
Como já dizia o pregador:
A razão porque não há limite para se escrever livros é porque não há limite para a imaginação humana. No entanto, nem tudo que se imagina, é de fato como foi imaginado. Assim como alguns homens escrevem livros, outros homens escrevem livros sobre os livros daqueles homens. Ao longo da história cristã alguns homens escreveram livros e se destacaram como guardiões da fé e da ortodoxia, e, exatamente por isso, são citados até mesmo por grupos cristãos divergentes. Daí surge a seguinte pergunta: "Como grupos que entendem cada um o oposto daquilo que o outro ensina, citam os mesmos livros de um mesmo homem?". A resposta é simples: Contexto e Interpretação!
Qualquer texto sem seu devido contexto, pode virar pretexto para qualquer tipo de coisa. A interpretação até mesmo de textos da Bíblia pode ser usada para justificar a matança de judeus e outros seres humanos considerados heréticos, como se, com isso, tais intérpretes estivessem cumprindo a "vontade de Deus".
Muitas loucuras têm sido ditas "em defensa da verdade", em defesa daquilo que certos grupos insistem em acreditar que deveria ser aceito por todos. E se algum ser humano pensante rejeita as interpretações de tais grupos, automaticamente são taxados de heréticos, não eleitos ou réprobos. É mais o menos assim que os predestinistas têm feito dia e noite, vez após vez. Estes indivíduos não só não entendem as coisas sobre as quais falam, como também se contradizem a si mesmos em suas ousadas afirmações.
Peguemos como exemplo a 1ª carta de Clemente escrita aos irmãos da cidade de Corinto. Clemente de Roma, como ficou conhecido, fora um cristão que parece ter vivido na mesma época do apóstolo Paulo, ajudando-o como seu companheiro de ministério e sendo inclusive citado por ele em Filipenses 4.3. Viveu entre os anos 35 e 99 d.C. e acredita-se que sua carta aos coríntios tenha sido uma das cartas mais antigas do Cristianismo depois dos textos que compoem o Novo Testamento, sendo datada por volta do ano 96 d.C.
Como se pode imaginar, não seria difícil de se encontrar predestinistas usando partes da carta de Clemente para justificar suas ideias deterministas e fatalistas, como se Clemente, supostamente refletindo as ideias do apóstolo Paulo, também acreditasse nessas loucuras.
CITAÇÕES TIRADAS DE SEU CONTEXTO
Uma das frases de Clemente, que poderia parecer útil aos conceitos de soberania predestinista, seria a que se encontra no capítulo 27, verso 5: "Quem resistirá ao poder de sua força? Ele fará tudo o que quiser e como quiser, e nada passará daquilo que foi por ele decretado. Tudo é patente para ele, e nada escapa à sua vontade".
Primeiramente devo dizer que não consigo imaginar qual cristão normal não concordaria com a declaração acima. Por outro lado, porém, somente um predestinista poderia imaginar que isso significa que "Deus pode fazer tudo o que ele quiser, não importa o contexto e não importa o que seja". Na cabeça dos predestinistas, nada jamais poderia acontecer sem que o próprio Deus o houvesse determinado, pois, se não fosse assim, as coisas "teriam vida própria" e poderiam ser consideradas como "autônomas", e, na cabeça deles, isso "diminuiria a grandeza e o controle de Deus". Eles só permitem que Deus seja soberano se o próprio Deus se submeter ao conceito deles de soberania.
Na sua lógica doentia isso significa, entre outras coisas, que, se um estupro acontecer, não pode ser simplesmente porque Deus permitiu, e sim porque Deus decretou. Porém, se alguns deles admitem que Deus permitiu, é porque Deus só teria permitido por desejar que tal coisa acontecesse, e usam uma contradição de termos alegando que aquilo foi um "decreto de permissão".
Suas loucuras e obsessões relacionadas ao seu diabólico conceito de decreto divino, chegam ao ponto de afirmarem que Deus faz alguém agir de certa forma, mas a responsabilidade de tais ações são da própria pessoa! Ou seja, Deus te empurra do penhasco, você cai e morre, mas a culpa é sua!
É assim que, completamente convencidos por Satanás, ousam afirmar que se Deus decretar que alguém estupre e mate uma criança de 6 anos de idade, tal pessoa certamente o fará, pois aquilo fora determinado pelo próprio Deus! Porém, a culpa de tal ato jamais poderia recair sobre Deus, e sim sobre a pessoa, que, segundo eles, nunca teria a menor escolha. É assim que estes loucos entendem a ideia de "decreto" de Deus. Uma espécie de arbitrariedade divina para o bem ou para o mal, que sempre deveria ser considerada como coisa positiva, já que teria sido o próprio Deus que o determinou, como eles loucamente supõem. Deus ser soberano não significa dizer que ele fará tudo o que quiser ou que poderá querer qualquer coisa que pode fazer.
Se um rapaz bom estuprar uma moça, isso não fará com que o estupro seja considerado uma coisa boa só porque quem o praticou foi um rapaz bom! É exatamente o contrário: por ser um rapaz bom, ele jamais faria esse tipo de coisa. Da mesma forma, não se pode aceitar a ideia de que "qualquer coisa que Deus fizer será sempre algo bom, porque quem está fazendo é Deus". Somente alguém que realmente não conhece o Deus auto revelado nas Escrituras, poderia imaginar que Deus ser soberano seria a mesma coisa de dizer que Deus não precisaria ter um padrão de caráter muito mais elevado que os homens.
É uma tolice pensar que Deus simplesmente pode fazer qualquer coisa, pois ele não pode! Deus não pode mentir, não pode negar-se a si mesmo, nem pode fazer qualquer coisa contrária ao seu caráter revelado nas Escrituras. No entanto, predestinistas insistem em argumentar que é Deus quem decreta "quem há de nascer para ser salvo" e quem há de nascer para dar a Deus o prazer de ver tal pessoa queimando no inferno pela sua graça. "Afinal", argumentam, "como disse Clemente: Quem resistirá ao poder de sua força? Ele fará tudo o que quiser e como quiser, e nada passará daquilo que foi por ele decretado. Tudo é patente para ele, e nada escapa à sua vontade". Qual a conclusão a que chegam esses maníacos? A conclusão deles é: as pessoas que não serão salvas, não serão simplesmente porque Deus não quis que fossem, pois nada escapa à sua vontade, como bem disse Clemente!
Alguém disse uma vez, e convém repetir: Imagine 100 pessoas no mar, prestes a se afogar, com a certeza de que, se não chegar um resgate, todas morrerão. Então, passa um transatlântico com capacidade para 3.000 pessoas, mas completamente vazio. O comandante decide resgatar apenas 20 pessoas. Como comandante do navio e soberano sobre as decisões a serem tomadas naquele instante, o capitão assim o determina e assim é feito. Depois, ao se discutir o assunto, algumas pessoas diziam: "minha mãe e minhas irmãs também estavam na água, mas o comandando não quis resgatá-las", e os defensores do comandante advogavam da seguinte forma: "na verdade, todas as pessoas iriam morrer mesmo de qualquer forma. O comandante não foi o culpado pela desgraça deles, e, desta forma, ao decidir salvar apenas 20 pessoas, ele estava na verdade demonstrando compaixão e graça pelos que estavam ali perdidos".
Minha pergunta é: Você ficaria de que lado da discussão? Defenderia o comandante alegando que seu comportamento era a mais pura demonstração de graça e misericórdia ou argumentaria que suas atitudes e ações retratavam a mais perfeita expressão da maldade jamais vista?
É assim que homens de mente pervertida têm usado textos da Bíblia, e de outros homens de Deus como Clemente, para tentar justificar suas ideias inspiradas por Satanás quanto ao caráter de Deus.
Afinal, Clemente de Roma não acreditava que Deus dá igual condições a todos os homens para que, se assim o quiserem, possam ser salvos? Clemente realmente defendia que somente alguns poucos seriam salvos e isso por decreto absoluto e arbitrário da parte de Deus? Além disso, se Deus supostamente decretou a salvação de alguns indivíduos escolhidos à dedo, isso também deveria significar que os seus escolhidos tem um número fixo exato e que não poderia jamais diminuir nem aumentar? E que, obviamente, nenhum deles jamais poderia resistir a Deus e por fim acabar perdendo a salvação? Vejamos...
1ª CLEMENTE 7.4 Tenhamos os olhos fixos no sangue de Cristo, e compreendamos como é precioso ao seu Pai. Derramado pela nossa salvação, trouxe ao mundo a graça do arrependimento. A Escritura ensina o arrependimento.
Será que Clemente também acreditava que o sangue de Cristo foi derramado apenas pelos eleitos? Clemente achava que a "graça do arrependimento" teria sido concedida apenas aos eleitos do mundo ou a qualquer pessoa do mundo inteiro? Afinal, só seria salvo quem Deus houvesse decretado que fosse, ou qualquer pessoa que realmente quisesse poderia experimentar essa bênção? Ele mesmo responde:
1ª CLEMENTE 7.5 Percorramos todas as gerações e aprendamos que, de geração em geração, o Senhor deu possibilidade de arrependimento A TODOS AQUELES QUE QUERIAM converter-se a ele.
Ora, ora, ora! Pelas barbas do profeta! Então, quem usou 1ª Clemente 27.5 e outras passagens semelhantes, para insinuar que Clemente defendia que "todo processo salvífico seria exclusivamente dependente de ordens e decretos de Deus", parece não ter lido ou não ter entendido muito bem o que ele quis dizer.
Agora, se você mostrar um texto como este para um dos predestinistas que gosta de usar passagens de 1ª Clemente para justificar suas interpretações, o que ele dirá? Não duvidaria que dissessem que Clemente queria dizer que "essas pessoas que querem se converter, só querem porque Deus quis que elas quisessem". Sabe como é, né? Um predestinista não pode aceitar que alguém queira alguma coisa sem que Deus tenha querido que ela quisesse! Esse povo é mei perturbado.
Nos versos seguintes Clemente amplia o argumento dando exemplos de pessoas que foram salvas em algumas ocasiões:
1ª CLEMENTE 7.6,7 6 Noé pregou o arrependimento, e OS QUE O ESCUTARAM FORAM SALVOS. 7 Jonas anunciou a catástrofe aos ninivitas, e estes se arrependeram de seus pecados; aplacaram a [ira de] Deus com suas súplicas e obtiveram a salvação, embora fossem estrangeiros em relação a Deus.
Isso sim, era o que Clemente realmente acreditava sobre arrependimento e salvação! Ou seja: "O precioso sangue de Cristo foi derramado pela salvação dos homens, trazendo ao mundo inteiro a graça do arrependimento, pois as Escrituras ensinam que o Senhor deu oportunidade de arrependimento a todos que quiseram se converter a ele. Noé pregou sobre arrependimento e os que quiserem o escutaram e foram salvos. Jonas anunciou a sentença de Deus sobre os pecadores da nação ninivita, mas, como eles se arrependeram dos seus pecados, aplacaram a ira de Deus e conquistaram sua salvação, mesmo não sendo eles pertencentes ao povo de Deus".
Na sequência de seus argumentos, Clemente acrescenta o que vem no capítulo seguinte do seu livro:
1ª CLEMENTE 8.1,2 1 Os ministros da graça de Deus falaram sobre o arrependimento, por meio do Espírito Santo. 2 E o próprio Senhor do universo falou do arrependimento, jurando: “Eu vivo, diz o Senhor, e não quero a morte do pecador, e sim que ele se arrependa.”
Clemente está confirmando que seu pensamento está em linha com o testemunho bíblico sobre a vontade de Deus para a salvação dos homens, ou seja, que Deus não é contra o arrependimento e conversão de qualquer pecador que esteja vivo sobre a terra, e que se ele quiser se converter, a "graça do arrependimento" está plenamente disponível para ele, pois o que Deus não quer é que um pecador morra sem se arrepender antes!
O problema na cabeça dessa gente é que eles não entendem que Deus querer o arrependimento do pecador é apenas uma parte do processo, pois "não andarão dois juntos se não estiverem de acordo". As Escrituras revelam claramente qual é a vontade de Deus, como Clemente citou objetivamente no texto acima, mas as atitudes e ações dos homens revelam qual é a vontade deles. Como disse Clemente, "Deus oferece a graça do arrependimento para quem quiser se converter", então a pergunta que realmente deveria ser feita é: "Quem vai querer?". As Escrituras ensinam: "quem quiser, venha e receba de graça da água da vida"(Apocalipse 22.17). Não é uma questão que dependa da "vontade de Deus", depende mais da vontade do homem. Não é "se Deus quiser", é se o homem quiser, pois Deus já está querendo! Quem estiver disposto, recebe e quem recusar a oferta, perde a bênção.
1ª CLEMENTE 8.4 E ainda que vossos pecados estejam como a púrpura, eu os tornarei brancos como a neve; se estiverem como o escarlate, eu os tornarei alvos como a lã. SE QUISERDES me ouvir, comereis dos bons produtos da terra; mas, SE NÃO QUISERDES me ouvir, a espada vos devorará. Isso, de fato, foi a boca do Senhor que falou .”
Observe que o texto acima se trata da real continuação do que o próprio Clemente vinha falando em sua carta sobre "a graça de Deus para o arrependimento concedida por ele a todo aquele que quiser se converter". Outras traduções deste mesmo trecho da carta de Clemente dizem: "Se estiverdes dispostos e me obedecerdes...", mas, "Se recusardes e não me ouvirdes, a espada vos devorará". Quem de vontade própria recusa, perde. Quem de boa vontade aceita, recebe.
No próximo verso, ainda na sequência de seus argumentos sobre este mesmo assunto, Clemente acrescenta:
1ª CLEMENTE 8.4 Na sua onipotente vontade, ele decidiu que todos os seus amados TENHAM POSSIBILIDADE de arrependimento
Eu sei que predestinistas são capazes de desprezar e fingir demência em relação a todos os versículos e argumentos anteriores oferecidos por Clemente apenas por causa de uma única palavra presente no verso acima: "amados". Você duvida que um predestinista seria capaz de fazer isso? Pois acredite, eles seriam capazes de desprezar duzentas palavras objetivas e claras por causa de uma única palavra duvidosa, se isso fosse conveniente para suas fantasias intelectuais e filosóficas.
Como eles são tendenciosos a dizer que "Deus não ama a todos de igual modo" e que seu amor é diferenciado para uns e outros, pois, segundo fantasiam em suas cabeças, Deus faz mesmo acepção de pessoas, e que é por isso que "ele não ama os pecadores", mas ama apenas os "eleitos", alguns poderiam dizer: "Ah, ele está falando apenas com os amados, pois é claro que Deus não iria querer oferecer possibilidade de arrependimento para quem não é amado". No entanto, Deus ama a todos os homens de igual modo, pois ele não faz acepção de pessoas, e, para ele, somos todos uma só grande família, como certo poeta ateniense uma vez falou: "somos todos descendentes de Deus" (Atos 17.28). Deus fez toda a raça humana a partir de um só homem! Todos vêm de um só e são da mesma espécie. Quando o homem perdeu a comunhão com Deus, fez temporariamente de Satanás seu pai adotivo, mas, assim como o filho pródigo, quando o homem volta pra casa, Deus, seu Pai celeste, pode finalmente lhe dirigir a palavra e afirmar: "Este estava perdido, mas foi achado. Estava morto, mas voltou a viver". Embora o pecador seja passível de juízo divino, é exatamente pelo amor que Deus o tem, que Deus afirma não ter prazer em que o pecador morra em seus pecados, antes, deseja que ele se arrependa e viva.
"Deus deseja que todos os homens sejam salvos", e, exatamente por isso, "estabeleceu por sua onipotente vontade que todos tenham a possibilidade de arrependimento". Além disso, não se esqueça do que Clemente já havia dito antes: "O sangue de Cristo é muito precioso para o pai, pois ele foi derramado para a nossa salvação e trouxe ao mundo inteiro a graça do arrependimento, e se percorrermos todas as gerações humanas, veremos que em todas as épocas o Senhor sempre deu a possibilidade de arrependimento a todos aqueles que quiseram se converter a ele". Por que Clemente diz que Deus concede ao homem "apenas" a possibilidade de arrependimento? Porque se ele dissesse que o homem é salvo por um decreto unilateral da parte de Deus e que o homem não teria qualquer domínio sobre si e sobre suas escolhas, além de ir contra a própria Bíblia, ir contra toda a tradição patrística da igreja primitiva, ele estaria se contradizendo em relação à grandeza que ele mesmo iria afirmar que Deus colocou no homem. No capítulo 33 do mesmo livro, Clemente irá dizer que Deus criou todas as coisas e com seu soberano poder as ordenou, porém, "ACIMA DE TUDO, com suas mãos sagradas e puras, plasmou O SER SUPERIOR E SOBERANO, o homem, como marca de sua própria imagem. Com efeito, assim diz Deus: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” [...] Quando ele terminou todas as coisas, aprovou-as, abençoou-as" (1ª Clemente 33.2-4).
Segundo Clemente, o homem é "a marca de Deus", a expressa semelhança de sua própria imagem. Como diriam outros escritores patrísticos, o homem foi dotado de autodeterminação e livre-arbítrio para ser o reflexo de Deus nesta terra.
Tertuliano (145 a 220 d.C.) - Contra Marcião, Livro II.6 Portanto, foi apropriado que aquele que é a imagem e semelhança de Deus fosse formado com tamanho livre-arbítrio e tal maestria de si mesmo, para que exatamente isto, a saber, a liberdade da vontade e o autocontrole, pudessem ser reconhecidos como a imagem e semelhança de Deus nele. Para este propósito, tal essência foi adaptada ao homem para que contivesse esta característica, como reflexo divino, sendo Deus mesmo livre e fora de qualquer controle. Deixemos que apenas a bondade de Deus ocupe nossa atenção, bondade esta que concedeu tão grande dom ao homem, a própria liberdade da sua vontade.
Se é verdade que o homem realmente tem livre-arbítrio como dizem as Escrituras e todos os escritores da Igreja Primitiva antes de Agostinho, então, Clemente está corretíssimo em afirmar que Deus, em sua onipotente vontade, decidiu que seus amados tenham a possibilidade de arrependimento. Até porque, se um pecador morre em seus pecados, sem ter a possibilidade de se arrepender, porque "a vontade onipotente de Deus não lhe concedeu isso", como poderíamos afirmar hipocritamente diante do mundo que Deus é um juiz justo e não como os juízes iníquos do Brasil?
Por outro lado, se os predestinistas insistissem em afirmar que o texto de Clemente deveria ser interpretado como se ele estivesse dizendo que "a onipotente vontade de Deus decidiu que apenas os seus eleitos tenham possibilidade de arrependimento", isso não ficaria menos ruim na defesa de sua filosofia de salvação. Afinal, ele estaria falando de salvos e eleitos que cometeram pecados depois de crentes e precisam se arrepender ou seriam pecadores mundanos, não convertidos, que estão sendo chamados de eleitos e precisam se arrepender? Aliás, um "eleito" na concepção predestinista poderia escolher não se arrepender? Pois, se Deus, segundo Clemente, em sua onipotente vontade decidiu que seus amados tenham a possibilidade de se arrepender, isso significa que Deus está oferecendo a oportunidade de arrependimento e que isso é completamente possível, mas, "ter a possibilidade" é uma coisa, e, "decreto soberano irresistível" é outra coisa completamente diferente! Clemente ter dito que Deus, em sua onipotente vontade, decidiu que seus amados tenham a possibilidade de arrependimento, não combina com as loucas ideias dos predestinistas sobre eleição, graça irresístivel e decreto divino unilateral para estabelecer arbitrariamente o destino eterno dos indivíduos.
Com ironia, gostaríamos de perguntar a Clemente se apenas os "eleitos" teriam o livre-arbítrio de poder escolher se arrepender ou não. Afinal, foi só para eles que Deus em sua onipotente vontade decidiu que tenham a possibilidade de se arrepender? Quanta tolice! E este é mais um exemplo de como esse tipo de gente só aceita que Deus seja soberano, se ele se sujeitar ao conceito deles do que é soberania. Para eles, para Deus ser aceito como soberano, Deus precisa decidir quem será salvo e quem sofrerá no inferno; Deus precisa decretar quem não conseguirá resistir à graça do arrependimento e quem nascerá destinado ao lago de fogo. Agora, se Deus quiser decidir por sua onipotente vontade que o homem tenha a possibilidade de ser salvo, aí não pode! Até porque possibilidade de ser salvo, implica em possibilidade de não ser, e isso não condiz com o conceito de soberania inventado pelos predestinistas! Eles aceitam que Deus decida salvar uns e outros não, mas não aceitam que Deus decida conceder a possibilidade de todos serem salvos. Somente uma pessoa cega ou espiritualmente deficiente não seria capaz de perceber que ideias e sentimentos como estes vêm do próprio Satanás.
Devemos crer que Deus é soberano, e, exatamente por isso, ele é quem decide o que quer estabelecer ou não! Deus quis que o homem fosse feito como ele, um reflexo da sua pessoa, por isso, como disse Clemente, "soberano e senhor de si", para que, tendo domínio sobre sua própria vontade e suas próprias escolhas, pudesse decidir se quer ou não converter-se a Deus, pois só assim, a decisão da onipotente vontade de Deus de que o homem tivesse a possibilidade de ser salvo, fosse uma relidade, sem pegadinhas e sem malandragem divina por debaixo dos panos.
A SUPOSTA DIFERENÇA ENTRE SALVOS E ELEITOS
Afinal, Clemente falou alguma coisa sobre a possibilidade de um crente recusar as ofertas graciosas de Deus e correr o risco de não se arrepender e perder a bênção da futura salvação destinada a manifestar-se no último tempo? Vejamos...
Primeiramente, devemos observar o conceito de Clemente quanto à ideia dos crentes fazerem parte dos "Escolhidos de Deus". Não é porque as pessoas usam as mesmas palavras que todas elas entendem as coisas do mesmo jeito. Hoje em dia, para muita gente, ser "escolhido", é praticamente a mesma coisa de ser "predestinado ao céu". Isto se deve em parte à influência de Agostinho, que, nos anos finais da sua vida, criou um conceito muito peculiar para o sentido de alguém ser "eleito". Agostinho nasceu em 354 d.C., e tendo sido gnóstico por dez anos antes de se converter, em 386 d.C. saiu do Gnosticismo, mas o Gnosticismo não saiu completamente de Agostinho. Nos anos finais da sua vida, adaptou e ressignificou o predestinismo gnóstico ao Cristianismo, expondo tais ideias principalmente nos seguintes livros : "A Graça e a Liberdade", "A Correção e a Graça", "A Predestinação dos Santos" e "O Dom da Perseverança". Livros escritos por ele entre os anos 426 e 429 d.C., sendo o ano 430 o ano da sua morte.
Agostinho adaptou, com muita destreza e sabedoria, os velhos resquícios predestinistas de sua antiga religião aos conceitos doutrinários do Cristianismo. Como boa parte da teologia cristã ocidental foi construída sobre as teorias de Agostinho, boa parte destes conceitos perduraram entre nós até os dias de hoje. O Gnosticismo dizia que os cristãos da Igreja de Cristo, de forma geral, só seriam salvos se praticassem boas obras, pois, se não tivessem um bom comportamento, seriam destruídos. Segundo eles, apenas os cristãos "eleitos" estavam predestinados ao céu, independentemente das suas obras, mesmo que multiplicassem sem limites as práticas de seus pecados, pois, para os gnósticos, a salvação dos eleitos era uma questão de predestinação.
Semelhantemente aos gnósticos, em sua teologia tardia, Agostinho passou a defender que havia duas classes de crentes: "os salvos e os eleitos", ou seja, nas palavras de Agostinho, o salvo é aquele indivíduo que é crente, regenerado, que tem o Espírito Santo, mas não está predestinado, pois, segundo ele passou a fantasiar em sua cabeça, apenas "o crente eleito" é que é predestinado. Em outras palavras, "o predestinado" é o único tipo de crente que nunca perderá sua salvação, pois havia sido "escolhido por Deus", e "Deus não escolheria alguém que poderia se perder", certo? Assim, surgiu o conceito predestinita de "eleição" mais popular nas comunidades cristãs do ocidente, ou seja, Deus escolhendo INDIVÍDUOS, um a um, e garantindo que cada um dos escolhidos perseverará até o fim e jamais se perderá até o dia da morte.
Todos os seguimentos cristãos que são muito dependentes da teologia tardia de Agostinho, seguem suas ideias e sentimentos, de uma forma ou de outra. Há grupos que defendem a ideia de que indivíduos são escolhidos por pura e simples iniciativa de Deus, que olha para a massa perdida da humanidade e diz "você eu quero, você não". Neste sentido, Deus determina quem será salvo ao escolher aquela pessoa e conceder-lhe tudo que ela precisa para ser regenerada e para ficar firme até o fim da vida. Agostinho chamaria isso de "Dom inicial da fé" e "Dom da Perseverança". Vê se pode. Outros grupos dizem que Deus escolhe os indivíduos um a um, pessoa por pessoa, mas não de forma arbitrária, como o primeiro grupo. A linha predestinista deste segundo grupo segue mais ou menos o seguinte raciocínio: "Deus teria previsto quem iria acreditar e ficar firme até o fim", e, com base nesta presciência, ele teria decidido escolher apenas estas pessoas individualmente. Neste sentido, a "predestinação para a salvação" defendida por eles, não seria necessariamente "arbitrária ou impositiva", mas, comparando-a grosseiramente, seria mais como alguém que investe em determinado ativo da bolsa de valores porque "ele tem informações privilegiadas que o fazem saber que tal ativo vai subir". A despeito das diferenças entre os dois grupos citados, é interesante dizer que a mesma ideia agostiniana da suposta diferença entre "o salvo e o eleito" também está presente nestes dois seguimentos cristãos até o dia de hoje.
A ELEIÇÃO, SEGUNDO CLEMENTE
Tendo dito isso, vejamos o conceito de eleição que era defendido por Clemente de Roma.
1ª CLEMENTE 29.1-3 1 Portanto, aproximemo-nos dele na santidade de alma, erguendo para ele mãos puras e sem mancha e amando nosso Pai benévolo e misericordioso, que NOS FEZ PARTICIPAR DE SUA ESCOLHA. 2 Com efeito, assim está escrito: “Quando o Altíssimo repartiu as nações, ao disseminar os filhos de Adão, estabeleceu as fronteiras das nações conforme o número dos anjos de Deus. A porção do Senhor foi o seu povo Jacó, o lote de sua herança foi Israel.” 3 E em outro lugar diz: “Eis que o Senhor toma para si uma nação dentre as nações, como um homem toma para si a primícia de sua colheita. E dessa nação sairá o santo dos santos.
Clemente, muito consciente da cultura e dos conceitos hebraicos relacionados à graça, à eleição e à salvação, afirma aos gentios de Corinto que eles devem ter um comportamento condizente com sua vocação, pois Deus lhes concedeu a graça de "participar da sua escolha" pela nação de Israel. Observe que Clemente usa o antigo conceito bíblico de povo escolhido, e não necessariamente de indivíduos escolhidos. Você verá que ao longo da sua carta ele vai exortar aos crentes dizendo-lhes que devem se esforçar por fazer parte, ou por se manter participantes, do "número dos escolhidos", confirmando a ideia que se trata de um grupo. Obviamente que um indivíduo que faz parte do grupo, é eleito, como inclusive Clemente cita "o eleito Davi", mas a ideia geral é que há um grupo de escolhidos e os indivíduos vão se unindo a ele, pois, como Clemente já havia dito em diversos lugares, Deus concede a todos os homens a oportunidade e a possibilidade de se arrependerem, e todos aqueles que quiserem se converter, poderão fazê-lo!
Observe também que nas ilustrações deixadas por Clemente a respeito da "escolha de Deus", ele usa dois textos do Antigo Testamento, possivelmente paráfrases de Deuteronônio 32.8,9 e Jeremias 2.3, onde ele diz que "o Altíssimo repartiu as nações e a porção do Senhor foi o seu povo Jacó", e o povo de Israel foi, "o lote da sua herança". Depois, reforçando a mesma ideia, Clemente acrescenta que em outro lugar nas Escrituras também se diz que: “O Senhor toma para si uma nação dentre as nações, como um homem toma para si a primícia de sua colheita. E dessa nação sairá o santo dos santos". Em outras palavras, entre todas as nações da terra, Deus fez a sua escolha: a nação de Israel foi o povo escolhido! É neste sentido que, ao iniciar o assunto, Clemente disse que "Deus nos fez participar da sua escolha". Bom, nem Clemente, nem as Escrituras, ensinam que os gentios convertidos viram "israelitas espirituais" ou que a "igreja é o Israel de Deus", ainda que alguns nobres irmãos ao longo da história cristã tenham chegado a conclusões como estas. Na verdade, o que as Escrituras ensinam é que nem todos de Israel são de fato israelitas, o verdadeiro judeu não o é apenas por fora, mas por dentro, é preciso que eles nasçam de novo! Ou seja, da nação escolhida de Israel, saiu um remanescente: os escolhidos dos escolhidos, o que Paulo chama de o verdadeiro Israel de Deus. Clemente pretende apenas dizer que judeus e gentios crentes agora fazem parte de um mesmo corpo, e compõem individualmente o grande número dos eleitos.
Quem seriam os eleitos, seguindo a linha de raciocínio apresentada por Clemente na passagem acima? Aqueles que foram separados, colhidos, postos à parte em relação a todo o restante. Segundo Clemente, como é feita esta seleção e separação entre uns e outros? Clemente diz em alguns lugares da sua carta que esta separação é feita através da pessoa de Jesus Cristo, ou seja, quem crê nele tem a vida eterna, quem se mantém rebelde contra ele não verá a vida, mas sobre este permanecerá a ida de Deus. Observe a seguir.
1ª CLEMENTE 65.2 Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco e com todos aqueles que, em todo lugar, Deus chamou POR MEIO de Jesus Cristo.
Lembre-se que Clemente já havia dito que o sangue de Cristo foi derramado pela nossa salvação, trazendo ao mundo a graça do arrependimento, e que, em todas as épocas, geração após geração, o Senhor deu possibilidade de arrependimento a todos aqueles que quisessem se converter a Deus (1ª Clemente 7.4,5). Afinal, Deus, na sua onipotente vontade, decidiu que todos tenham possibilidade de arrependimento (1ª Clemente 8.4). Deus chama os homens através da história de Jesus Cristo, e quem quiser se converter, terá a oportunidade de fazer isso, pois, segundo Clemente, "Deus dá a todos a possibilidade de arrependimento".
Ainda na saudação, logo no comecinho da sua carta, Clemente diz: "Aos que se chamam santificados na vontade de Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo". Como vimos pelas declarações anteriores de Clemente, Deus concede a todos que quiserem se converter, que tenham a possibilidade de se arrepender, pois, por sua onipotente vontade, Deus decidiu que todos tenham a possibilidade de arrependimento. Esta é a vontade de Deus mencionada na citação acima, e todo aquele que atende ao chamado divino através da história de Jesus Cristo é separado do restante do mundo, ou seja, santificado nesta vontade. Todos os que foram escolhidos, ou seja, separados do mundo, o foram através da fé na mensagem da vida de Jesus Cristo, isto é o que Clemente quer dizer quando fala que "Deus os escolheu por meio de Jesus Cristo nosso Senhor" (1ª Clemente 50.7).
1ª CLEMENTE 64.1 1 Quanto ao resto, que o Deus que tudo vê e é Senhor dos espíritos e de todos os seres vivos — que elegeu o Senhor Jesus Cristo e, POR MEIO DELE, nos elegeu para sermos o seu povo particular — conceda a toda pessoa que invoca o seu nome magnífico e santo, a fé, o temor, a paz, a perseverança, a paciência, a continência, a pureza e a moderação. Dessa forma, a pessoa será agradável ao seu nome, por meio de nosso sumo sacerdote e protetor Jesus Cristo, pelo qual sejam dadas a Deus a glória, a grandeza, o poder e a honra, agora e pelos séculos dos séculos. Amém
Algum predestinista precipitado poderia ver um texto como este e dizer: "Veja que Clemente diz que ora a Deus para que ele conceda fé, perseverança e tudo mais. Ou seja, se as obras são necessárias para a salvação, veja que é o próprio Deus que concede as obras e os méritos necessários para que o crente seja salvo". Bom, tenho até preguiça de comentar, mas, se um predestinista vai se basear nisso para justificar seu argumento de que pela oração de Clemente a Deus, o crente vai "receber a fé e as obras meritórias de que precisa para ser salvo", eu perguntaria então: Por que Clemente não orou logo pela parte que realmente importa? O mais importante da coisa toda não é se Deus vai conceder isso ou aquilo, é se as pessoas irão invocar a Deus! Os votos de Clemente realmente foram "que Deus conceda fé a toda pessoa que invoca o seu nome", porém, obviamente, ele não pediu que "Deus faça todas as pessoas invocarem o nome dele". A questão mais importante não é se Deus vai conceder graças e bênçãos a quem o invoca, mas SE AS PESSOAS INVOCARÃO A DEUS para que possam receber!
E sobre a eleição mencionada no texto citado acima, voltamos ao que havia dito Clemente: Dentre todas as nações, Deus escolheu a nação de Israel e desta nação, Deus já havia determinado que sairia o Santo dos Santos e por meio dele, "Deus nos concedeu a graça de participarmos da sua escolha", ou seja, somos inseridos no número dos escolhidos por meio dele! Através de Jesus Cristo fomos inseridos no povo de propriedade exclusiva de Deus. Judeus incrédulos foram rejeitados, mas judeus crentes e gentios convertidos, foram selecionados para compor este novo grupo.
No capítulo 12, a partir do verso 1, Clemente conta a história da salvação de Raab, ele diz que "por causa da fé e da hospitalidade, a prostituta Raab foi salva". Ela não era israelita, não fazia parte daquele povo, mas por causa da sua fé, Raab foi inserida entre o povo eleito e se tornou participante das bênçãos do Senhor. Depois de contar toda a história de Raab, demonstrando claramente que foi ela mesma que tomou a iniciativa de suplicar pela bênção da salvação para si, mesmo que inicialmente não fizesse parte daquele grupo, Clemente conclui a sua história dizendo o seguinte:
1ª CLEMENTE 12.5-7 5 [Raab] disse aos homens: “Eu sei muito bem que o Senhor Deus vos entrega esta terra. Com efeito, aqueles que a habitam estão tomados de espanto e terror por vossa causa. Portanto, quando tiverdes tomado posse desta terra, salvai-me junto com a casa do meu pai.” 6 Eles responderam: “Acontecerá como nos disseste. Quando perceberes que estamos chegando, reúne todos os teus debaixo do teu teto, e serão salvos, pois todos os que forem encontrados fora da casa serão mortos.” 7 Além disso, deram-lhe um sinal: pendurar na casa algo escarlate. DESSA FORMA, tornavam claro que O SANGUE DO SENHOR resgataria TODOS AQUELES QUE ACREDITAM E ESPERAM em Deus.
Observe bem que, para Clemente, o sinal do fio vermelho, uma óbvia representação do sangue de Jesus a ser derramado pelos pecadores, tornava claro que através do sangue de Jesus todos aqueles que acreditam e esperam em Deus serão resgatados! É por meio da fé no derramamento do sangue de Jesus Cristo que o homem é selecionado, ou seja, que ele é escolhido ou separado, da mesma forma que um homem separa para si a primícia de sua colheita (1ª Clemente 29.3). Neste sentido, todos os que estavam dentro da casa de Raab eram escolhidos para viver, quem saísse da casa, estaria perdido e fadado à possibilidade de morte. Assim também hoje, quem estiver em Cristo faz parte do número de escolhidos, porém, se depois de um tempo a pessoa endurecer o seu coração e passar a resistir às repreensões da sabedoria divina e se recusar a se arrepender, e sair do seu lugar de proteção divina, poderá perder as futuras bênçãos prometidas. Será exatamente desta forma que Clemente tratará deste assunto, como você poderá conferir nas citações a seguir.
CRENTES IMPENITENTES SENDO REJEITADOS
O principal tema da carta de Clemente aos irmãos de Corinto eram as divisões e intrigas causadas pelos irmãos carnais, que, movidos de inveja, haviam conseguido destituir da liderança alguns dos presbíteros da igreja. Em diversos momentos Clemente faz referência a isso e expressa seus sentimentos quanto ao fato dando conselhos, fazendo advertências e relembrando as divinas promessas para os que não abandonarem a posição de santidade e justiça.
1ª CLEMENTE 57.1 1 Vós que lançastes os fundamentos da revolta, submetei-vos aos presbíteros e deixai-vos corrigir com arrependimento, dobrando os joelhos de vosso coração. 2 Aprendei a submeter-vos, depondo a soberba e a orgulhosa arrogância da vossa língua. É melhor para vós ser encontrados pequenos e DENTRO DO REBANHO DE CRISTO, do que ter aparências de grandeza e SER REJEITADOS DE SUA ESPERANÇA.
A inveja parecia estar transtornando a cabeça de alguns dos irmãos, que, por causa disso, estavam querendo ocupar posições de importância dentro da igreja local. Clemente os adverte dizendo: "É melhor para vocês continuar sem ser vistos e reconhecidos, mas estar dentro do rebanho de Cristo, do que insistir em agir na carne procurando grandeza e acabar sendo rejeitado e excluído do grupo que guarda a bendita esperança que ele nos deu".
No verso seguinte, ele cita as advertências da Sabedoria, que é uma espécie de alusão à vontade de Deus em Cristo para os que o seguem.
1ª CLEMENTE 57.3-7 3 Assim fala a virtuosíssima Sabedoria: “Eis que emitirei para vós uma palavra do meu espírito e vos ensinarei a minha palavra. 4 Eu vos chamei, e não obedecestes; prolonguei meus discursos, e não prestastes atenção. Ao contrário, tornastes inúteis os meus conselhos e REJEITASTES minhas admoestações. Por isso, eu também rirei da vossa ruína, e me alegrarei quando alastrar sobre vós o extermínio, quando caírem sobre vós a tempestade, quando vier a catástrofe semelhante ao furacão, e cair sobre vós a aflição e a angústia. 5 Então me chamareis, mas eu não vos escutarei. Os maus me procurarão, porém não me encontrarão, porque eles odiaram a Sabedoria e NÃO ESCOLHERAM o temor do Senhor; NÃO QUISERAM dar atenção aos meus conselhos, e desprezaram as minhas admoestações. 6 POR ISSO, comerão os frutos DE SUA CONDUTA, e se saciarão com sua impiedade. 7 Serão mortos por terem cometido injustiças contra os pequenos, e o julgamento destruirá os ímpios. Quem me ouve, HABITARÁ EM SUA TENDA, CONFIANTE NA ESPERANÇA, e viverá tranquilamente, sem temor de nenhum mal.”
A sabedoria de Deus chamou, mas eles desobedeceram. A sabedoria insistiu, mas eles não prestaram atenção e ainda por cima rejeitaram a sabedoria da Palavra de Deus. Este é sempre o padrão para a manifestação das punições de Deus sobre os homens: o pecado, a impenitência e a obstinação. Observe que Clemente deixa muito claro em sua abordagem que a possível reprovação destes irmãos não seria uma questão de "ter sido a vontade de Deus" para eles, pelo contrário, eles que escolheram isso e eles não quiseram se arrepender, e por isso, eles sofreriam os resultados de sua própria conduta!
Logo em seguida às declarações acima, Clemente diz que as palavras da Sabedoria, por ele mencionadas, são contra os que resistem e que a única forma de eles fugirem das consequências de suas ameaças seria por meio da obediência, e então ele repete: "afim de que eles habitassem confiantes" debaixo da proteção do nome de Deus (1ª Clemente 58.1). E então ele diz o seguinte:
1ª CLEMENTE 58.2 2 Recebei nossos conselhos, e não vos arrependereis. Pela vida de Deus, pela vida do Senhor Jesus Cristo e do Espírito Santo, que são a fé E A ESPERANÇA dos eleitos: aquele que tiver praticado com humildade os preceitos e mandamentos dados por Deus, na simplicidade e perseverando na mansidão, ESSE SERÁ COLOCADO E CONTADO NO NÚMERO DOS QUE FORAM SALVOS por Jesus Cristo, a quem pertence a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
E se os irmãos não recebessem os conselhos? Se arrependeriam disso depois! Clemente os lembra que somente na imitação da vida de Cristo que se pode dizer que alguém é participante da esperança dos que são eleitos. Clemente inclusive lhes diz que, se diferentemente do comportamento arrogante que estavam tendo, se algum deles praticasse com humildade os preceitos e mandamentos do Senhor, com simplicidade e perseverando na prática da mansidão, este seria mais um a ser contado no número dos salvos. No verso seguinte Clemente lhes diz que tais recomendações, enviadas naquela carta, são da parte de Deus e quem desobedecer estaria cometendo um erro e correndo muitos perigos (1ª Clemente 59.1). Logo em seguida, e não por acaso, Clemente expressa votos para que "Deus preserve o número dos eleitos".
1ª CLEMENTE 59.2 Quanto a nós, seremos inocentes desse pecado e, com ORAÇÕES E SÚPLICAS ASSÍDUAS, pediremos que o Criador do universo conserve intacto o número dos seus eleitos no mundo inteiro, por meio do seu amadíssimo Filho Jesus Cristo nosso Senhor, por meio do qual nos chamou das trevas à luz, da ignorância ao conhecimento do seu nome glorioso.
Se o número de pessoas do grupo de eleitos não pudesse diminuir, por qual razão Clemente disse que "estaria orando e suplicando assiduamente" para que isso não acontecesse? Além disso, observe que ele expressou tais votos logo depois de falar dos perigos que os desobedientes estariam correndo. No início da carta Clemente já tinha dito coisa semelhante: "Dia e noite, sustentáveis combate em favor de toda fraternidade, a fim de conservar íntegro, por meio da misericórdia e da consciência, o número dos eleitos de Deus" (1ª Clemente 2.4). Quando Clemente diz que a igreja de Corinto também orava para "conservar íntegro o número dos eleitos", isso demonstra, entre outras coisas, que orações para que não aconteçam perdas e desfalques no grupo dos eleitos era uma coisa comum entre eles. Em outro lugar Clemente também falou o seguinte:
1ª CLEMENTE 35.3-4 3 Quais são as coisas preparadas para aqueles que o esperam? O Criador e Pai dos séculos, o Santíssimo, conhece a quantidade e a beleza delas. 4 Nós, portanto, lutamos para sermos ENCONTRADOS NO NÚMERO DOS que o esperam, a fim de participarmos dos dons prometidos.
Note que o tom da declaração acima segue o mesmo padrão de esforço e empenho pessoal necessários para que alguém se mantenha no número dos salvos que aguardam a volta de Jesus, afim de experimentar as futuras bênçãos prometidas. Esta é a esperança de todo crente que faz parte do grupo dos eleitos. No entanto, o que realmente é preciso ser feito para que isso aconteça? O próprio Clemente responde:
1ª CLEMENTE 35.5 No entanto, caríssimos, como acontecerá isso? ACONTECERÁ SE a nossa mente estiver fielmente voltada para Deus, SE procurarmos aquilo que é aceito por ele e que lhe agrada, SE cumprirmos aquilo que convém à sua vontade irrepreensível e SE seguirmos o caminho da verdade, afastando de nós toda injustiça e maldade, avareza, rixas, perversidades e enganos, murmurações e maledicências, recusa de Deus, orgulho e jactância, vanglória e inospitalidade.
Por que seria tão grave ou tão perigoso, como já havia dito Clemente, não se arrepender e não mudar o comportamento carnal cheio de injustiça, maldade, rixas, murmurações, orgulho e coisas semelhantes? No verso seguinte Clemente diz que a razão disso é porque "aqueles que praticam tais coisas são odiados por Deus" (1ª Clemente 35.6). Segundo Clemente, a única forma de um eleito agradar a Deus e ser aperfeiçoado na vontade dele é através do amor (1ª Clemente 49.5,6), pois, "seremos felizes se praticamos os mandamentos de Deus na concórdia e no amor, a fim de que, pelo amor, nossos pecados sejam perdoados" (1ª Clemente 50.5).
1ª CLEMENTE 56.1 Portanto, supliquemos também nós pelos que se encontram em alguma falha, a fim de que lhe sejam concedidas moderação e humildade, e PARA QUE CEDAM, não a nós, e sim À VONTADE DE DEUS.
No texto acima, mais uma vez Clemente fala da importância do arrependimento e da submissão à vontade de Deus, pois se os crentes rebeldes e obstinados não aceitarem a repreensão e não fizerem sua parte na mudança necessária, eles sofrerão as consequências da sua conduta. Não é Deus que pela sua vontade decreta a mudança de forma arbitrária, e sim o indivíduo que deve escolher ceder à vontade de Deus.
1ª CLEMENTE 56.2,3 2 Caríssimos, aceitemos a correção, contra a qual ninguém deverá indignar-se. A advertência que fazemos mutuamente é boa e extremamente útil, POIS ela nos une à vontade de Deus. 3 Com efeito, assim se exprime a palavra santa: “O Senhor me corrigiu e tornou a corrigir, para não me entregar à morte.”
As advertências só se tornam úteis e proveitosas quando as pessoas corrigidas as aceitam e respondem positivamente ao que foi pedido! De outra forma, se cumprirá o que é dito no verso três: "será entregue à morte". Não pense que Clemente usa as palavras em vão sem levar em consideração o peso que elas possuem. Em caso de dúvidas, confira outras abordagens que ele faz ao longo da mesma carta sobre o mesmo assunto:
1ª CLEMENTE 51.1-5 1 Portanto, peçamos que nos sejam perdoadas as faltas e ações inspiradas pelo adversário. Os que foram chefes da revolta e da divisão devem considerar o que nos é comum na esperança. 2 Com efeito, os que procedem com temor e amor preferem sofrer eles próprios em lugar do seu próximo; preferem condenar a si próprios, antes que comprometer a concórdia transmitida na justiça. 3 É MELHOR para o homem CONFESSAR SUAS FALTAS DO QUE ENDURECER O CORAÇÃO, assim como se endureceu o coração dos que se revoltaram contra Moisés, o servidor de Deus. A CONDENAÇÃO DELES FOI EVIDENTE, 4 “pois desceram vivos para o Hades”, e “a morte os apascentará.”
É melhor ceder voluntariamente à vontade de Deus, se arrepnder e confessar os erros, do que insistir obstinado no pecado endurecendo seu próprio coração, e, ao mesmo tempo, deixando Deus irado por causa desse comportamento e depois acabar sofrendo a condenação.
Na versão da Editora Mundo Cristão, o capítulo 45, verso 1 da primeira carta de Clemente, diz assim: "A contenda e a rivalidade de vocês, irmãos, nesse caso dizem respeito a questões que afetam nossa salvação".
Os textos citados acima não são todas as advertências e implicações apresentadas por Clemente em sua carta, mas acredito que as citações feitas são suficientes para demonstrar a forma de pensar deste antigo companheiro do apóstolo Paulo.
Em nenhum momento Clemente ensinou que o indivíduo é salvo por uma espécie de "decreto arbitrário e inescapável vindo de Deus". Sendo assim, por que, então, Deus mudaria o padrão de comportamento e decretaria que os que creram, a partir de agora, depois da conversão, perderiam suas capacidades racionais e se esvaziariam de sua liberdade de escolha que os fez querer se converter a Cristo? O homem que, segundo Clemente, "quis se converter a Cristo", não poderia simplesmente querer abandonar tudo? Afinal, o homem não perde suas faculdades racionais quando se converte, não perde sua liberdade de escolha e não perde a capacidade de rejeitar os conselhos do Senhor.
As mesmas capacidades humanas que fizeram um indivíduo vir para Cristo, podem ser usadas por ele para fazê-lo ir para o mundo. Depois da conversão o homem não sofre uma alteração nas características que lhe fazem pertecente ao gênero humano, ele continua dotado mesmo livre-arbítrio de sempre, como sempre foi! Ele não sofre uma mudança tal que passe a ser incapaz de "se tornar mais amigo dos prazeres do que amigo de Deus", ou que agora lhe seja impossível de "amar mais o presente século e abandonar o Evangelho", ou que, de alguma forma, agora lhe seja impossível de "naufragar na fé".
A despeito das crenças enviezadas dos inúmeros predestinistas que existem por aí, vemos que Clemente mantinha suas abordagens baseadas na liberdade e escolha humana, tanto para o bem, quanto para o mal.
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