. Epifânio trata o texto, na forma que o conhecia, como uma produção espúria dos ebionitas, porém, ao mesmo tempo, reconhecia partes "não corrompidas" que estavam alinhadas com a ortodoxia.
Acadêmicos como F. Stanley Jones interpretam que Epifânio enxergava um "proto-texto" ortodoxo deturpado, similar ao que era feito pelos heréticos quando alteravam Evangelhos. Jones é um acadêmico especializado em literatura pseudo-clementina, e suas sugestões sobre um "proto-texto", ou seja, uma fonte original mais antiga que teria sido deturpado por editores ebionitas, aparecem principalmente em sua obra: An Ancient Jewish Christian Source on the History of Christianity: Pseudo-Clementine Recognitions (Uma Antiga Fonte Judaico-Cristã sobre a História do Cristianismo: Os Reconhecimentos Pseudo-Clementinos). Ele argumenta que parte dos Reconhecimentos deriva de uma fonte judaico-cristã do século II d.C., provavelmente proto-ortodoxa em seu núcleo, editada e deturpada posteriormente por ebionitas entre os séculos III e IV.
A despeito da tese defendida por Santley Jones, o consenso acadêmico atual é que o núcleo original das pseudo-clementinas reflete tradições judaico-cristãs marginais, de ebionitas ou nazarenos, mas que contém elementos anti-heréticos úteis, porém não como uma tradição ortodoxa essencialmente pura. Para uma leitura mais elaborada sobre o assunto de Apócrifos, Pseudo-Epígrafos e Interpolações, leia este artigo.
The Ante-Nicene Fathers, The Clementine Homilies, Homily XI, Chap. VIII. — Liberty and Necessity, p. 286
Mas, você diz, “Primeiramente Deus deveria nos ter feito de forma a que não pensássemos em todas estas coisas”. Você que diz isso, não sabe o que é o livre-arbítrio, e como é possível ser realmente bom, porque aquele que faz o bem por sua própria escolha é bom, de fato. Mas o que faz o bem por causa de outro, sob a força de uma imposição superior, então ele não é bom, de fato, porque ele não está sendo o que é por sua própria escolha. Portanto, uma vez que a liberdade de cada um constitui o verdadeiro bem e mostra o verdadeiro mal, Deus planejou que a amizade ou a hostilidade existissem em cada homem de acordo com a ocasião. Contudo, alguém dirá: “Tudo o que pensamos, é Deus que nos faz pensar”. Cale-se! Por que você blasfema ainda mais dizendo uma coisa dessas? Pois se estivéssemos debaixo da influência de Deus em tudo que pensamos, como você diz, isso significaria que Deus é a causa das fornicações, luxúrias, avarezas e todas as blasfêmias. Encerrem essa maledicência, vocês que deveriam bendizer a Deus e render-lhe toda a honra.
Os Reconhecimentos Clementinos, Livro IV, cap. 19
Portanto está no poder de cada um, uma vez que ao homem foi concedido ser possuidor de livre-arbítrio, se ele irá nos ouvir para alcançar a vida, ou se dará ouvidos aos demônios para sua própria destruição.
Os Reconhecimentos Clementinos, Livro IX, cap. 30
Uma vez que Deus é justo, e que ele mesmo foi quem fez a natureza humana, como ele mesmo poderia colocar o Gênesis contra a gente, que deveria nos compelir a pecar, para que, depois, Deus viesse nos punir quando pecamos? É certo que Deus não pune o pecador por nenhuma outra razão, quer na vida presente, como na que há de vir, a não ser pelo fato de que ele sabe que o pecador é capaz de vencer, mas foi negligente em alcançar a vitória.
Os Reconhecimentos Clementinos, Livro X, cap.12
Mas nós, que aprendemos a razão por trás deste mistério, sabemos a causa, pois, possuidores de liberdade de vontade, algumas vezes nos opomos aos nossos desejos e outras vezes cedemos a eles. Portanto, essa questão das ações humanas é sempre incerta, pois depende do livre-arbítrio.
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