Referências do Debate

A Epístola de Barnabé, 100 d.C.

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A chamada Epístola de Barnabé estra no grupo dos mais antigos escritos cristãos extracanônicos que chegaram até nós, sendo geralmente situada entre o final do século I e as primeiras décadas do século II. Escritores como Clemente de Alexandria e Orígenes atribuíram a obra ao Barnabé histórico, mencionado no livro de Atos. Porém, o consenso atual sobre a “Epístola de Barnabé” é de que ela não tenha sido escrita por ele. Embora a tradição antiga tenha atribuído sua autoria a Barnabé, companheiro do apóstolo Paulo, atualmente a obra é considerada anônima, razão pela qual seu autor é frequentemente chamado de Pseudo-Barnabé[i].

Apesar da incerteza quanto à autoria, a obra possui grande importância como testemunho do Cristianismo primitivo. Seu conteúdo pertence, de maneira geral, à corrente ortodoxa da Igreja antiga, não devendo ser confundido com os escritos gnósticos e outros textos considerados heréticos. É importante não confundir a Epístola de Barnabé com o Evangelho de Barnabé. O “Evangelho” é uma falsificação medieval comprovada, escrita entre os séculos XIV e XVI que altera a história de Jesus para se alinhar com as crenças islâmicas[ii].

A Epístola apresenta uma cristologia elevada, reconhece Jesus Cristo como Filho de Deus, sua encarnação e sofrimento, enfatiza sua obra salvífica, o juízo futuro, a ressurreição e a necessidade de uma vida de obediência a Deus. Particularmente importante é sua seção final sobre os “Dois Caminhos” — o Caminho da Luz e o Caminho das Trevas —, na qual o autor enfatiza a responsabilidade moral do ser humano, suas ações e as consequências de suas escolhas.

A consideração de que a Epístola de Barnabé desfrutou entre alguns cristãos antigos foi bastante elevada. Além das citações de Clemente de Alexandria e Orígenes, a epístola também foi preservada no célebre Codex Sinaiticus, do século IV, onde aparece depois dos livros do Novo Testamento, juntamente com o livro “Pastor de Hermas”. Isso não significa que tenha sido universalmente reconhecida como Escritura, mas demonstra o prestígio e a ampla utilização que alcançou em determinados círculos cristãos.

Embora a Epístola de Barnabé não tenha sido incorporada ao cânon definitivo do Novo Testamento, permaneceu como importante testemunho da fé e da ética dos cristãos dos primeiros séculos, sendo hoje tradicionalmente incluída entre os escritos dos chamados Pais Apostólicos.


1. Pseudo-Barnabé 2.1,9,10

1 Uma vez que os dias são maus e aquele que exerce o poder é o próprio Maligno, devemos, para o nosso próprio bem, buscar cuidadosamente os preceitos do Senhor. 9 Devemos, portanto, compreender, pois não somos sem inteligência, o desígnio de nosso Pai em sua bondade, pois ele se dirige a nós, desejando que procuremos o modo de nos aproximar dele, sem nos extraviar, como aqueles homens. 10 Devemos, portanto, irmãos, cuidar da nossa salvação, para que o Maligno não introduza em nós o erro, e nos lance para fora da nossa vida.

2. Pseudo-Barnabé 4.1-2

1 É preciso, portanto, que examinemos com grande atenção a situação presente, para procurar o que nos pode salvar. Fujamos, pois, radicalmente de todas as obras iníquas, para que as obras iníquas jamais se apoderem de nós. Odiemos o erro do mundo presente, para que sejamos amados no mundo vindouro. 2 Não demos liberdade à nossa alma para que ela não tenha poder de correr com os maus e pecadores, a fim de que não nos tornemos semelhantes a eles.

3. Pseudo-Barnabé 4.6-8

6 Além disso, peço-vos insistentemente, eu que sou um de vós e vos amo a todos e a cada um em particular mais do que a mim mesmo: tomai cuidado para não ficardes como certas pessoas, que acumulam pecados, dizendo que a Aliança está garantida para nós. 7 Claro que ela é nossa. Eles (os judeus) a perderam definitivamente, embora Moisés já a tivesse recebido. De fato, a Escritura diz: “Moisés jejuou na montanha durante quarenta dias e quarenta noites, e depois recebeu do Senhor a Aliança, as tábuas de pedra escritas pelo dedo da mão do Senhor.” 8 Eles, porém, a perderam, por se terem voltado para os ídolos. Com efeito, assim disse o Senhor: “Moisés, Moisés, desce depressa, pois teu povo pecou, aqueles que fizeste sair da terra do Egito”. Moisés compreendeu, e jogou as duas tábuas de suas mãos. A Aliança deles foi rompida, para que a de Jesus, o Amado, fosse selada em nossos corações pela esperança da fé que nele temos. 

4. Pseudo-Barnabé 4.9-14

9 Estejamos atentos nestes últimos dias! Nada adiantará todo o tempo de nossa vida e de nossa fé, se agora, neste tempo de impiedade e na iminência dos escândalos, não resistirmos, como convém a filhos de Deus. 10 A fim de que a Treva não se infiltre em nós e às escondidas, fujamos de toda vaidade e odiemos completamente as obras do mau caminho. Não vos isoleis, dobrando-vos sobre vós mesmos, como se já estivésseis justificados, mas reuni-vos, para procurar juntos o vosso bem comum. 11 De fato, a Escritura diz: “Ai daqueles que se creem inteligentes e que são sábios aos seus próprios olhos!” Tornemo-nos espirituais, tornemo-nos um templo perfeito para Deus. Quanto nos for possível, apliquemo-nos ao temor de Deus e combatamos para observar seus mandamentos, a fim de nos alegrarmos em suas disposições. 12 O Senhor julgará o mundo com imparcialidade; cada um receberá segundo o que fez. Se for bom, sua justiça o precederá; se for mau, diante dele irá o salário do mal. 13 Cuidado para que, descansando em tranquilidade, como chamados de Deus que somos, não adormeçamos em nossos pecados, de modo que o príncipe do mal obtendo poder sobre nós, nos afaste do reino do Senhor. 14 Meus irmãos, quando estiverdes refletindo sobre tudo isso, compreendei ainda o seguinte: Depois de tantos sinais e prodígios acontecidos em Israel, assim mesmo eles foram abandonados. Tomemos cuidado para que não estejamos cumprindo o que está escrito, que diz, “muitos chamados, mas poucos escolhidos”.

5. Pseudo-Barnabé 5.4

A Escritura diz: “Na verdade é inútil estender-se a rede ante os olhos de qualquer ave” [iii]. Isso quer dizer que, com razão, se perderá o homem que, tendo conhecimento do caminho da justiça, toma entretanto o caminho das trevas.

6. Pseudo-Barnabé 5.9,10

9 Porém, quando ele escolheu seus próprios apóstolos, que iriam anunciar o seu Evangelho, homens cujo pecado ultrapassava a medida, foi para mostrar que ele não tinha vindo chamar os justos, e sim os pecadores. Então ele manifestou que era Filho de Deus. 10 Com efeito, se não se tivesse encarnado, como os homens poderiam ter sido salvos ao vê-lo, uma vez que eles não podem levantar os olhos para olhar de frente os raios do sol?

7. Pseudo-Barnabé 6.2,3

2 “Eis que colocarei nos alicerces de Sião uma pedra de grande valor, escolhida, angular e preciosa. 3 Aquele que nela crer, viverá para sempre”.

8. Pseudo-Barnabé 12.1-4

1 Da mesma forma, é sobre a cruz que ele fala por meio de outro profeta: “Quando tais coisas se cumprirão? Diz o Senhor: Quando um madeiro for estendido no chão e depois novamente levantado, e quando o sangue gotejar do madeiro”. Eis que se fala de novo da cruz e daquele que seria crucificado. 2 Ele ainda fala a Moisés, quando Israel é atacado pelos povos estrangeiros, para lembrar-lhes, nesse combate, que era pelos pecados deles que estavam sendo entregues à morte. Falando ao coração de Moisés, o Espírito lhe fez representar a figura da cruz e de quem sofreria, pois, diz ele, se não esperarem nele, serão eternamente atacados. Então Moisés amontoou as armas no meio do combate e, de pé, no lugar mais alto de todos, estendeu os braços, e assim Israel venceu novamente. Em seguida, cada vez que os abaixava, os israelitas sucumbiam outra vez. 3 Por quê? Para que soubessem que não podiam ser salvos, se não confiassem nele. 4 Por meio de outro profeta, ele diz ainda: “O dia inteiro estendi meus braços para um povo desobediente e que se opõe ao meu justo caminho”.

9. Pseudo-Barnabé 12.5-7

5 Outra vez ainda, no momento em que Israel sucumbia, Moisés fez prefiguração de Jesus, mostrando que ele devia sofrer, e justamente aquele que acreditavam estar morto na cruz, haveria de dar a vida. De fato, o Senhor fez com que todo tipo de serpentes os mordessem, e eles morriam, embora a serpente tenha sido para Eva o instrumento da desobediência. Ele queria assim convencê-los de que era por causa da desobediência deles que seriam entregues à tortura da morte. 6 Finalmente, o próprio Moisés tinha ordenado: “Não tereis, como vosso deus, nenhuma imagem fundida ou esculpida”. Mas ele próprio fez uma serpente de bronze, colocou-a diante de todos, e convocou o povo. 7 Quando se reuniram naquele lugar, suplicaram a Moisés que intercedesse pela cura deles. Moisés porém, lhes respondeu: “Quando alguém de vós for mordido, venha até à serpente fixada ao madeiro e creia com confiança. Crendo que essa serpente, embora morta, possa dar a vida, no mesmo instante será salvo”. Assim fizeram eles. Eis aqui de novo a glória de Jesus, porque tudo está nele e tudo é para ele.

10. Pseudo-Barnabé 16.7-10

7 Antes de crermos em Deus, a habitação do nosso coração era corrupta e fraca, sendo de fato como um templo feito por mãos. Pois estava cheia de idolatria, e era habitação de demônios, por fazermos tais coisas que se opunham à vontade de Deus (...) 8 Tendo recebido o perdão dos pecados, e posto a nossa confiança no nome do Senhor, tornamo-nos novas criaturas, formadas de novo desde o princípio (...) 10 Aquele, pois, que deseja ser salvo não olha para o homem, mas para Aquele que habita nele e fala nele.

11. Pseudo-Barnabé 18.1,2

1 Existem dois caminhos de ensinamento e autoridade: o da luz e o das trevas. A diferença entre os dois é grande. De fato, sobre um estão postados os anjos de Deus, portadores da luz; e sobre o outro, os anjos de satanás. 2 Um é Senhor de eternidade em eternidade, o outro é príncipe do presente tempo da iniqüidade.

12. Pseudo-Barnabé 19.1

Este é o caminho da luz: se alguém quer andar no caminho e chegar ao lugar determinado, que se esforce em suas obras. Eis, portanto, o conhecimento que nos foi dado para andar nesse caminho.

13. Pseudo-Barnabé 20.1

O caminho das trevas é tortuoso e cheio de maldições. De fato, em sua totalidade, ele é o caminho da morte eterna nos tormentos. Nele se encontram as coisas que arruínam a alma dos homens: idolatria, insolência, altivez do poder, hipocrisia, duplicidade de coração, adultério, homicídio, rapina, orgulho, transgressão, fraude, maldade, arrogância, feitiçaria, magia, avareza e ausência do temor de Deus.

14. Pseudo-Barnabé 21.1

É bom, portanto, aprender os preceitos do Senhor, que estão escritos, e a elas conformar o comportamento. Com efeito, aquele que os pratica será glorificado no Reino de Deus, mas aquele que escolher o outro Caminho perecerá com suas obras. Por isso, existe ressurreição, e por isso existe retribuição.

NOTAS

[i] - Barnabé

Clemente de Alexandria atribuiu a epístola ao Barnabé histórico, o companheiro de Paulo. Ele a cita várias vezes em seu livro intitulado de “Stromata”. Clemente a cita como obra do “apóstolo Barnabé”, “um dos setenta” e “cooperador de Paulo” (por exemplo Stromata 2.6; 2.7; 2.20; 5.10). Orígenes também a trata como “Epístola Universal de Barnabé” (em Contra Celso 1.63) e a coloca entre os escritos sagrados (Tratado Sobre os Princípios 3.2; e comentário a Romanos 1.24). Ele não descreve a biografia de Barnabé com o mesmo detalhe de Clemente, mas o título e o uso implicam o mesmo personagem apostólico. Depois, Jerônimo ainda aceita essa atribuição, embora classifique o texto entre os apócrifos. Eusébio já a lista entre os livros disputados ou espúrios (História Eclesiástica 3.25.4; 6.13–14). O texto em si é anônimo. A ligação com o Barnabé de Atos vem dessa tradição alexandrina, não de uma assinatura no documento.

[ii] - Evangelho de Barnabé

O conteúdo do “Evangelho de Barnabé” acompanha teses islâmicas sobre Jesus: ele não é Filho de Deus, não morre na cruz, pois teria havido uma substituição por um discípulo, e anuncia um profeta posterior, no caso, Maomé. Por isso é usado na apologética muçulmana moderna. Embora se proponha a ser uma obra do Barnabé histórico, contém anacronismos medievais, descrevendo ambiente europeu e apresentando ecos de Dante.

[iii] - Prorvérbios

Provérbios 1.17,18 (ACF): “17 Na verdade é inútil estender-se a rede ante os olhos de qualquer ave. 18 No entanto estes armam ciladas contra o seu próprio sangue; e espreitam suas próprias vidas”.


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Atualizado em 01/09/2026
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