Orígenes de Alexandria, um dos grandes teólogos e pensadores do Cristianismo primitivo, travou uma importante batalha intelectual contra o determinismo gnóstico, que afirmava que o destino humano era rigidamente fixado pela natureza dos indivíduos, que por sua vez era determinada por poderes cósmicos superiores. Diziam também que a salvação dependia de um conhecimento especial reservado a poucos – os “Eleitos”.
Por meio de obras como “Contra Celso” e outros de seus trabalhos, Orígenes defendeu a coerência da fé cristã com a razão, demonstrando pelas Escrituras que o verdadeiro conhecimento de Deus estava acessível a todos pela fé e pela graça divina. Alguns textos de Orígenes se perderam, mas uma das suas mais importantes obras sobre o Livre-Arbítrio foi completamente preservada na tradução para o latim feita por Rufino. Na apresentação editorial desta obra publicada em português pela Editora Paulus, existe o seguinte comentário:
Tratado Sobre os Princípios, p. 28, 29
Em um primeiro momento, Orígenes se empenha em refutar metodicamente os pressupostos principais das heresias e erros encontrados na tríade Basílides-Valentino-Marcião. Particularmente significativa é a crítica de Orígenes endereçada à doutrina de Valentino sobre as três naturezas de almas e o predestinacionismo em que se fundamenta: de um lado, as almas pneumáticas ou espirituais, consubstanciais aos seres divinos, aos Eões que povoam o Pleroma (ou plenitude da Inteligência), são salvas necessariamente. Nessa classe de homens, a matéria é dominada totalmente pelo Espírito de Deus; no extremo oposto, as almas hílicas (materiais) ou terrestres que pertencem ao Demiurgo, Príncipe deste mundo, o Diabo, são necessariamente condenadas. Essas almas serão eliminadas com a matéria; entre as duas categorias, as psíquicas – o homem “natural” de 1Cor 2.14 – podem obter, segundo sua conduta, seja uma salvação de ordem inferior, “intermediária”, o domínio do Deus criador, seja a condenação com a s hílicas. Por causa dessa doutrina, Orígenes redige o capítulo sobre o livre-arbítrio do [Tratado Sobre os Princípios, o] Peri Archon (III.1), onde discorre constantemente sobre a igualdade original dos seres racionais, que será rompida somente com a opção livre de sua vontade: a escatologia descrita neste livro explica-se pela dialética da ação divina e da liberdade humana, que ora é aceita, ora é rejeitada.
Contra Celso, Livro Quinto, 61
“Admitamos igualmente que exista uma terceira espécie, os que alguns chamam psíquicos e outros pneumáticos”. Penso que ele [Celso] quer falar dos discípulos de Valentino. Que conclusão tirar contra nós que pertencemos à Igreja e condenamos aqueles que imaginam naturezas salvas em virtude de sua constituição ou perdidas em virtude de sua constituição? Admitamos mesmo que alguns se proclamam gnósticos, à maneira como os epicureus se gabam de serem filósofos. Mas os que negam a providência não podem ser verdadeiramente filósofos, nem cristãos aqueles que introduzem ficções estranhas desacreditadas pelos discípulos de Jesus.
Contra Celso, Livro Sexto, 57
Este é também o sentido das palavras: “Se estiverdes dispostos a me ouvir, comereis o fruto precioso da terra. Mas se vos recusardes e vos rebelardes, sereis devorados pela espada” (Is 1.19-20). Realmente, para querer o que diz a pessoa que repreende e, obedecendo a ela, merecer as promessas divinas, É PRECISO A LIVRE DETERMINAÇÃO do ouvinte e o assentimento ao que é dito.
Contra Celso, Livro Sétimo, 33
E como nossa livre determinação não é suficiente para nos dar um coração inteiramente puro, mas temos necessidade de Deus que o cria assim, por isso o homem que ora com inteligência diz: “Ó Deus, cria em mim um coração puro” (Sl 50.12).
Contra Celso, Livro Terceiro, 69
Na lógica de seus princípios, Celso afirma que é muito difícil mudar radicalmente a natureza. Mas sabemos que as almas racionais todas têm a mesma natureza; sustentamos que nenhuma foi feita má pelo Criador do universo, mas que muitos homens se tornaram maus por causa da educação, da perversão, do seu ambiente humano, que fazem da malícia uma disposição natural em certas pessoas; estamos persuadidos de que não só é possível, mas também de que não é muito difícil ao Logos divino mudar a malícia que se tornou natural; a única condição é admitir que é preciso entregar-se ao Deus supremo e fazer tudo para agradá-lo.
Contra Celso, Livro Terceiro, 69
E se para alguns é muito difícil mudar, devemos dizer que A CAUSA ESTÁ NA SUA VONTADE QUE NÃO QUER admitir que o Deus supremo é para cada pessoa o justo juiz de todas as ações de sua vida. Pois, para a realização de ações que parecem muito difíceis, e, falando hiperbolicamente, quase impossíveis, A LIVRE DETERMINAÇÃO e o exercício são meios poderosos. Será que a natureza humana quer andar em cima de uma corda estendida no ar no meio do teatro e carregando fardos pesados? Ela poderá, pelo exercício e pela aplicação, realizar este tipo de proeza. E se ela quisesse viver na virtude, acaso não poderia, ainda que tivesse sido antes muito corrompida?
Tratado Sobre os Princípios, p. 53
A pregação eclesiástica também define que TODA A ALMA RACIONAL POSSUI LIVRE-ARBÍTRIO E VONTADE, e que para ela há um combate contra o diabo e seus anjos, e contra os seus poderes adversos, que querem carregar a alma com pecados, mas que, SE NÓS NOS CONDUZIRMOS por uma vida reta e prudente, conseguiremos nos livrar dessa mancha. Portanto, é preciso entender que não estamos submetidos à necessidade a ponto de ser constrangidos de qualquer modo, mesmo quando não o queremos, a fazer o bem, ou o mal. De fato, SE ASSUMIRMOS O NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO, por mais que certos poderes nos ataquem para nos conduzir ao pecado, e outros para nos ajudar na salvação, nem por isso somos obrigados a agir bem, ou mal – como opinam aqueles para os quais o movimento e percurso dos astros são a causa dos atos humanos, não só daqueles que ocorrem espontaneamente sem relação com o livre-arbítrio, mas também daqueles que estão ao nosso alcance.
Tratado Sobre os Princípios, 1.6.3, p. 112
Daqui, me parece, decorre uma consequência: cada natureza racional (...) por causa da faculdade do livre-arbítrio, é capaz de vários tipos de progresso ou de recuo, conforme suas ações e esforços
Tratado Sobre os Princípios, 1.8.3, p. 123
Ele tinha a faculdade de receber a virtude ou a maldade, mas, ao afastar-se da virtude, se voltou para o mal com todo o seu espírito; assim, as outras criaturas, possuindo essa dupla faculdade, com seu livre-arbítrio, fugiram do mal e aderiram ao bem.
Tratado Sobre os Princípios, 2.1.2, p. 127
É por isso que pensamos que Deus, pai de todas as coisas, para salvar todas as criaturas pelo inefável meio da sua palavra e sabedoria, dispôs cada coisa de tal maneira que cada espírito, mente, ou seja como for que se chamem os seres racionais subsistentes, apesar da liberdade da vontade, não seja constrangido a fazer senão o que lhe ordena o ato da sua inteligência, pois, do contrário, parece que lhe seria retirada a faculdade do livre-arbítrio, e a qualidade da sua natureza seria totalmente modificada.
Tratado Sobre os Princípios, 3.1.5, p. 211, 212
Mas, quando isso se produz, se acusamos os estímulos exteriores e nos sentimos absolvidos de qualquer acusação, afirmando que somos como a madeira e as pedras, que são movidas por forças do exterior, isso não é nem verdadeiro nem honesto; quem assim faz tem a seguinte razão: falsificar a noção de livre-arbítrio. Se lhe perguntássemos o que é o livre-arbítrio, responderia: quando nada do exterior me empurra na direção oposta àquela que decidi. A razão mostra que os acontecimentos do exterior não dependem de nós, mas que compete a nós nos servir deles desta ou daquela maneira, tomando a razão para analisar e examinar como convém proceder em face de cada acontecimento externo.
Tratado Sobre os Princípios, 2.3.4, p. 138
Não vejo com que argumento isso possa sustentar-se, se as almas agem com livre-arbítrio e seus progressos ou seus recuos procedem conforme o poder de suas vontades. As almas não são determinadas a fazer ou a desejar isto ou aquilo [...] mas elas se dirigem, no decurso de seus atos, lá para onde tendem livremente suas disposições.
Tratado Sobre os Princípios, 3.1.6, p. 213
Vejamos de que modo Paulo também nos fala como aos que têm o livre-arbítrio que é causa de condenação ou de salvação: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo o seu procedimento: a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade; mas ira e indignação aos facciosos, que desobedecem à verdade e obedecem à injustiça. Tribulação e angústia virão sobre a alma de qualquer homem que faz o mal, ao judeu primeiro e também ao grego; glória, porém, e honra, e paz a todo aquele que pratica o bem, ao judeu primeiro e também ao grego.” (Rm 2.4-10). Encontram-se nas Escrituras inumeráveis afirmações muito claras sobre o livre-arbítrio.
Tratado Sobre os Princípios, 2.9.6, p. 186
Como, porém, as próprias criaturas racionais receberam a faculdade do livre-arbítrio, a liberdade da sua vontade convidou cada uma a progredir pela imitação de Deus, ou a arrastou na regressão por causa da sua negligência; essa questão já a demonstramos muitas vezes e voltaremos a demonstrar no seu lugar.
Tratado Sobre os Princípios, 3.1.6, p. 212, 213
A nossa obra é viver bem, e é o que Deus requer de nós, NÃO COMO OBRA SUA NEM DE NENHUM OUTRO, OU DO DESTINO, como alguns pensam, MAS COMO OBRA NOSSA; é o que testemunha o profeta Miqueias nestes termos: “Se a ti, homem, foi anunciado o que é o bem, ou o que Deus te pede, não é nada senão exercitar o juízo, amar a misericórdia e estar pronto para seguir o Senhor teu Deus” (Mq 6.8). E assim Moisés: “Diante de ti, pus o caminho da vida e o caminho da morte: escolhe o bem e caminha nessa via” (Dt 30.19), ou ainda Isaías: “Se o quereis e se me escutais, comereis os bens da terra; mas, se não o quereis e não me escutais, uma espada vai vos devorar, pois assim falou a boca do Senhor” (Is 1.19-20). E nos Salmos: “Se o meu povo me escutasse e se Israel tivesse andado nos meus caminhos, eu teria reduzido a nada os seus inimigos” (Sl 80.14-15). ISSO SUPÕE QUE ESCUTAR E ANDAR NOS CAMINHOS DO SENHOR ESTÁ AO ALCANCE DO POVO. E por todos os outros mandamentos que ele dá, AFIRMA QUE ESTÁ EM NOSSO PODER CUMPRIR OS PRECEITOS e que seremos justamente condenados se transgredirmos. É por isso, diz, que “aquele que ouve as minhas palavras e as observa será comparado a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a pedra (...) Aquele que escuta, mas não cumpre, é semelhante a um louco que construiu a sua casa na areia (...)” (Mt 7.24-26). Quando diz aos que estão sentados à sua direita: “vinde a mim, BENDITOS de meu Pai (...) porque eu tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber” (Mt 25.34-35), ele lhes dá claramente estas promessas como se eles fossem a causa desses louvores, e, ao contrário, os outros são reprovados pela sua falta, quando diz: “Ide, MALDITOS, para o fogo eterno” (Mt 25.41).
Tratado Sobre os Princípios, 3.1.7, p. 213, 214
Algumas passagens do Antigo e do Novo Testamento parece que vão no sentido contrário, isto é, COMO SE SER SALVOS OU CONDENADOS NÃO DEPENDESSE DE NÓS, nem de observarmos os mandamentos ou infringi-los; vamos, por isso, expor essas passagens uma por uma e apresentar as soluções para que, partindo dos casos expostos, cada um possa escolher os textos que lhe parecem contradizer o livre-arbítrio e examinar a sua solução.
Tratado Sobre os Princípios, 3.1.8, p. 215
Vamos começar pelo que se diz a respeito do faraó e de Deus que o endurece para impedi-lo de deixar partir o povo; examinaremos ao mesmo tempo esta palavra do Apóstolo: “Terá piedade de quem ele quer e endurecerá quem ele quer” (Rm 9.18). Examinemos o que dizem alguns heterodoxos. Eles se servem desses textos PARA QUASE SUPRIMIR O LIVRE-ARBÍTRIO, argumentando que há naturezas perdidas, INCAPAZES DE SALVAVAÇÃO, e outras que estão salvas E SÃO INCAPAZES DE SE PERDER; dizem eles que o faraó era de uma natureza perdida, e endureceu por causa disso, porque Deus tem piedade dos espirituais [pneumáticos] e endurece os terrestres [hílicos]. Perguntamos se o faraó era de natureza terrestre; quando responderem, lhes diremos que aquele que tem uma natureza terrestre desobedece totalmente a Deus. Se desobedece, que necessidade existe de endurecer o seu coração, e isso não apenas uma, mas várias vezes?
Tratado Sobre os Princípios, 3.1.8
“Essencialmente, eles destroem o livre-arbítrio ao introduzir o conceito de naturezas arruinadas incapazes de receber salvação e pela introdução da ideia de outros que são salvos de uma forma tal que jamais poderiam se perder”
Tratado Sobre os Princípios, 3.1.18, p. 227
Vejamos agora a que se refere a frase: “Não é, pois, daquele que quer, nem daquele que corre, mas de Deus misericordioso” (Rm 9.16). Os adversários dizem: se não é obra daquele que quer, nem daquele que corre, mas de Deus, que faz misericórdia, A SALVAÇÃO NÃO VEM DE NOSSA VONTADE, mas da nossa natureza, obra daquele que assim nos criou, ou daquele que tem misericórdia quando quer.
Tratado Sobre os Princípios, 3.1.21, p. 231
Por causa de Romanos 9.18-21, [os gnósticos] dirão: “tal como o oleiro a partir da mesma massa faz vasos para uso respeitável e outros para uso menos digno, se Deus destina uns à salvação e outros à perdição, não está em nosso poder ser salvos ou nos perder: não temos livre-arbítrio”. Não é próprio do Apóstolo repreender o pecador digno de censura, e aprovar como louvável aquele que agiu bem, e, por outro lado, dizer, como se não estivesse em nós, que o Criador é responsável por um vaso ter sido feito para uso respeitável e outro para uso vulgar.
Tratado Sobre os Princípios, 3.1.21, p. 231, 232
Como pode ser verdade dizer que: “Todos nós compareceremos diante do tribunal de Cristo para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do seu corpo, seja no bem ou no mal” (2Cor 5.10), se aqueles que agiram mal o fizeram porque foram criados como vasos destinados a um uso vulgar, e se aqueles que viveram virtuosamente fizeram o bem porque desde o início foram feitos com essa finalidade, como vasos destinados a um uso honrado? Há ainda outra contradição no fato de ser da responsabilidade do Criador um vaso ser respeitável ou ser um vaso vulgar; assim o compreendem nossos objetores nas palavras que citamos, e pelo que nos é dito noutro lugar: “Numa casa grande, não há somente vasos de ouro e prata, mas vasos de madeira e de barro, uns para uso respeitável, outros para uso desprezível. Se alguém se purifica a si mesmo, será um vaso respeitável, santificado, útil ao Senhor, pronto para toda boa obra” (2Tm 2.20-21). Porque, se aquele que se purifica se torna um vaso para uso respeitável, e se aquele que olhou com indiferença a sua própria impureza se torna um vaso de desonra, a julgar por essas palavras, O CRIADOR NÃO É DE MODO NENHUM RESPONSÁVEL. Pois o Criador faz os vasos de honra e de desonra desde o princípio segundo a sua presciência, mas não é por ela que antecipadamente condena nem justifica; mas ele faz vasos de honra COM AQUELES QUE SE PURIFICAM A SI MESMOS, e vasos de desonra DAQUELES QUE COM INDIFERENÇA olharam a sua própria impureza.
Tratado Sobre os Princípios, 3.1.23, p. 233, 235
Àqueles que vêm com a doutrina das naturezas e que aduzem essa frase [a transportam para seu lado] para demonstrar a sua opinião, é preciso dizer o seguinte: se eles mantêm a afirmação de que de uma só massa procedem os perdidos e os salvos, e que há um mesmo autor para os perdidos e os salvos, não há naturezas diferentes nas almas; e se é bom aquele que cria não só os espirituais [pneumáticos], mas os terrestres [hílicos], já que as duas vão juntas, então é o mesmo o Criador de todos [...] No texto já citado, O APÓSTOLO NÃO MENCIONA A AÇÃO DE DEUS NO CASO DE SE TORNAR VASO DE HONRA OU DE DESONRA, MAS TUDO NOS ATRIBUI, quando diz: “Se alguém se purificar a si mesmo, será um vaso destinado ao que é digno, santificado e útil para o seu dono, preparado para toda boa obra” (2Tm 2.21).
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