Referências do Debate

Autórafos, Pseudoepígrafos e Apócrifos na era Patrística

Imagem
Loja.NatanRufino.com

PERGUNTA

"Mas nós, que aprendemos a razão por trás deste mistério, sabemos a causa, pois, possuidores de liberdade de vontade, algumas vezes nos opomos aos nossos desejos e outras vezes cedemos a eles. Portanto, essa questão das ações humanas é sempre incerta, pois depende do livre-arbítrio". (Clemente, Recognitions of Clement of Rome X.12)

Oi, Natan! Pode me tirar uma dúvida? Eu pesquisei um pouco sobre, e dizem que esses escritos não são exatamente obras de Clemente de Roma. É isso mesmo? Pelo que vi, dizem que são obras atribuídas falsamente a ele.

RESPOSTA:

Sim, essa é uma questão mais técnica da área da crítica textual, mas para resumir, atualmente entre os estudiosos do assunto, parece haver um concenso de que nem todos os textos atribuídos a Clemente sejam realmente dele.

ANTES DA INVENÇÃO IMPRENSA

As conclusões a respeito de que texto realmente pertence ou não pertence a tal pessoa, e qual teria sido o texto realmente escrito por alguém, é um processo que em alguns casos levou anos para se consolidarem. Esses estudos fazem parte daquilo que é conhecido como "Crítica Textual", ciência pela qual se pretende definir o suposto ou possível texto original de obras antigas, basicamente todas as obras escritas e publicadas em época anterior à invenção da imprensa. Envolve diversos aspectos diferentes que se somam para o objetivo de descobrir o possível texto original da obra e suas possíveis variações. O texto autoral, normalmente chamado de "autógrafo" seria aquele texto original inicialmente escrito por seu autor, que seria replicado em diversas cópias por escribas e copistas ao longo dos anos seguintes. As divergências textuais existentes entre uma cópia e outra, são comumente chamadas de "variantes textuais".

Pouco tempo depois da invenção da imprensa o próprio Novo Testamento começou a ser escrutinado nesse sentido através das diversas cópias disponíveis na época. Estima-se que tenhamos atualmente mais de 4.800 manuscritos do Novo Testamento com cerca de 400.000 variantes textuais. Numa época em que não havia o tipo de tecnologia que temos hoje e todo e qualquer texto tinha que ser produzido à mão, não é difícil de imaginar como as replicações de tais documentos sofriam alterações com mais facilidade do que nos dias de hoje. Havia alterações acidentais, simples consequências do trabalho humano, e havia alterações intencionais, algumas delas, inclusive, supostamente "bem intencionadas", cujo objetivo visava "salvaguardar alguma doutrina" considerada importante para alguns grupos cristãos.

ALTERAÇÕES E FALSIFICAÇÕES

O apóstolo João, ao escrever o livro de Apocalipse, conhecedor dos costumes e da cultura do seu tempo, fez um alerta de que não queria que alterassem seu texto. João reprovou tanto a exclusão, quanto o acréscimo do texto que por ele estava sendo escrito.

  • Apocalipse 22:18: "Eu, João, declaro a todos os que ouvem as palavras desta profecia: Se alguém lhes acrescentar algo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro."
  • Apocalipse 22:19: "E, se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida e da cidade santa, que estão descritas neste livro."

Além disso, também havia aqueles que atribuíam a autoria de certos textos a personalidades famosas para imprimir algum tipo de autoridade ao documento. Pessoas má intecionadas sempre existiram, inclusive nas próprias comunidades cristãs, e algumas dessas pessoas escreviam textos falsificados com o objetivo de enganar os que viessem a ler tais documentos.

Em Segunda Tessalonicenses Paulo parece mencionar uma carta que alegavam ter sido escrita por ele, uma possível falsificação, cujo conteúdo tinha o objetivo de afirmar que "Paulo estaria dizendo agora que a Tribulação estava começando naquele instante, ou seja, antes mesmo do Arrebatamento ter acontecido, como Paulo havia ensinado antes". Uma carta com estas características, além de ser considerada como "apócrifa" em seu sentido atual, também deveria ser rejeitada quanto ao seu valor teológico, ainda que pudesse ser estudada por pessoas interessadas na pesquisa histórica e cultural do pensamento e atitudes cristãs daquele tempo. Em outras palavras, o conteúdo não tinha autenticidade doutrinária, além de não ter autenticidade autoral, sendo útil apenas como um documento antigo que serve para revelar os conflitos de sentimentos dos crentes da época.

AUTENTICIDADE AUTORAL E AUTENTICIDADE DOUTRINÁRIA

Por outro lado, existem alguns documentos antigos que a tradição atribuiu erroneamente a autoria a certos personagens famosos, mas partes do conteúdo têm autenticidade doutrinária, pois repercutem as exatas mesmas afirmações e ensinamentos de documentos reconhecidamente ortodoxos.

Na crítica textual também existem as alterações que são chamadas de interpolações, que se referem à inserção em determinado texto de material que não pertence à sua versão original. Diversas obras daquela época chegaram a sofrer algum tipo de interpolação, inclusive o próprio texto do Novo Testamento. Além disso, alguns textos cuja autoria se tornou incerta, duvidosa ou improvável, foram considerados como "pseudoepígrafos". Embora a palavra grega pseudo signifique "falso", o uso da palavra nesse contexto é empregada como um termo técnico, carregando uma nuance diferenciada. Isso quer dizer que um texto chamado de "pseudo Clemente", por exemplo, não significa que houve falsificação flagrante com a intenção consciente de "enganar ou ludibriar os outros por meio de doutrinas falsas". Muitas vezes o termo é aplicado quando um texto é atribuído a uma figura conhecida, mas os estudiosos consideram que a autoria real é duvidosa ou desconhecida. Frequentemente a utilização do termo serve para indicar que a tradição atribuiu o texto àquele autor específico, mas análises internas relacionadas a questões linguísticas, históricas e teológicas parecem apontar em outra direção, ou, para outra possibilidade. Desta forma, o "pseudo" é comumente usado para se referir à ignorância quanto ao verdadeiro autor, sem necessariamente empregar qualquer julgamento moral quanto à totalidade de seu conteúdo. Sua utilização na crítica textual é predominantemente técnica e neutra, usada para indicar incerteza ou atribuição tradicional incorreta da autoria. Somente em contextos específicos, quando há evidências claras da intenção de enganar ou deturpar alguma verdade, pode-se falar em falsificação deliberada, mas esse não é necessariamente o sentido aplicado para o termo em questão. Além disso, como já foi dito, textos pseudoepígrafos comumente contém abordagens doutrinárias ortodoxas mesmo não tendo sido escritas pelo alegado autor, e, em alguns casos, alguns destes documentos mesclam porções de ortodoxia com elementos heréticos ou de doutrinas que foram defendidas apenas por grupos minoritários ou marginais à ortodoxia cristã. Cada texto tem sua própria identidade, sua própria história e suas próprias características, não se deve generalizar.

Tentar entender o porquê que a tradição atribuiu certos textos a certas pessoas é difícil de se dizer. Um ensinamento qualquer defendido no segundo século, por exemplo, poderia ter sido mantido através de uma tradição oral, e um século depois, algumas partes daquele ensinamento poderiam ser transcritas para o papel e mescladas com alguns outros tópicos da ocasião, e mesmo assim sua autoria ser atribuída ao suposto cristão que inicialmente houvera ensinado aquilo em viva voz em sua época, quando ainda estivera vivo. Noutras ocasiões, alguns cristãos usavam o nome de alguém respeitável para tentar construir mais autoridade na defesa de certos posicionamentos que se queria propagar em alguma luta doutrinária contra as invencioníces gnósticas e de outros grupos heréticos. Às vezes, os próprios grupos heréticos tentavam validar alguns textos adcionando ficções ou interpretações equivocadas envolvendo o nome de alguém famoso como Pedro, Tiago ou Clemente, etc.

Sem documentos que revelem claramente o porquê certas tradições cristãs atribuíram tais textos a certas personalidades, nossos esforços não passarão de especulação, pois não temos a informação completa dos acontecimentos da época. Por outro lado, embora em alguns casos a datação do documento tenha que sofrer alguma alteração, pois teria sido realmente escrito algum tempo depois da morte do alegado autor, o documento continua sendo importante por seu valor histórico e muitas vezes também por seu teor teológico. O estrito fato de a tradição ter atribuído erroneamente uma carta a certo ministro famoso não transforma automaticamente seu conteúdo em herético e inaceitável. É muito comum que em textos daquela época tanto encontremos declarações controversas em documentos autênticos, como também encontremos afirmações e ensinamentos que seguem claramente a ortodoxia patrística em textos pseudoepígrafos. Todos os textos antigos da época patrística são úteis, de uma forma ou de outra, mas não significa que devemos considerá-los "divinamente inspirados" ou em pé de igualdade com os textos canônicos do Novo Testamento.

A carta autêntica de 1ª Clemente, por exemplo, cita como real a história da mítica ave conhecida como Fênix, que, supostamente viveria 500 anos, morria e depois voltava à vida de suas próprias cinzas milagrosamente. E ele não foi o único a citar a mesma ave, Lactâncio, Orígenes e Cirilo de Jerusalém também fizeram o mesmo. No entanto, seus textos, reconhecidamente autênticos, por terem sido realmente escritos por eles, não são descartados como um todo apenas por causa destas partes. Justino Mártir, em outro exemplo, em sua Segunda Apologia, também considerada uma carta autenticamente escrita por ele, chega a afirmar que "os demônios são filhos de anjos com seres humanos", e nem por isso o fato de a carta ser autêntica, valida tal declaração. No sentido inverso, há inúmeras declarações doutrinariamente corretas em textos pseudoepígrafos, que, a despeito de não se saber o verdadeiro autor do texto, não há absolutamente coisa alguma errada, pois segue de muito perto a linha ortodoxa da igreja primitiva, e sabemos disso pois são declarações quase idênticas a afirmações de outras cartas consideradas autênticas e ortodoxas.

CLEMENTE DE ROMA

Clemente de Roma fora um cristão que parece ter vivido na mesma época do apóstolo Paulo, ajudando-o como seu companheiro de ministério e sendo inclusive citado por ele em Filipenses 4.3. Viveu entre os anos 35 e 99 d.C. e acredita-se que ele tenha escrito uma das cartas mais antigas do Cristianismo depois dos textos que compoem o Novo Testamento. Sua carta fora escrita aos irmãos de Corinto e é datada por volta do ano 96 d.C. Além da carta aos coríntios, único texto unanimemente aceito como autêntico no consenso acadêmico, outros textos também chegaram a ser atribuídos a Clemente, cuja autenticidade, porém, tem sido questionada por diversos especialistas ao longo do tempo. Há um total de 10 grupos de textos principais, além da carta aos coríntios.

Há também um segundo texto entitulado "segunda epístola de Clemente aos coríntios" que é considerado um texto autêntico, porém, segundo especialistas da área, atribuído erroneamente à pessoa de Clemente. Esta carta teria sido escrita por volta dos anos 120 a 150 d.C. cujo autor ou autores seriam desconhecidos. No entanto, mesmo que esta carta, assim como outros documentos semelhantes, não tenham sido realmente escritos pela pessoa a quem a tradição atribuiu a autoria, eles continuam sendo importantes por seu valor histórico e muitas vezes também por seu teor teológico.

Além dos dois documentos citados acima, outros textos atribuídos a Clemente são:

  1. Duas cartas sobre virgindade, provavelmente escritas entre 250–300 d.C., atribuídas a Clemente em tradições orientais antigas, mas nunca amplamente aceitas como autênticas na Antiguidade ocidental. Apenas no século XVI foram reclassificadas como inautênticas e confirmadas nesse status posteriormente no século XIX.
  2. Há também 20 homilias romanceadas sobre viagens de Pedro, debates com Simão, o Mago e teologia judaico-cristã. Estas homilias parecem terem sido escritas em épocas diferentes, seu núcleo central teria sido escrito entre os anos 200 e 250 d.C. e sua forma final, como as conhecemos hoje, entre os anos 300 e 350 d.C.. Tais homilias foram atribuídas a Clemente na antiguidade, porém, inicialmente reclassificadas como inautênticas no século IV e confirmadas no status de inautênticas no século XIX.
  3. 10 livros romanceados semelhantes às Homilias, preservados em latim e siríaco. O núcleo destes livros, chamados de "Reconhecimentos Clementinos", devem ter sido escritos entre os anos 200 e 250 d.C., e a forma final que chegou aos nossos dias, parece ter sido escrita por volta dos anos 300 e 350 d.C.. Atualmente, também são considerados inautênticos ou "pseudo epígrafos". Foram atribuídos a Clemente por volta do 4º século, e, na mesma época, já foram considerados inautênticos, sendo confirmados assim no século XIX.

UTILIDADE PARCIAL DAS PSEUDO CLEMENTINAS

Tendo dito isso, é importante saber que alguns textos das homilias e dos reconhecimentos, atribuídos erronea ou falsamente a Clemente de Roma, já foram usados como argumentos válidos contra o dualismo, para a defesa da unidade de Deus ou para defender a continuidade entre Antigo e Novo Testamento e para refutar heresias do Gnosticismo e do Marcionismo. Apesar da reconhecida inautenticidade autoral de tais textos, ao mesmo tempo há também o reconhecimento da autenticidade doutrinária presente em inúmeras partes deles. Resumindo, embora tais textos sejam amplamente reconhecidos como inautênticos, alguns dos seus trechos demonstram completa harmonia com a ortodoxia geral da igreja primitiva.

  • Epifânio de Salamina (315-403 d.C.): Obra: Panarion ou "Contra as Heresias" - 30.15, (1) Mas eles [os ebionitas] usam alguns outros livros também — as chamadas e supostas Viagens de Pedro escritas por Clemente, embora corrompam seu conteúdo enquanto deixam algumas poucas passagens genuínas. (2) O próprio Clemente os condena de todas as maneiras em suas epístolas gerais, que são lidas nas santas igrejas, porque sua fé e sua fala são de caráter diferente das produções espúrias feitas em seu nome nas Viagens....

Observe que Epifânio considerava como espúrias "As Viagens de Pedro", texto que fazia parte das pseudo-clementinas. Ele as menciona como falsamente atribuídas a Clemente. No entanto, obseve que ele reconhece que os heterodoxos ebionitas mencionados acima, "corropem seu contéudo" e que também "deixaram algumas passagens genuínas" no texto. Além disso, Epifânio cita as "epístolas gerais escritas pelo próprio Clemente que eram lidas nas igrejas", uma provável referência às duas epístolas de Clemente aos irmãos de Corinto, pois, embora hoje a segunda carta não seja considerada autenticamente escrita por Clemente, ela foi considerada assim por muito tempo.

A presença de porções genuinamente ortodoxas nas pseudo-clementinas pode ser admitido por inferência até mesmo pelo fato de que Rufino por volta de 407 d.C. decidiu traduzí-las do grego para o latim editando as partes consideradas heréticas para tentar deixar apenas as "partes genuínas", que, inclusive, já haviam sido mencionadas por Epifânio. Rufino pretendia deixar presentes no texto apenas as partes úteis para edificação ortodoxa e refutações anti-heréticas, como, por exemplo, abordagens feitas contra o Gnosticismo.

  • Rufino de Aquiléia (345-411 d.C.) Obra: Reconhecimentos de Clemente, Ao prefaciar a obra, Rufino comenta: "Eu, porém, como pude, removi o que me parecia inserido contra a fé universal... O restante, que contém doutrina sã, revisei em dez livros. Pois no códice grego que recebi, havia dez livros, mas neles muitas coisas foram inseridas que repugnavam à doutrina sã."

A CRENÇA EM UM NÚCLEO GENUÍNO

Epifânio parece pressupor que as pseudo-clementinas derivam de um texto ou tradição original genuínos, talvez uma narrativa apostólica perdida ou elementos deixados pelo Clemente autêntico, que teriam sido "corrompidos" pelos ebionitas. Epifânio trata o texto, na forma que o conhecia, como uma produção espúria dos ebionitas, porém, ao mesmo tempo, reconhecia partes "não corrompidas" que estavam alinhadas com a ortodoxia.

Acadêmicos como F. Stanley Jones interpretam que Epifânio enxergava um "proto-texto" ortodoxo deturpado, similar ao que era feito pelos heréticos quando alteravam Evangelhos. Jones é um acadêmico especializado em literatura pseudo-clementina, e suas sugestões sobre um "proto-texto", ou seja, uma fonte original mais antiga que teria sido deturpado por editores ebionitas, aparecem principalmente em sua obra: An Ancient Jewish Christian Source on the History of Christianity: Pseudo-Clementine Recognitions (Uma Antiga Fonte Judaico-Cristã sobre a História do Cristianismo: Os Reconhecimentos Pseudo-Clementinos). Ele argumenta que parte dos Reconhecimentos deriva de uma fonte judaico-cristã do século II d.C., provavelmente proto-ortodoxa em seu núcleo, editada e deturpada posteriormente por ebionitas entre os séculos III e IV.

A despeito da tese defendida por Santley Jones, o consenso acadêmico atual é que o núcleo original das pseudo-clementinas reflete tradições judaico-cristãs marginais, de ebionitas ou nazarenos, mas que contém elementos anti-heréticos úteis, porém não como uma tradição ortodoxa essencialmente pura.

Além disso, é importante de se dizer que os estudiosos da área podem mudar de opinião à medida que novos elementos e variáveis sejam acrescentados ao debate. Até recentemente, por exemplo, acreditva-se que as duas cartas de Clemente à igreja de Corinto eram ambas autênticas. Hoje, todavia, apenas a primeira carta mantém o mesmo status. Isso não significa, porém, que a segunda carta não tenha sua importância histórica e teológica para revelar detalhes da época em que ela fora escrita, independente de quem tenha sido o verdadeiro autor que segurou a pena.

CONCLUSÃO

A Primeira Epístola de Clemente foi provavelmente escrita no final do século I d.C., e sua datação mais comum sendo por volta de 96 d.C., durante o reinado do imperador Domiciano. Essa carta é considerada a mais antiga epístola cristã existente fora dos livros do Novo Testamento. Embora a carta tenha sido escrita antes da enorme profusão do Gnosticismo e não trate diretamente de qualquer doutrina especificamente gnóstica, seu texto é permeado de alusões à responsabilidade humana e ao livre-arbítrio, como você pode conferir nos seguintes artigos:

  1. Resposta a uma interpretação predestinista de uma passagem da carta de Clemente;
  2. Apresentação do conteúdo, propósito e abordagens de Clemente em sua carta;
  3. Lista de citações importantes da primeira carta de Clemente aos coríntios.

Sua Primeira Epístola aos irmãos de Corinto não trata de forma explícita e sistemática do conceito de livre-arbítrio, como farão escritores cristãos posteriores como Justino, Irineu, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Hipólito de Roma, Orígenes, Arquelau, Novaciano, Lactâncio, Eusébio de Cesareia, Metódio e Efraim. No entanto, a carta afirma expressamente que os cristãos são responsáveis por suas ações, podendo escolher entre obedecer ou não aos mandamentos de Deus. Clemente exorta os coríntios à conversão, ao arrependimento e à obediência voluntária, indicando que os membros da comunidade são livres para agir corretamente ou não. Quando Clemente conclama os irmãos a "obedecerem à vontade excelsa e gloriosa de Deus" e que "recorram à sua misericórdia", o que se pressupõe é a capacidade de escolha e a responsabilidade moral. A carta enfatiza a necessidade de conversão e mudança de conduta, sugerindo que o ser humano pode optar pelo arrependimento e pelo cumprimento dos preceitos cristãos. Essas exortações indicam uma visão positiva da liberdade humana diante da vontade divina, embora não exista uma discussão aprofundada sobre o livre-arbítrio como aparecerá contundentemente em escritos cristãos posteriores, como já mencionado.

No caso dos documentos considerados pseudoepígrafos atribuídos a Clemente, é importante mencionar que algumas porções das Homilias e dos Reconhecimentos tratam especificamente contra algumas das ideias defendidas no Gnosticismo, como a ideia gnóstica de que "o homem não teria autonomia e não seria possuidor de livre-arbítrio" como defendiam os cristãos. Porém, o fato curioso a respeito destas obras é que, a despeito de não serem reconhecidas como tendo sido escritas por Clemente, estas partes dos documentos, consideradas como genuínas por muitos, em todos os pormenores argumentativos em favor do livre-arbítrio, são impressionamente iguais a todos os outros textos reconhecidamente autênticos da patrística.

Por fim, mesmo que o texto original, posteriormente adulterado, não tenha sido realmente escrito por ele, e mesmo que o ensino original, que por fim acabou sendo registrado ali, não tenha sido originalmente ensinado por Clemente, uma coisa é certa: alguém muito inteligente e sensivelmente conectado à ortodoxia da igreja quanto ao livre-arbítrio, em algum momento da história passou para o papel aquilo que continuaria sendo defendido por centenas de anos até a futura interferência definitiva do Gnosticismo na comunidade cristã por volta do quinto século. Se o tal texto seria usado depois pelos ebionitas para proveito próprio, isso já é outra história.

Imagem
Loja.NatanRufino.com

Te aconselho a estudar calmamente o contéudo das páginas 85 a 166 do meu livro “As Origens Gnósticas do Calvinismo”. Lá, eu trato em detalhes sobre esse assunto e exploro diversos registros da patrística considerados "autênticos" relacionados ao tema do Livre-Arbítrio. Se por acaso você ainda não tiver o livro, você pode comprá-lo aqui: https://Loja.NatanRufino.com.


 ● YouTube | Telegram | Instagram | Facebook | Aplicativo | Loja de Livros

Atualizado em 25/03/2026