Referências do Debate

Otávio de Minúcio Félix

Imagem
Loja.NatanRufino.com

A obra de Minúcio Félix, escrita por volta do final do século II ou início do terceiro século, retrata um debate entre um crítico pagão chamado Cecílio e um cristão, amigo pessoal de Félix, chamado Otávio.

  1. Cecílio Natalis é o personagem pagão que ataca o Cristianismo com base em diversas percepções equivocadas a respeito do tema.
  2. Otávio Januário é o cristão que defende a fé, explicando a verdadeira crença cristã e corrigindo os erros de interpretação do seu oponente.
  3. Marcus Minúcio Félix é o autor do texto, que atua como mediador e narrador do desenvolvimento do debate.

Cecílio, equivocado a respeito da real crença cristã, acusa o Cristianismo de ser determinista ou fatalista porque, na visão dele, os cristãos supostamente atribuíam tudo ao destino, negando a responsabilidade moral humana e ainda por cima tornando seu próprio Deus cristão um juiz injusto. Seu argumento se baseia no fato de que, segundo ele imaginava na ocasião, o Deus cristão puniria ou recompensaria as pessoas sem que elas tivessem real liberdade de escolha, pois, segundo imaginava, os cristãos estariam dizendo que Deus era quem determinava tudo arbitrariamente. Em determinado momento, referindo-se aos cristãos, ele diz:


Se um leitor desavisado e consideravelmente ingênuo passasse por um texto como esse, poderia pensar que o fato de alguém estar acusando um cristão de ter crenças semelhantes aos pagãos, provaria que tanto os defensores da ideia de destino quanto os cristãos daquela época, pensavam do mesmo jeito. Até os próprios filósofos estoicos que prezavam por uma vida de virtude e autocontrole, que em seus discursos mencionavam a sabedoria e beleza do logos como razão divina de ordenamento do mundo, que vez ou outra eram citados positivamente por cristãos em seus livros, ainda assim, divergiam do Cristianismo em relação ao predestinismo, pois embora o Estoicismo valorizasse as virtudes de uma vida honrada, eram deterministas e fatalistas supondo que o destino seria inevitável. Na verdade, a ideia de destino inevitável e outras nuances do predestinismo astrológico, estoico ou gnóstico estavam entre os pontos mais combatidos e refutados pelo Cristianismo da época.

Acusações infundadas e baseadas em confusão mental e associações indevidas projetadas na cabeça do próprio acusador não transformam suas acusações em verdade absoluta. Acusaram Jesus de ser "bebedor de vinho alcoólico e de ter demônio", isso quer dizer que devemos assumir que, uma vez que ele foi acusado, isso deve ser verdade?

A crítica de Cecílio reflete não apenas sua percepção pagã do conceito bíblico de que Deus rege o universo como Senhor e Soberano, mas também revela sua ignorância e confusão quanto ao que era realmente ensinado pelo Cristianismo ortodoxo. Como pagão, externo ao Cristianismo, Cecílio pode facilmente ter confundido ou generalizado aspectos da fé realmente cristã com ideias de grupos marginais ou hereges que circulavam no século II — assim como Celso fez em seu "Discurso Verdadeiro", escrito por volta de 177-180 d.C., segundo as refutações de Orígenes em seu livro "Contra Celso".


Orígenes explicitamente acusa Celso de confundir doutrinas cristãs ortodoxas com opiniões de seitas heréticas, especialmente as gnósticas, como no caso dos alunos de Valetino, que, mesmo se dizendo cristãos, acreditavam neste predestinismo que baseava-se na ideia de naturezas eternamente destinadas ao céu e naturezas eternamente inconversíveis. Assim, confuso e ignorante a respeito do assunto, Celso tratava tudo como se fosse a doutrina cristã comum.

Em seu livro Orígenes diz repetidamente que Celso confunde doutrinas cristãs com opiniões de alguma seita herética. Menções a esta confusão de Celso aparecem por todo o livro de Orígenes, começando no prefácio da obra e passando por vários capítulos de praticamente todos os livros da coleção. Celso parecia confundir e misturar opiniões gregas, bárbaras e heréticas sem distinguir uma coisa da outra. Assim como Cecílio, mencionado na obra de Félix, Celso, citado por Orígenes, como observador pagão externo não se preocupava em diferenciar "cristãos verdadeiros" de "heréticos" — para ele, tudo fazia parte da mesma "superstição nova e bárbara" que ameaçava a ordem romana tradicional. Celso ouvia rumores das crenças cristãs, lia textos circulantes, incluindo textos dos cristãos gnósticos e simplesmente misturava tudo e generalizava.





Os "ofitas" mencionados acima, faziam parte de um dos inúmeros seguimentos gnósticos do Cristianismo. Seu nome vem da palavra grega para "serpente" (óphis - ὄφις), de onde também temos em português o soro "antiofidico". Os gnósticos ofitas acreditavam que estavam presos em um mundo totalmente depravado e corrompido, criado e administrado por um deus enganador e mau, e que numa das primeiras manifestações da graça de Deus na história, o próprio Cristo teria tentado se comunicar com Adão e Eva através da serpente do paraíso para abrir seus olhos para a realidade que lhes estava encoberta. Neste sentido, Cristo, manifesto pela primeira vez no mundo como serpente, tentou libertar os homens da ignorância para lhes conferir o conhecimento supostamente correto e mais profundo sobre o bem e o mau.

Marcião, também citado acima no texto de Orígenes, era outro cristão gnóstico da metade do segundo século. Orígenes comenta sobre uma má interpretação feita por Celso, que, mais uma vez confuso, mistura algumas ideias gnósticas com o pensamento cristão tradicional. Celso, inadivertidademente, pegou refutações de alguns cristãos contra as ideias de Marcião e julgou que aquilo seria o que os próprios cristãos acreditavam:

"Citando então nossos argumentos contra Marcião, e não observando que é contra Marcião que se está falando, ele pergunta: Por que Deus envia e destrói secretamente as obras que ele mesmo criou?"

Os cristãos não estavam afirmando que Deus "estabelece uma coisa e que, secretamente, orquestra outro plano contrário à sua própria vontade revelada". Quando eles questionam, "por que Deus determinaria algo, mas ao mesmo tempo, secretamente determinaria a destruição do que estabeleceu", eles não estavam afirmando essa tolice, eles estavam questionando a visão gnóstica de Marcião! Celso, mais uma vez, simplesmente não foi capaz de discernir uma coisa da outra. Além disso, Orígenes diz que Celso "concluiu preciptadamente que pelo fato dos cristãos tradicionais ensinarem que o mundo é obra do Deus único e verdadeiro que isso significaria que os cristãos acreditavam e pregavam que o próprio Deus, por criar e reger o mundo em sua soberania, também seria o autor do mal presente no mundo". Confusão típica de quem confude "permissão" com "determinação". O fato de Deus não ter impedido a presença do mal neste mundo, não tem absolutamente nada que ver com a sua vontade. O fato de um pai ter concedido um carro a seu filho e o filho ter sofrido um acidente com o mesmo carro que seu pai lhe deu, não torna seu pai culpado pelo acontecimento só porque o pai lhe permitiu ter o carro e correr o risco de sofrer o acidente.

Celso, preciptado, concluiu que os cristãos diziam que "se Deus criou e rege o mundo por sua sabedoria, logo, tudo que acontece de ruim neste mundo deve estar de alguma forma ligada à vontade de Deus".

A abordagem de Cecílio, personagem do livro de Minúcio Félix, é muito semelhente à de Celso, embora no texto de Félix não haja uma explícita declaração de que ele confudia e misturava as coisas que houvesse ouvido de fontes diferentes. Na verdade, o texto de Félix nos informa que a confusão interpretativa sobre o pensamento cristão por parte de Cecílio e de outros pagãos que como ele não entendiam muita coisa, era consequência de interferência diabólica na cabeça deles.


"Aqueles mesmos DEMÔNIOS ENCHIAM OS OUVIDOS DOS IGNORANTES contra nós, para horror de sua execração. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXVIII)

Isso é negócio dos demônios, pois POR ELES rumores falsos são tanto semeados quanto cultivados. DAÍ SURGE O QUE DIZEIS QUE OUVIS: que entre nós a cabeça de um asno é considerada coisa divina”. Quem é tão tolo a ponto de adorar isso? QUEM É AINDA MAIS TOLO A PONTO DE ACREDITAR que isso seria objeto de adoração? (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXVIII)

ASSIM, eles [OS DEMÔNIOS] arrastam os homens [...] e OS AFASTAM DO VERDADEIRO DEUS [...] perturbam a vida, tornam todos os homens inquietos [...] ATERRORIZAM AS MENTES... (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXVII)

É provável que assim como Celso, Cecílio também tenha ouvido as interpretações de cristãos gnósticos, que muito se assemelhavam às filosofias deterministas do Estoicismo e outros fatalismos pagãos e tenha pensado que todos os cristãos acreditavam exatamente assim.

Observe a confusão feita por Cecílio:

  1. Parte do texto revela que Cecílio havia tido contato com afirmações cristãs convencionais: "Dizem que ressuscitarão após a morte [...] e Enganados por esse erro, prometem a si mesmos, por serem bons, uma vida abençoada e perpétua após a morte; aos outros, por serem injustos, castigo eterno". Embora a linguagem de Cecílio não retrate fielmente os termos usados pelos cristãos, pode-se concluir que ele deve ter ouvido ou lido argumentos cristãos que afirmavam que haverá ressusrreição de "justos" e "injustos" e que cada um "receberá conforme suas obras".
  2. Parte do texto revela que Cecílio misturava ideias cristãs tradicionais com as ideias predestinistas dos gnósticos: "Porém, mesmo que eu lhes considerasse como justos, ainda assim o consenso deles também concorda com as opiniões de muitos, ou seja, que a culpa e a inocência são atribuídas pelo destino". A "opinião de muitos" é uma expressão generalizada, mas, certamente, pelo contexto da época, poderiam ser incluídas as ideias de destino propagadas pelos que acreditavam na força dos astros celestes sobre o homem, as ideias deterministas dos filósofos do Estoicismo e o sentimento geral dos pagãos ignorantes. Por que Cecílio atribuiu tais ideias à doutrina cristã? Porque havia cristãos gnósticos que defendiam princípios predestinistas semelhantes aos defendidos no Estoicismo.
  3. Parte do texto revela que Cecílio confundiu ensinamentos gnósticos com o verdadeiro Cristianismo ensinado pelo seguimento tradicional e ortodoxo: "Assim como alguns atribuem tudo que fazemos ao destino, semelhantemente vocês atribuem tudo a Deus". Cecílio concluiu preciptadamente que "os cristãos" haviam simplesmente remodelado os pensamentos pagãos e dos filósofos do Estoicismo e os adaptado ao Cristianismo. E agora, no Cristianismo, segundo Cecílio, "em vez de os homens fazerem o que fazem por determinação do destino, eles o faziam por determinação de Deus".
  4. Cecílio, inconsciente de que ataca um Cristianismo trans, divergente do pensamento cristão tradicional, argumenta revelando sua indignação contra a lógica perversa que lhe foi apresentada como se fosse o pensamento original: "Desta forma, segundo a vossa seita, se acredita que os homens agirão, não por sua própria vontade, mas como eleitos para querer". Cecílio estava dizendo que havia entendido que aqueles cristãos ensinavam que o comportamento humano não era resultado direto do que os próprios homens queriam, pois, segundo havia entendido, as afirmações cristãs que ele conheceu diziam que "os homens eram escolhidos por Deus para querer o que Deus queria que eles quisessem". Mais ou menos como a doutrina compatibilista inventada pelo Estoicismo, ou seja, "o homem é livre para fazer o que foi determinado". No Estoicismo se dizia que o homem é possuidor de livre-arbítrio, mas este livre-arbítrio nunca fará qualquer coisa diferente do que já houvera sido determinado.
  5. A conclusão lógica de Cecílio, baseada em afirmações duvidosas de cristãos gnósticos e predestinistas não poderia ser outra: "Portanto, vocês inventam um juiz que é iníquo, pois pune nos homens não a própria vontade deles, mas o próprio destino que lhes foi estabelecido". Obviamente que sua conclusão está correta, apenas não se baseava numa doutrina verdadeiramente cristã. Se Deus é aquele que determina que o homem queira certa coisa ruim e reprovável e depois o pune por ter querido exatamente isso, é claro que este Deus seria iníquo, injusto e mau. Observe também que Cecílio chama de "destino", o presente comportamento humano que será futuramente julgado, porém, quando formos ler a resposta de Otávio às suas acusações, Otávio tratará o "destino" como o futuro resultado consequente das atuais escolhas dos homens. Enquanto Cecílio interpretava o destino como a vida vivida no presente, Otávio tratará o destino como o futuro resultado das escolhas feitas no presente.

No século II, o Cristianismo era visto de fora como um movimento heterogêneo, cheio de seitas e filosofias diversas subdivididas entre os grupos gnósticos, marcionitas, ofitas, etc.. Críticos pagãos como Celso e Cecílio não tinham interesse em nuance interna. Os cristãos gnósticos como o grupo de Valentino, por exemplo, eram abertamente deterministas, porém, cristãos como Otávio, que seguia mais de perto o pensamento tradicional, defendia o real livre-arbítrio humano e não confundia a soberania e providência de Deus com uma suposta manipulação divina de todas as coisas, como insinuavam os deterministas.

A crítica de Cecílio parece vir de uma caricatura pagã genérica quanto ao pensamento cristão: "se Deus sabe e governa tudo em sua sabedoria, então por que punir ou recompensar?". Supondo que os cristãos diziam que "tudo que acontece, só acontece pela própria determinação de Deus", Cecílio argumenta que isso transformaria a religião cristã em fatalista e imoral. Pagãos como Cecílio e Celso frequentemente confundiam tudo o que soava "cristão", incluindo elementos gnósticos, porque viam o Cristianismo como uma ameaça unificada à tradição romana.


Por fim, no livro de Félix, Cecílio inicia de fato suas acusações e a apresentação de suas interpretações confusas quanto ao Cristianismo, no capítulo 5, e assim continua até o capítulo 13. Otávio, por sua vez, começa a responder as acusações de Cecílio no capítulo quinze e permanece argumentando até o capítulo 38. Em meio a tudo que Otávio usará para contrapor às ideias do confuso crítico do Cristianismo, gostaria de listar aqui apenas alguns argumentos selecionadas de parte da sua resposta. Leia com atenção.

Para uma lista maior de citações extraídos do livro de Minúcio Félix, veja o artigo "Respostas de Otávio a Cecílio".

  1. “Nem eu me recuso a admitir o que Cecílio se esforçou seriamente por sustentar entre os pontos principais: que o homem deve conhecer a si mesmo, e olhar ao redor e ver o que é, de onde vem, por que existe; se foi reunido a partir dos elementos, ou harmoniosamente formado por átomos, ou melhor, feito, formado e animado por Deus. E é exatamente isso que não podemos buscar nem investigar sem uma indagação sobre o universo; pois as coisas estão de tal modo conectadas, tão entrelaçadas e associadas umas às outras, que, A MENOS QUE VOCÊ EXAMINE DILIGENTEMENTE A NATUREZA DA DIVINDADE, você necessariamente SERÁ IGNORANTE DA NATUREZA DA HUMANIDADE. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XVII)
  2. “...Especialmente porque, nesse aspecto, nós diferimos das feras selvagens: enquanto elas estão inclinadas e voltadas para a terra, e nasceram para olhar apenas para o seu alimento, nós, cujo rosto está erguido, cujo olhar se volta para o céu — assim como nossa fala e nossa razão, PELAS QUAIS RECONHECEMOS, SENTIMOS E IMITAMOS DEUS —, NÃO TEMOS nem direito nem RAZÃO PARA SERMOS IGNORANTES da glória celestial que SE FORMA DIANTE DOS NOSSOS OLHOS E SENTIDOS. Pois é quase tão grave quanto o mais grosseiro sacrilégio procurar no chão aquilo que se deve encontrar no alto. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XVII)
  3. A PRÓPRIA BELEZA DA NOSSA FIGURA confessa especialmente que Deus é o seu artífice: nossa postura ereta, nosso rosto voltado para cima, nossos olhos colocados no alto [...] e todos os demais sentidos como se estivessem dispostos numa cidadela.” (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XVII)
  4. Agora, se ao entrar em alguma casa você visse tudo refinado, bem arrumado e adornado, certamente acreditaria que um senhor preside aquela casa e que ele próprio é muito superior a todas aquelas coisas excelentes. Assim também nesta casa do mundo, quando você contempla o céu e a terra, sua providência, sua ordem, sua lei, CREIA que existe um Senhor e Pai do universo muito mais glorioso que as próprias estrelas e que as partes do mundo inteiro. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XVIII)
  5. Não é verdade que nisso eu tenho o consentimento de todos os homens? Ouço o povo comum, quando ergue as mãos ao céu, não dizer outra coisa senão: “Ó Deus”, “Deus é grande”, “Deus é verdadeiro” e “se Deus permitir”. Observe que ESTE É O DISCURSO NATURAL DO POVO COMUM e não a oração de um cristão confesso. E aqueles que falam de Júpiter como o principal estão errados quanto ao nome, mas concordam quanto à unidade do poder”. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XVIII)
  6. Ouço TAMBÉM OS POETAS anunciandoo ÚNICO PAI dos deuses e DOS HOMENS’ [...] O que diz o mantuano Maro? Não é ainda mais claro, mais apropriado, mais verdadeiro? [...] O mesmo poeta, em outro lugar, chama aquela mente e espírito de Deus. Pois estas são as suas palavras: ‘Pois aquele Deus permeia todas as terras, e os espaços do mar, e o céu profundo, DE QUEM PROVÊM OS HOMENS e os gados; de quem provêm a chuva e o fogo.’ Através de que elementos Deus é anunciado por nosso intermédio senão por nossa mente, razão e espírito? (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XIX)
  7. Se for do agrado, revisemos o ensinamento dos FILÓSOFOS. Embora em discursos variados, nestes assuntos você OS ENCONTRARÁ CONCORDANDO E CONCORDANDO NESTA ÚNICA OPINIÃO [...] Que Tales de Mileto seja o primeiro de todos, pois foi ele o primeiro a disputar sobre as coisas celestes. Esse mesmo Tales de Mileto disse que a água era o princípio das coisas, mas que Deus era aquela mente que, a partir da água, formou todas as coisas [...] uma explicação mais elevada e nobre da água e do espírito que jamais foi descoberta pelo homem. FOI-LHE ENTREGUE POR DEUS. Você vê que a opinião desse filósofo original concorda absolutamente com a nossa. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XIX)
  8. Aristóteles varia, mas no entanto atribui uma unidade de poder: pois em um momento diz que é a Mente, em outro o Mundo e noutro é Deus; em outro momento COLOCA DEUS ACIMA DO MUNDO. Heráclides do Ponto também atribui, embora de várias maneiras, uma mente divina a Deus. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XIX)
  9. Pois Xenofonte, O SOCRÁTICO, diz que a forma do verdadeiro Deus não pode ser vista, e portanto não deve ser indagada. Aristo, O ESTOICO, diz que ele não pode ser compreendido de modo algum. E ambos SENTIRAM A MAJESTADE DE DEUS, enquanto desesperavam de compreendê-lo. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XIX)
  10. PLATÃO tem um DISCURSO MAIS CLARO SOBRE DEUS, tanto nas próprias coisas quanto nos nomes pelos quais as expressa; e seu discurso seria inteiramente celestial, se não fosse ocasionalmente manchado por uma mistura de crença meramente civil. Portanto, no Timeu de Platão, Deus é, pelo próprio nome, o pai do mundo, o artífice da alma, o fabricador das coisas celestes e terrestres, a quem tanto descobrir ele declara ser difícil, por causa de seu poder excessivo e incrível; e, quando descoberto, impossível de falar em público. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XIX)
  11. QUASE AS MESMAS são também as nossas opiniões. Pois nós tanto conhecemos quanto falamos de um Deus que é pai de todas as coisas... (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XIX)
  12. Expus as OPINIÕES DE QUASE TODOS OS FILÓSOFOS CUJA GLÓRIA MAIS ILUSTRE É TER APONTADO QUE EXISTE UM ÚNICO DEUS, embora com muitos nomes; de modo que alguém poderia pensar ou que os cristãos são agora filósofos, ou que os filósofos já eram então cristãos. Mas, se o mundo é governado pela providência e dirigido pela vontade de um único Deus, a antiguidade de pessoas inexperientes NÃO DEVE — por mais encantada e fascinada que esteja com suas próprias fábulas — NOS ARRASTAR PARA O ERRO DE UM ACORDO MÚTUO, quando isso é refutado pelas opiniões de seus próprios filósofos, que são apoiadas tanto pela autoridade da razão quanto pela da antiguidade. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XX)
  13. ASSIM, eles [OS DEMÔNIOS] arrastam os homens para baixo do céu e OS AFASTAM DO VERDAEIRO DEUS para as coisas materiais: perturbam a vida, TORNAM TODOS OS HOMENS INQUIETOS; insinuando-se também secretamente nos corpos humanos, com sutileza, por serem espíritos, fingem doenças, ATERRORIZAM AS MENTES, contorcem os membros; para que constranjam os homens a adorá-los, saciados com os vapores dos altares ou com os sacrifícios de gado, de modo que, ao remitir o que haviam ligado, pareçam tê-lo curado. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXVII)
  14. Assim, [OS DEMÔNIOS] fogem dos cristãos quando estes estão próximos, aos quais, à distância, atormentavam por meio de vós em suas assembleias. E assim, introduzidos nas MENTES DOS IGNORANTES, semeiam ali secretamente um ódio contra nós por meio do medo. Pois é natural tanto odiar aquele a quem se teme quanto prejudicar aquele a quem se temeu, se for possível. Assim, TOMAM POSSE DAS MENTES e OBSTRUEM OS CORAÇÕES, para que os homens comecem a nos odiar antes de nos conhecerem; PARA QUE, se conhecidos, NÃO NOS IMITEM... (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXVII)
  15. Nem era de admirar, pois o rumor comum dos homens, que é sempre alimentado pela disseminação de falsidades, se dissipa quando a verdade vem à luz. Assim, ISSO É NEGÓCIO DE DEMÔNIOS, pois por eles rumores falsos são tanto semeados quanto cultivados. DAÍ SURGE O QUE DIZEIS QUE OUVIS: que entre nós a cabeça de um asno é considerada coisa divina”. Quem é tão tolo a ponto de adorar isso? QUEM É AINDA MAIS TOLO A PONTO DE ACREDITAR que é isso objeto de adoração? (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXVIII)
  16. “Pensais que ocultamos o que adoramos por não termos templos nem altares? No entanto, que imagem de Deus eu farei, se, pensando corretamente, O PRÓPRIO HOMEM É A IMAGEM DE DEUS? (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXII)
  17. AQUELE QUE CULTIVA A INOCÊNCIA SUPLICA A DEUS; AQUELE QUE CULTIVA A JUSTIÇA oferece sacrifícios a Deus; AQUELE QUE SE ABSTÉM DE PRÁTICAS FRAUDULENTAS aplaca a [ira de] Deus; AQUELE QUE ARRANCA O HOMEM DO PERIGO imola a vítima mais aceitável. Estes são os nossos sacrifícios, estes são os nossos ritos de adoração a Deus; assim, entre nós, AQUELE QUE É MAIS JUSTO É O MAIS RELIGIOSO. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXII)
  18. Mas, além disso, DIZEM QUE DEUS IGNORA as AÇÕES do homem; e, estabelecido no céu, não pode nem supervisionar tudo nem conhecer os indivíduos. Errais, ó homens, e estais enganados; pois de onde estaria Deus distante, quando todas as coisas [...] estão cheias de Deus? Em toda parte ele não só está muito perto DE NÓS, mas está INFUNDIDO EM NÓS. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXII)
  19. “[...] Parecemos muitos a nós mesmos, mas para Deus somos muito poucos. Nós distinguimos povos e nações; PARA DEUS, ESTE MUNDO INTEIRO É UMA SÓ FAMÍLIA. Os reis só conhecem todos os assuntos de seu reino por meio dos serviços de seus servos: Deus não precisa de informação. Nós não só VIVEMOS AOS SEUS OLHOS, mas TAMBÉM EM SEU SEIO. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXIII)
  20. Mas OBJETA-SE que DE NADA APROVEITOU aos judeus o fato de que eles mesmos adoravam o único Deus [...] Sois culpados de ignorância se recordais os EVENTOS POSTERIORES, mas não vos lembrardes ou forem inconscientes dos ACONTECIMENTOS ANTERIORES. Pois eles mesmos também, ENQUANTO ADORAVAM o nosso Deus — e ele é o mesmo DEUS DE TODOS —, com castidade, inocência e religião, ENQUANTO OBEDECIAM AOS SEUS SALUTARES PRECEITOS, de poucos tornaram-se inumeráveis, de pobres tornaram-se ricos, de servos tornaram-se reis; poucos sobrepujaram muitos; homens desarmados sobrepujaram homens armados enquanto estes fugiam deles, seguindo-os por ordem de Deus, e com os elementos lutando em seu favor. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXIII)
  21. LEDE COM CUIDADO as suas ESCRITURAS, ou, se preferirdes os escritos romanos, indagai acerca dos judeus nos livros [...] de Flávio Josefo ou de Antonino Juliano, e sabereis que FOI POR SUA MALDADE QUE MERECERAM ESSA SORTE, e que nada aconteceu que não lhes tivesse sido predito antes, CASO PERSISTISSEM em SUA OBSTINAÇÃO. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXIII)
  22. Portanto, compreendereis que ELES ABANDONARAM ANTES DE SEREM ABANDONADOS, e que não foram, como dizeis impiamente, levados cativos com o seu Deus, mas foram entregues por Deus COMO DESERTORES DE SUA DISCIPLINA. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXIII)
  23. “[...] Observais que os filósofos disputam das mesmas coisas que nós dizemos, NÃO PORQUE ESTEJAMOS SEGUINDO SEUS RASTROS, mas porque eles, a partir dos anúncios divinos dos profetas, imitaram a sombra da verdade corrompida [...] Mas para o nosso argumento basta que, mesmo nisso, VOSSOS SÁBIOS HARMONIZEM EM ALGUMA MEDIDA CONOSCO. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXIV)
  24. E não ignoro que muitos, conscientes do que MERECEM, preferem desejar acreditar que serão nada depois da morte; pois prefeririam ser completamente extintos a serem restaurados para o propósito de punição. E SEU ERRO também É AGRAVADO TANTO PELA LIBERDADE QUE LHES É CONCEDIDA NESTA VIDA quanto pela grande paciência de Deus, cujo julgamento, quanto mais tardio, tanto mais justo é. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXIV)
  25. “E, no entanto, OS HOMENS SÃO ADVERTIDOS nos livros e poemas dos poetas mais doutos acerca daquele rio de fogo e do calor que flui em múltiplas voltas [...] pois, com presciência do CASTIGO QUE LHE SERÁ DESTINADO, junto com seus adoradores, ele treme. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXV)
  26. Mas que aqueles que não conhecem a Deus sejam JUSTAMENTE ATORMENTADOS como ímpios, como injustos, ninguém hesita em crer, exceto um homem profano, pois não é menos perverso ignorar o Pai de todos e o senhor de todos do que ofendê-lo. E embora a A IGNORÂNCIA SOBRE DEUS seja SUFICIENTE PARA O CASTIGO, assim como o conhecimento dele serve para o perdão, ainda assim, se nós cristãos formos comparados a vós, embora em algumas coisas nossa disciplina seja inferior, seremos encontrados muito melhores do que vós. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXV)
  27. “Ninguém se console nem se desculpe pelo que ACONTECE POR CAUSA DO DESTINO. Ainda que o que acontece seja da disposição da fortuna, A MENTE É LIVRE; e POR ISSO É JULGADA A AÇÃO DO HOMEM [...] Pois o que mais é o destino senão aquilo que Deus falou a respeito de cada um de nós? Ele, que PODE PREVER NOSSA CONSTITUIÇÃO, DETERMINA TAMBÉM OS DESTINOS PARA NÓS, DE ACORDO COM OS MÉRITOS E AS QUALIDADES DE CADA INDIVÍDUO. Assim, no nosso caso, não é a estrela sob a qual nascemos que É PUNIDA, mas A NATUREZA PARTICULAR DE NOSSA DISPOSIÇÃO que é censurada. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXVI)
  28. Deus nem é incapaz de nos ajudar, nem nos despreza [...] ele examina e perscruta cada um; PESA A DISPOSIÇÃO DE CADA INDIVÍDUO [...] até mesmo no momento da morte na hora do fim; investiga A VONTADE DO HOMEM...” (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXVI)
  29. És elevado pela nobreza de nascimento? Louvas teus pais? No entanto, TODOS NASCEMOS COM A MESMA SORTE e é apenas PELA VIRTUDE QUE NOS DISTINGUIMOS. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXVII)
  30. Nós, portanto, que somos avaliados por NOSSO CARÁTER e por NOSSA MODÉSTIA, ABSTEMO-NOS com razão dos prazeres malignos. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXVII)
  31. “Mas o fato de desprezarmos os restos dos sacrifícios e as taças das quais foram derramadas libações não é uma confissão de medo, mas UMA AFIRMAÇÃO DE NOSSA VERDADEIRA LIBERDADE. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXVIII)
  32. Nós desprezamos as sobrancelhas franzidas dos filósofos, que SABEMOS SEREM CORRUPTOS [...] Nós que carregamos a sabedoria não em nossa vestimenta, mas em nossa mente, não falamos grandes coisas, mas AS VIVEMOS; OSTENTAMOS QUE ALCANÇAMOS aquilo que eles BUSCARAM com o máximo empenho e NÃO CONSEGUIRAM ENCONTRAR. (Otávio de Minúcio Félix, Capítulo XXXVIII)

No início deste artigo vimos que Cecílio imaginava que os cristãos haviam remodelado o conceito de "destino" para a ideia de "microgerenciamente divino" das coisas da vida, como se em vez de os cristãos dizerem que "as coisas nos acontecem pelo destino", como os filósofos estoicos e os adoradores de estrelas afirmavam, agora, eles diziam que, na verdade, "as coisas acontecem porque Deus quis". Otávio desmontou o castelo de ideias confusas de Cecílio deixando bem claro quais os verdadeiros conceitos cristãos a respeito da real liberdade humana e da responsabilidade que lhe compete para o que ele experimenta ou não nesta vida e no futuro.

Cecílio expressando sua confusão mental quanto ao Cristianismo, disse:


Não sei se você observou, mas na lista de argumentos de Otávio, ao tocar nesse assunto de destino, ele explicou de forma inequívoca o que ele, como cristão, teria a dizer sobre o assunto. No primeiro parágrafo do capítulo 36 da obra de Félix, Otávio respondeu a Cecílio que “A mente humana é livre e POR ISSO as escolhas e ações do homem podem ser julgadas”. Além disso, ele também explicou que “qualquer ideia sobre destino deve ser submetida à ideia de que o único destino a ser considerado de fato é aquilo que Deus tem a dizer sobre nós”. Porém, para evitar mais confusão na cabeça de Cecílio quanto ao que ele queria dizer com isso, Otávio explica que quis dizer que “Deus pode prever nossas intenções, escolhas e toda a constituição de nosso ser” e que com base em seu conhecimento prévio, ele pode estabelecer que recebamos “de acordo com nossos méritos e nossas qualidades individuais”. Para Otávio, esta seria a melhor resposta cristã possível para alguém obsecado com a ideia de “destino”, pois só desta forma, talvez, Cecílio finalmente entendesse que “não seria uma suposta estrela sob a qual nascêssemos que seria responsável pela nossa vida e por isso sobre ela recairia a culpa do que experimentamos”, mas, como bem explicou Otávio, seria a “própria natureza particular de nossos interesses, nossas escolhas e nossa disposição que seriam censurados”.


Ao dizer que “o destino é Deus”, Otávio não diz que Deus determinou numa suposta “eternidade passada” que os homens hajam de uma ou outra forma no presente, mas, como um bom cristão ortodoxo, ele explica que a parte de Deus é estabelecer o fim merecido, o resultado do estilo de vida e as consequências de cada escolha individual. Se fizer o bem, será recompensado, se fizer o mal, será punido. Este será o destino de cada um estabelecido por Deus. O “destino” mencionado por Otávio diz respeito à retribuição divina para as escolhas e ações voluntárias de cada homem.


DEFICIÊNCIA COGNITIVA DETECTADA

Outro dia percebi que certo calvinista havia citado parte do texto de Minúcio Félix contendo uma fala de Otávio e que o havia interpretado erroneamente. O texto citado foi este: “Tampouco se deve pedir um nome para Deus. Deus é o seu nome. Precisamos de nomes quando uma multidão deve ser separada em indivíduos por características especiais dos nomes; para Deus, que é único, o nome Deus é o todo [...] Não é verdade que nisso eu tenho o consentimento de todos os homens? Ouço o povo comum, quando ergue as mãos ao céu, não dizer outra coisa senão: “Ó Deus”, “Deus é grande”, “Deus é verdadeiro” e “se Deus permitir”. Isso é o discurso natural do povo comum ou é a oração de um cristão confesso? E aqueles que falam de Júpiter como o principal estão errados quanto ao nome, mas concordam quanto à unidade do poder”. Esta parte se encontra no último parágrafo do capítulo 18 do livro de Félix. O calvinista o citou da seguinte forma: “ele diz que a oração de um cristão confesso é nada além de “Oh Deus, e Deus é grande, e Deus é verdadeiro, e se Deus permitir”, ou seja, nada sai do controle divino”.

Bom, o curioso sobre isso é que por meio da exposição da sua habilidade na interpretação de textos, pode-se perceber o porquê ele consegue entender tudo errado. O calvinista supôs que o texto estava afirmando que as frases com a palavra Deus só poderiam ser pronuncias por um verdadeiro cristão confesso. Percebe-se que ele foi induzido ao erro porque imaginou que somente um cristão verdadeiro e predestinista, obviamente, poderia dizer se Deus permitir. Porém, diferentemente do que fantasiou em sua imaginação o predestinista, na ocasião Otávio não estava dizendo que “nada sai do controle divino”. Observe o contexto e veja que Otávio estava tratando sobre sua opinião em relação ao uso da palavra Deus para se refefir ao Pai. Logo em seguida Otávio argumenta que nisso ele sabia ter a concordância de todos os homens, e logo acrescenta: ouço o povo comum quando ergue as mãos ao céu e diz: ó Deus, Deus é grande, Deus é verdadeiro e se Deus permitir”. Otávio está falando sobre não cristãos e não sobre verdadeiros cristãos confessos”. Ele está tentando explicar que isso é um testemunho que vemos entre todos os homens que o uso da palavra “Deus” está no discurso natural do povo comum. Observe a expressão discurso natural sendo associada à fala de um povo comum. Ele não está falando que somente um crente verdadeiro poderia dizer “se Deus permitir” pois apenas estes compreenderiam que “nada sai do controle divino”. Essa conclusão só poderia sair da cabeça de alguém que fantasia obsecadamente com a ideia de predestinismo em tudo que lê. Além do contexto imediato, que obviamente é autoexplicativo para quem não está enfeitiçado com o viés predestinista, temos também outro trecho no livro de Félix onde Otávio usa novamente a mesma expressão:

Além disso, ao interpretar Juno como o ar, Júpiter como o céu, Netuno como o mar, Vulcano como o fogo, e da mesma maneira mostrando que OS outros DEUSES DO POVO COMUM são elementos, ele denuncia e vence com força o erro público (Capítulo 19, parágrafo 7).

O “povo comum”, nas palavras de Otávio registradas no livro de Félix, é uma expressão usada para se referir ao “povão”, ao povo das “massas populares”, aqueles que ainda não se converterem e não são cristãos.


CONCLUSÃO

Note que Otávio rebateu as conclusões equivocadas de Cecílio demonstrando que embora Deus seja soberano e senhor sobre tudo e sobre todos, isso não significa que o homem não seja verdadeiramente livre e plenamente responsável por suas escolhas e por seus atos, e que a razão do homem ser recompensado ou punido é devido ao SEU PRÓPRIO MÉRITO e não por causa de "decretos" ou "planos secretos" da parte de Deus, que, supostamente, forçariam homens a "querer pecar" ou a "querer se converter". Desta forma, defendendo o livre-arbítrio humano, Otávio alinha-se à posição ortodoxa tradicional, tanto contra o fatalismo pagão, como contra o livre-arbítrio trans do Estoicismo e também contra o predestinismo gnóstico.

EXERCÍCIO PRÁTICO PARA VOCÊ LEITOR

Se você tem interesse de estudar sobre esse assunto, mas não consegue discernir onde está a verdade e quem está mentindo, você pode fazer um primeiro teste prático sobre tudo o que tem sido afirmado por aí. Acesse a plataforma de IA da sua mais alta confiança, e pergunte o seguinte: 

"Existe algum texto cristão da patrística antes de Agostinho combatendo o livre arbítrio e defendendo a salvação por decreto unilateral da parte de Deus?"

Se o leitor deseja se aprofundar no estudo do tema, adquira o livro As Origens Gnósticas do Calvinismo:

Imagem


● YouTube | Site Telegram Instagram | Facebook | Aplicativo Loja de Livros 



Atualizado em 18/03/2026