Justino Mártir é um dos Pais da Igreja que está entre aqueles foram explícitos na defesa do livre-arbítrio humano contra a idea de destino e predestinismo. Ele lutou especialmente contra o fatalismo estoico, chamado de "heimarmene" ou "necessidade do destino". Justino rejeita qualquer ideia de que tudo acontece por destino inevitável, negando que ações humanas sejam determinadas por uma necessidade fatal que remove a responsabilidade moral. Ele sempre foi objetivo em retratar a responsabilidade moral humana e o poder de escolha livre de cada ser humano.
Sabemos também do seu conhecimento e contato com as filosofias gnósticas, pois em seu livro “Diálogo com Trifo”, que era judeu, Justino mencionou os gnósticos pelos grupos de seguidores de cada líder.
Diálogo com Trifão, 35.6
[os gnósticos] se chamam cristãos, do mesmo modo que os das nações atribuem o nome de Deus às obras de suas mãos e tomam parte em iníquas e sacrílegas iniciações. Quanto a eles, uns se chamam marcionistas, outros valentinianos, outros basilidianos, outros saturnilianos e com outros nomes, trazendo cada um o nome do fundador da seita, do mesmo modo como aqueles que, pretendendo professar uma f ilosofia, como notei no início, acreditavam ser um dever trazer o nome do pai ou da doutrina que professa.
Diálogo com Trifão, 88.4,5
4 Sabemos que Cristo foi ao Jordão não porque tivesse necessidade do batismo, nem de que viesse sobre ele o Espírito Santo em forma de pomba, como também não se dignou nascer e ser sacrificado porque necessitasse disso, mas por amor ao gênero humano, que desde Adão havia incorrido na morte e no erro da serpente, CADA UM COMETENDO O MAL POR SUA PRÓPRIA CULPA. 5 Com efeito, TENDO DEUS CRIADO HOMENS E ANJOS DOTADOS DE LIVRE-ARBÍTRIO E AUTONOMIA, quis que cada um fizesse aquilo para o qual foi por ele capacitado e, CASO ESCOLHESSEM o que lhe é agradável, iria mantê-los isentos de morte e castigo. CASO, porém, cometessem o mal, castigaria cada um como lhe aprouvesse.
Diálogo com Trifão, 102.3,4
3 Talvez alguém nos pergunte: “Não poderia Deus de preferência matar Herodes?” Ao que respondo logo: Não poderia Deus no princípio ter eliminado a serpente, para não ter que dizer: “Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a dela?” Não poderia Deus criar imediatamente uma multidão de homens? 4 Todavia, como ele sabia que era coisa boa, CRIOU OS ANJOS E OS HOMENS LIVRES para realizar o bem e determinou os tempos até o momento que ele sabe que será bom eles possuírem livre-arbítrio. E porque igualmente considerou bom, estabeleceu julgamentos universais e particulares, embora SEM ATENTAR CONTRA A LIBERDADE.
Diálogo com Trifão, 134.4
Com efeito, assim como Noé deu como servo de dois de seus filhos a descendência do terceiro, agora chegou Cristo para o restabelecimento de ambos, dos livres e dos que dentre eles são escravos, concedendo os mesmos privilégios a todos os que guardarem os seus mandamentos, de modo que os filhos que Jacó teve com as escravas e as livres fossem todos filhos de igual honra. Contudo, segundo a ordem e a presciência, foi predito como será cada um.
Diálogo com Trifão, 140.2-4, 141.1,2
2 E além disso, enganam a si mesmos e também a vós, supondo que o reino eterno será certamente dado àqueles da dispersão que são descendentes de Abraão segundo a carne, mesmo que sejam pecadores, infiéis e desobedientes a Deus. Conforme as Escrituras, isso é pura fantasia. Pois, se fosse assim, Isaías nunca teria dito: “E se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado um remanescente, teríamos sido como Sodoma e Gomorra”. E Ezequiel: “Ainda que Noé, e Jacó, e Daniel orassem por filhos ou filhas, o seu pedido não seria atendido”. “Nem o pai perecerá pelo filho, nem o filho pelo pai; mas CADA UM POR SEU PRÓPRIO PECADO, e CADA UM SERÁ SALVO PELA SUA PRÓPRIA JUSTIÇA” [...] E o nosso Senhor, segundo a vontade daquele que o enviou [...] não teria dito: “Virão do oriente e do ocidente, e se sentarão com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. Mas os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores”. Além disso, provei anteriormente que AQUELES QUE FORAM CONHECIDOS DE ANTEMÃO COMO INJUSTOS, sejam homens ou anjos, NÃO SE TORNAM MAUS POR CULPA DE DEUS, mas CADA UM, POR SUA PRÓPRIA CULPA, deverá comparecer diante de Deus. (141) 1 Mas para que não tenhais pretexto de dizer que Cristo precisava ser crucificado, e que aqueles que transgrediram deviam ser da vossa nação, e que as coisas não poderiam ter acontecido de outra forma, eu disse brevemente de antemão que DEUS, DESEJANDO QUE OS HOMENS E OS ANJOS SEGUISSEM A SUA VONTADE, RESOLVEU CRIÁ-LOS LIVRES para praticar a justiça; dotados de razão, para que conhecessem por quem foram criados e por quem, não existindo antes, agora existem; e com uma lei para que fossem julgados por ele, SE FIZESSEM ALGO CONTRÁRIO À RETA RAZÃO. Portanto, por nossa própria culpa, homens e anjos, seremos convencidos de ter sido maus, se não nos arrependermos antes disso. 2 Contudo, se a palavra de Deus anuncia absolutamente que alguns anjos e homens serão castigados, isso FOI PREDITO porque ele DE ANTEMÃO CONHECEU QUE SERIAM MAUS e NÃO SE ARREPENDERIAM, não, porém, PORQUE O PRÓPRIO DEUS OS FIZESSE ASSIM. De modo que, se eles se arrependerem, todos os que o desejarem podem obter misericórdia de Deus e a Escritura prediz que eles serão bem-aventurados, dizendo: “Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa pecado”; isto é, aquele que, arrependido de seus pecados, recebe de Deus o perdão. Não como vós e outros semelhantes a vós, que, neste ponto, vos enganais a vós mesmos, dizendo que, por mais pecador que alguém seja, o Senhor não imputa o pecado, contanto que ele conheça a Deus.
A Primeira Apologia de Justino Mártir, 10.2-4
2 Também nos foi ensinado que, por ser bom, no princípio ele fez todas as coisas de uma matéria informe, por amor aos homens. Recebemos a crença de que ele concederá a sua convivência, participando do seu reino, tornados incor-ruptíveis ou impassíveis, aos homens que por suas obras se mostrem dignos do desígnio de Deus. 3De fato, do mes-mo modo como no princípio nos fez do não ser, assim tam-bém cremos que àqueles que escolheram o que lhe é grato, concederá a incorruptibilidade e a convivência com ele, como prêmio dessa mesma escolha. 4Com efeito, ser criados no princípio não foi mérito nosso; mas agora ele nos persuade e nos conduz à fé para que sigamos o que lhe é grato, por livre escolha, através das potências racionais, com que ele mesmo nos presenteou.
A Primeira Apologia de Justino Mártir, 20.2-5
2 os filósofos estóicos têm por dogma que o próprio Deus se dissolverá em fogo e afirmam que novamente, por transformação, o mundo renascerá. Nós, porém, consideramos Deus, o criador de todas as coisas, superior a todas as transformações. 3 Por fim, SE HÁ COISAS QUE DIZEMOS DE MANEIRA SEMELHANTE AOS POETAS E FILÓSOFOS que estimais, e outras de modo superior e divinamente, e somos os únicos que apresentamos demonstração, por que se nos odeiam injustamente mais do que a todos os outros? 4 Assim, quando dizemos que tudo foi ordenado e feito por Deus, PARECERÁ apenas que enunciamos um dogma de Platão; ao falar sobre conflagração, outro dogma dos estóicos; ao dizer que SÃO CASTIGADAS AS ALMAS DOS INÍQUOS que, ainda depois da morte, conservarão a consciência, e que as dos bons, livres de todo castigo, serão felizes, PARECERÁ que falamos como vossos poetas e filósofos; 5 que não se deve adorar obras de mãos humanas, não é senão repetir o que disseram Menandro, o poeta cômico, e outros com ele, que afirmaram que o artífice é maior do que aquele que o fabrica.
A Primeira Apologia de Justino Mártir, 28.1-3
1 Entre nós, o príncipe dos maus demônios se chama serpente, satanás, diabo ou caluniador, como podeis ver, caso desejardes averiguar isso, através de nossas Escrituras. Ele e todo o seu exército, juntamente com os homens que o seguem, será enviado ao fogo para ser castigado pela eternidade sem fim, coisa que foi de antemão anunciada por Cristo. 2 Na verdade, a paciência que Deus mostra em não fazê-lo imediatamente, tem como causa o seu amor pelo gênero humano, pois ele prevê que alguns se salvarão pela penitência, entre os quais alguns que talvez ainda não tenham nascido. 3 No princípio, ele criou o gênero humano racional, capaz de escolher a verdade e praticar o bem, DE MODO QUE NÃO EXISTE HOMEM QUE TENHA DESCULPA DIANTE DE DEUS, pois todos foram criados racionais e capazes de contemplar a verdade.
A Primeira Apologia de Justino Mártir, 43.1-8
1 Do que dissemos anteriormente, ninguém deve tirar a conclusão de que afirmamos que tudo o que acontece, acontece por necessidade do DESTINO, PELO FATO DE QUE DIZEMOS QUE OS ACONTECIMENTOS FORAM CONHECIDOS DE ATENMÃO. Por isso, resolveremos também essa dificuldade. 2 Nós aprendemos dos profetas e afirmamos que esta é a verdade: os castigos e tormentos, assim como as boas recompensas, são dadas a cada um CONFORME AS SUAS OBRAS. Se não fosse assim, mas tudo acontecesse por destino, NÃO HAVERIA ABSOLUTAMENTE LIVRE-ARBÍTRIO. Com efeito, se já está determinado que um seja bom e outro mau, nem aquele merece elogio, nem este, vitupério. 3 Se o gênero humano não tem poder de fugir, POR LIVRE DETERMINAÇÃO, do que é vergonhoso e ESCOLHER o belo, ele não é responsável de nenhuma ação que faça. 4 Mas que O HOMEM É VIRTUOSO E PECA POR LIVRE ESCOLHA, podemos demonstrar pelo seguinte argumento: 5 vemos que o mesmo sujeito passa de um contrário a outro. 6 Ora, se estivesse determinado ser mau ou bom, não seria capaz de coisas contrárias, nem mudaria com tanta freqüência. Na realidade, NEM SE PODERIA DIZER QUE UNS SÃO BONS E OUTROS MAUS, desde o momento que afirmamos que o destino é a causa de bons e maus, e que realiza coisas contrárias a si mesmo, ou que se deveria tomar como verdade o que já anteriormente insinuamos, isto é, que virtude e maldade são puras palavras, e que só por opinião se tem algo como bom ou mau. Isso, como demonstra a verdadeira razão, é o cúmulo da impiedade e da iniqüidade. 7 Afirmamos ser destino ineludível que aqueles que escolheram o bem terão digna recompensa e os que escolheram o contrário, terão igualmente digno castigo. 8 Com efeito, Deus não fez o homem como as outras criaturas. Por exemplo: árvores ou quadrúpedes, que NADA PODEM FAZER POR LIVRE DETERMINAÇÃO. Nesse caso, não seria digno de recompensa e elogio, POIS NÃO TERIA ESCOLHIDO O BEM POR SI MESMO, mas nascido já bom; nem, por ter sido mau, seria castigado justamente, POIS NÃO O SERIA LIVREMENTE, mas por não ter podido ser algo diferente do que foi.
A Primeira Apologia de Justino Mártir, 44.8-11
8 De modo que o próprio Platão, ao dizer: “A culpa é de quem escolhe. Deus não tem culpa”, falou isso por tê-lo tomado do profeta Moisés, pois sabe-se que este é mais antigo do que todos os escritores gregos. 9 Em geral, tudo o que os filósofos e poetas disseram sobre a imortalidade da alma e da contemplação das coisas celestes, aproveitaram-se dos profetas, não só para poder entender, mas também para expressar isso. 10 Daí que parece haver em todos algo como germes de verdade. Todavia, demonstra-se que não o entenderam exatamente, pelo fato de que se contradizem uns aos outros. 11 Concluindo: SE DIZEMOS QUE OS ACONTECIMENTOS FUTUROS FORAM PROFETIZADOS, nem por isso afirmamos que aconteçam por necessidade do destino; AFIRMAMOS sim QUE DEUS CONHECE DE ANTEMÃO TUDO O QUE SERÁ FEITO por todos os homens e É DECRETO SEU RECOMPENSAR cada um SEGUNDO O MÉRITO DE SUAS OBRAS e, por isso, justamente prediz, por meio do Espírito profético, o que para cada um virá da parte dele, CONFORME O QUE SUAS OBRAS MEREÇAM. Com isso, ele constantemente conduz o gênero humano à reflexão e à lembrança, demonstrando-lhe que cuida e usa de providência para com os homens.
A Primeira Apologia de Justino Mártir, 46.1-4
1 Alguns, sem motivo, para rejeitar o nosso ensinamento, poderiam nos objetar que, ao dizermos que Cristo nasceu somente há cento e cinqüenta anos sob Quirino e ensinou sua doutrina mais tarde, no tempo de Pôncio Pilatos, os homens que o precederam não têm nenhuma responsabilidade. Tratemos de resolver essa dificuldade. 2 Nós recebemos o ensinamento de que Cristo é o primogênito de Deus e indicamos antes que ele é o Verbo, DO QUAL TODO O GÊNERO HUMANO PARTICIPOU. 3 Portanto, aqueles que viveram conforme o Verbo são cristãos, quando foram considerados ateus, como sucedeu entre os gregos com Sócrates, Heráclito e outros semelhantes; e entre os bárbaros com Abraão, Ananias, Azarias e Misael, e muitos outros, cujos fatos e nomes omitimos agora, pois seria longo enumerar. 4 De modo que também os que antes viveram sem razão, se tornaram inúteis e inimigos de Cristo e assassinos daqueles que vivem com razão; mas os que viveram e continuam vivendo de acordo com ela, são cristãos e não experimentam medo ou perturbação.
A Primeira Apologia de Justino Mártir, 61.2-10
2 Todos os que SE CONVENCEM e ACREDITAM que são verdadeiras essas coisas que nós ensinamos e dizemos, e PROMETEM que poderão viver de acordo com elas, são instruídos, em primeiro lugar, para que com jejum orem e peçam perdão a Deus por seus pecados anteriormente cometidos, e nós oramos e jejuamos juntamente com eles. 3 Depois os conduzimos a um lugar onde haja água e pelo mesmo banho de regeneração, com que também nós fomos regenerados, eles são regenerados, pois então tomam na água o banho em nome de Deus, Pai soberano do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo [...] 6 Também o profeta Isaías, como citamos anteriormente, disse como fugiriam dos pecados aqueles que antes pecaram e agora se arrependem. 7 Eis o que ele disse: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai as maldades de vossas almas e aprendei a fazer o bem, julgai o órfão e fa-zei justiça à viúva; então vinde e conversemos, diz o Senhor. Se vossos pecados forem como a púrpura, eu os tornarei brancos como a lã; se forem como o escarlate, eu os alvejarei como a neve. 8 SE NÃO ME ESCUTARDES, a espada vos devorará, porque assim falou a boca do Senhor”. 9 A explicação que aprendemos dos apóstolos sobre isso é a seguinte: 10 uma vez que não tivemos consciência de nosso primeiro nascimento, pois fomos gerados por necessidade de um germe úmido, através da união mútua de nossos pais, e nos criamos em costumes maus e em conduta perversa, agora, para que não continuemos sendo filhos da necessidade e da ignorância, mas da liberdade e do conhecimento e, ao mesmo tempo, alcancemos o perdão de nossos pecados anteriores, pronuncia-se na água, SOBRE AQUELE QUE DECIDIU REGENERAR-SE e se arrepende de seus pecados, o nome de Deus, Pai e soberano do universo; e aquele que conduz ao banho pronuncia este único nome sobre aquele que vai ser lavado.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 1.1,2
1 Romanos [...] Com efeito, sois da nossa mesma natureza e irmãos nossos, por mais que, por causa da vaidade de vossas supostas dignidades, não o reconheçais, nem o desejeis. 2 O fato é que em todas as partes há gente disposta a nos levar à morte. Exceto os que estão persuadidos de que os iníquos e intemperantes serão castigados com o fogo eterno e que os virtuosos e que viveram de modo semelhante a Cristo, viverão impassíveis com Deus, isto é, exceto os que são cristãos, todo aquele que é repreendido pelo pai, vizinho, filho, amigo, marido ou mulher por causa de uma falta, se volta contra nós, POR SUA OBSTINAÇÃO AO MAL, POR SEU AMOR AO PRAZER e por sua impotência para seguir o que é bom; com estes, os malvados demônios, por causa do ódio que nos professam e porque têm a seu serviço tais juízes, como se, de fato, os governantes fossem endemoninhados.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 2.1-7
1 Certa mulher vivia com o seu marido, homem dissoluto, e antes de se tornar cristã, SE ENTREGARA à vida licenciosa. 2 Todavia, logo que conheceu os ensinamentos de Cristo, não só SE TORNOU CASTA, como procurava também persuadir seu marido à castidade, referindo-lhe os mesmos ensinamentos e anunciando-lhe o castigo do fogo eterno, PREPARADO PARA OS QUE NÃO VIVEM castamente e conforme a reta razão. 3 Ele, porém, OBSTINADO NA DISSOLUÇÃO, com a sua conduta desanimou a sua mulher. 4 Com efeito, esta considerava uma coisa ímpia continuar partilhando o leito com um HOMEM QUE SÓ PROCURAVA MEIOS DE PRAZER A TODO CUSTO, contra a lei da natureza e contra o que é justo, e DECIDIU divorciar-se. 5 Seus parentes, todavia, a dissuadiam e a aconselhavam que tivesse ainda um pouco de paciência, com a esperança de que, algum dia, pudesse mudar o homem. Então, ela VIOLENTOU-SE A SI MESMA e esperou. 6 O marido teve que fazer uma viagem para Alexandria e logo a mulher ficou sabendo que ele cometia lá maiores excessos ainda. Depois disso, para não se tornar cúmplice de tais iniqüidades e impiedades, permanecendo no matrimônio e partilhando o leito e a mesa com tal homem, ela apresentou o que entre vós se chama “libelo de repúdio”, e SEPAROU-SE. 7 Então, aquele excelente marido, que deveria ter-se alegrado pelo fato de sua mulher, antes entregue à vida fácil com escravos e diaristas, entre bebedeiras e todo tipo de maldade, ter agora deixado tudo isso e só desejar que ele também, dado às mesmas farras, PUSESSE FIM a tudo isso, ficou, pelo contrário, despeitado por ela ter-se divorciado contra a sua vontade e a acusou diante dos tribunais, dizendo que ela era cristã.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 3.2,3
2 Nós aprendemos que Deus não fez o mundo por acaso, mas por causa do gênero humano, e já dissemos que ELE SE COMPRAZ COM AQUELES QUE IMITAM as suas qualidades e, em troca, SE DESAGRADA com aqueles que, POR PALAVRAS OU OBRAS, SE ENTREGAM AO MAL. 3 Portanto, se todos nos matássemos a nós mesmos, seríamos culpados de que nascesse alguém que seria instruído nos ensinamentos divinos e, no que dependeria de nós, seríamos responsáveis pelo desaparecimento do gênero humano e, fazendo isso, também nós agiríamos de modo contrário ao desígnio de Deus.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 4
Mas, para que ninguém nos diga: “ Vão todos vocês e se matem, e passem agora mesmo para Deus, e não nos perturbem”, eu lhes direi por que não fazemos isso, mas por que, quando interrogados, confessamos sem temor. Fomos ensinados que Deus não criou o mundo sem propósito, mas sim PARA O BEM DA RAÇA HUMANA; e já afirmamos que ELE SE AGRADA DAQUELES QUE IMITAM SEUS ATRIBUTOS e SE DESAGRADA DAQUELES QUE ABRAÇAM O QUE É INÚTIL, seja em palavras ou ações. Se, então, nos matarmos todos, nos tornaremos a causa , na medida em que pudermos, de ninguém nascer, de ninguém ser instruído nas doutrinas divinas, ou mesmo de a raça humana não existir; e, SE AGIRMOS ASSIM, ESTAREMOS AGINDO EM OPOSIÇÃO À VONTADE DE DEUS. Mas, quando somos interrogados, não negamos nada, porque não temos consciência de nenhum mal; pelo contrário, consideramos ímpio não dizer a verdade em todas as coisas, o que sabemos ser agradável a Deus, e porque também agora desejamos muito livrar vocês de um preconceito injusto.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 5
Mas se alguém pensar que pelo fato de reconhecermos Deus como nosso ajudador, não seremos oprimidos e perseguidos pelos ímpios, também a isso esclarecerei. Deus, quando criou o mundo inteiro, SUBMETEU AS COISAS TERRENAS AO HOMEM, dispôs os elementos celestiais para o aumento dos frutos e a rotação das estações e estabeleceu esta lei divina — pois estas coisas ele evidentemente criou para o homem — confiou o cuidado dos homens e de todas as coisas debaixo do céu aos anjos que designou para administrá-los. Mas os anjos transgrediram essa designação [...] além disso, posteriormente subjugaram a raça humana, em parte por meio de escritos mágicos, em parte pelo medo e pelos castigos que estes ocasionavam, e em parte ensinando-os a oferecer sacrifícios, incenso e libações [...] E entre os homens semearam assassinatos, guerras, adultérios, atos intemperantes e toda sorte de maldade. Daí também os poetas e mitólogos, desconhecendo que foram os anjos e os demônios gerados por eles que praticaram esses atos contra homens, mulheres, cidades e nações, ATRIBUÍRAM-NOS AO PRÓPRIO DEUS.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 7.1,2
1 Assim, Deus também adia pôr um fim à confusão e destruição do universo, por causa da semente dos cristãos, recém-espalhada pelo mundo, que ele sabe ser a causa da conservação da natureza. 2 De fato, se assim não fosse, vós não teríeis poder para fazer nada daquilo que fazeis conosco, nem seríeis manejados pelos demônios, como instrumentos de sua ação; mas, descendo o fogo de julgamento, já teria separado tudo sem exceção, do mesmo modo como não deixou vivo ninguém depois do dilúvio, a não ser aquele que nós chamamos Noé, juntamente com os seus...
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 7
Não afirmamos que é por causa do destino que os homens fazem o que fazem ou sofrem o que sofrem, e sim que CADA HOMEM POR LIVRE ESCOLHA age corretamente ou peca; e é pela influência dos demônios malignos que homens sérios como Sócrates e semelhantes, sofrem perseguição e são presos, enquanto Sardanápalo, Epicuro e outros, parecem ser abençoados em abundância e glória. OS ESTOICOS, por não observarem isto, diziam que todas as coisas acontecem de acordo com a imposição do destino. Porém, uma vez que DEUS no princípio FEZ a raça dos anjos e dos HOMENS COM LIVRE-ARBÍTRIO, será justo que sofram do fogo eterno a punição de quaisquer pecados que tenham cometido. E esta é a natureza de tudo que é feito: há potencial para o vício e para a virtude. Pois não haveria motivo para louvor a NÃO SER QUE HOUVESSE PODER PARA SE VOLTAR TANTO PARA UM, QUANTO PARA O OUTRO. E isto também é demonstrado em todos os lugares do mundo, onde os homens têm feito leis e filosofado com base naquilo que é certo e razoável, ensinando assim que se façam algumas coisas e que se abstenham de outras. Até mesmo os filósofos estoicos, em seus ensinamentos sobre moralidade, honram firmemente as mesmas coisas... E se eles dizem que as ações humanas são realizadas por causa do destino (...) nem o vício, nem a virtude terão qualquer valor, o que SERIA CONTRÁRIO A TODO BOM SENSO e a toda ideia razoável e sã.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 8
1 Sabemos que alguns que professaram a doutrina estóica foram odiados e mortos. Pelo menos na ética eles se mostram moderados, assim como os poetas em determinados pontos, por causa da semente do Verbo, QUE SE ENCONTRA INGÊNITA EM TODO GÊNERO HUMANO.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 9.1-4
1 E os que se consideram filósofos não aleguem que são apenas ruídos e espantalhos o que afirmamos sobre o castigo que os iníquos sofrerão no fogo eterno, e que nós exigimos que os homens vivam retamente por medo e não porque a virtude é bela e gratificante. A eles responderemos brevemente: SE A COISA NÃO É COMO DIZEMOS, então não existe Deus ou, se existe, não se importa em nada com os homens; A VIRTUDE E O VÍCIO NADA SERIAM, como já dissemos, NEM OS LEGISLADORES CASTIGARIAM COM JUSTIÇA OS QUE TRANSGRIDEM AS BOAS ORDENAÇÕES. 2 Todavia, como os legisladores não são injustos e O PAI DELES ENSINA, ATRAVÉS DO VERBO, A FAZER O QUE ELE MESMO FAZ, não são injustos os que a eles aderem. 3 E se nos objetam que existe diversidade de leis entre os homens e que aquilo que uns consideram bom, outros o consideram mau, e o que é belo para estes é vergonhoso para aqueles, respondemos da maneira que segue. 4 Em primeiro lugar, sabemos que os anjos maus estabelecem leis semelhantes à sua própria maldade, nas quais se comprazem os homens que estão com eles; por ou tro lado, AO CHEGAR DEPOIS A RETA RAZÃO, ELA DEMONSTRA QUE NEM TODAS AS OPINIÕES, nem todas as leis são boas, mas umas são boas e outras más.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 10.1-8
1 Portanto, a nossa religião mostra-se mais sublime do que todo o ensinamento humano, pela simples razão de que possuímos o Verbo inteiro, que é Cristo, manifestado por nós, tornando-se corpo, razão e alma. 2 Com efeito, tudo o que os filósofos e legisladores disseram e encontraram de bom, foi elaborado por eles pela investigação e intuição, CONFORME A PARTE DO VERBO QUE LHES COUBE. 3 Todavia, como eles não conheceram o Verbo inteiro, que é Cristo, eles freqüentemente se contradisseram uns aos outros. 4 Aqueles que antes de Cristo tentaram investigar e demonstrar as coisas pela razão, conforme as forças humanas, foram levados aos tribunais como ímpios e amigos de novidades. 5 SÓCRATES, que mais se empenhou nisso, foi acusado dos mesmos crimes que nós, pois diziam que ele introduzia novos demônios e que não reconhecia aqueles que a cidade considerava como deuses. 6 O fato é que, expulsando da república Homero e outros poetas, ELE ENSINOU OS HOMENS A REJEITAR OS MAUS DEMÔNIOS, que cometeram as abominações de que falam os poetas, e ao mesmo tempo OS EXORTAVA AO CONHECIMENTO DE DEUS, para eles desconhecido, POR MEIO DE INVESTIGAÇÃO RACIONAL, dizendo: “Não é fácil encontrar o Pai e artífice do universo, nem, quando o tivermos encontrado, é seguro dizê-lo a todos.” 7 Foi justamente o que o nosso Cristo fez por sua própria virtude. 8 Com efeito, ninguém acreditou em Sócrates, até que ele deu a sua vida por essa doutrina; em Cristo, porém, que em parte foi conhecido por Sócrates, — pois ele era e é o Verbo que está em tudo, e foi quem predisse o futuro através dos profetas e, feito de nossa natureza, por si mesmo nos ensinou essas coisas — em Cristo acreditaram não só filósofos e homens cultos, mas também artesãos e pessoas totalmente ignorantes, que souberam desprezar a opinião, o medo e a morte; porque ele é a virtude do Pai inefável e não um vaso de humana razão.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 12.1
Eu mesmo, quando seguia a doutrina de Platão, ouvia as calúnias contra os cristãos. Contudo, ao ver como caminhavam intrepidamente para a morte e para tudo o que é considerado espantoso, comecei a refletir que era impossível que tais homens vivessem na maldade e no amor aos prazeres
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 13.1
Eu também, ao perceber que OS MALVADOS DEMÔNIOS tinham lançado um véu sobre os divinos ensinamentos de Cristo, A FIM DE AFASTAR DELES OS OUTROS HOMENS, desprezei da mesma forma aqueles que propagavam tais calúnias como o véu dos demônios e a opinião do vulgo.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 13.2-5
2 Confesso que todas as minhas orações e esforços tem por finalidade mostrar-me cristão, não porque as doutrinas de Platão sejam alheias a Cristo, mas porque ELAS NÃO SÃO TOTALMENTE SEMELHANTES, como também as dos outros filósofos, os estóicos, por exemplo, poetas e historiadores. 3 De fato, cada um falou bem, vendo o que tinha afinidade com ele, pela parte que lhe coube do Verbo seminal divino. Todavia, é evidente que aqueles que em pontos muito fundamentais se contradisseram uns aos outros, não alcançaram uma ciência infalível, nem um conhecimento irrefutável. 4 Portanto, TUDO O QUE DE BOM FOI DITO POR ELES, pertence a nós, cristãos, porque nós adoramos e amamos, depois de Deus, o Verbo, que procede do mesmo Deus ingênito e inefável. Ele, por amor a nós, se tornou homem para partilhar de nossos sofrimentos e curá-los. 5 Todos os escritores só puderam obscuramente ver a realidade, GRAÇAS À SEMENTE DO VERBO NELES INGÊNITA.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 14.1,2
POR SUA PRÓPRIA CULPA, eles se tornam responsáveis pelo castigo, 2 POIS NA NATUREZA HUMANA EXISTE A FACULDADE DE CONHECER O BEM E O MAL.
A Segunda Apologia de Justino Mártir, 15.3
3 Com efeito, segundo julgamento prudente, as nossas doutrinas não são vergonhosas, mas superiores a toda filosofia humana. Se não são tais, ao menos não se parecem com as de Sotades, Filênida, Arquéstrato, Epicuro e outros, nem são semelhantes às de poetas que, oralmente ou por escrito, vós permitis que sejam conhecidas por todo mundo.
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