Tertuliano foi um teólogo brilhante, que, segundo dizem, foi aquele que pela primeira vez escreveu em latim de forma sistemática. Ajudou a moldar o vocabulário cristão latino e defendeu a fé contra heresias. Redigiu textos importantes na defesa do livre-arbítrio e contra o predestinismo gnóstico, embora tenha se tornado mais conhecido por causa da sua obra sobre a doutrina da Trindade. No entanto, suas obras na defesa do livre-arbítrio e da responsabilidade moral e seu posicionamento contra o determinismo estoico e gnóstico, são excelentes. Abaixo, temos alguns exemplos de seus argumentos.
Contra os Valentinianos, II, 75
Somos caracterizados por eles [os gnósticos] como “inocentes”, e por esta razão eles não nos consideram “sábios”. Eles acham que a sabedoria não tem qualquer relação com a inocência, muito embora o Senhor conectou a ambos quando disse, “sede prudentes como as serpentes e sem malícia como as pombas”. Agora, porém, se somos estúpidos porque não temos malícia e somos inocentes, poderíamos dizer que eles seriam maliciosos e culpados por serem sábios? Em meu ponto de vista, eu preferiria ser condenado por um “erro melhor” se eu tivesse que escolher. É melhor ter uma inteligência inferior do que ter uma inteligência maligna. Melhor falhar por algum erro do que enganar os outros.
Contra Marcião, Livro II, 6
Que sejamos compreendidos em nosso argumento, que NOSSA AFIRMAÇÃO É QUE O PODER DO HOMEM SOBRE SUA VONTADE É IRRESTRITO, e o que quer que lhe aconteça deve ser colocado sob sua responsabilidade, e não na de Deus, e mesmo que você discorde, dizendo que ele não deveria ter sido feito assim, uma vez que sua liberdade e poder de vontade poderiam se tornar prejudiciais, antes de tudo, eu quero afirmar que, ao ser constituído assim, ele fora constituído da forma correta, de modo que, com grande confiança, eu posso enaltecer tanto sua real constituição, como o fato adicional de que tal constituição seja digna do Ser Divino, pois a causa que levou o ser humano a ser criado de tal forma tem se demonstrado a melhor.
Contra Marcião, Livro II, 6
Além disso, o homem assim constituído será protegido tanto pela bondade de Deus como pelo seu propósito, ambos sempre encontrados em conjunto no nosso Deus. Pois seu propósito não é um propósito sem bondade, nem a sua bondade sem um propósito, a não ser, é claro, no caso do deus de Marcião, que é bom mas não tem qualquer propósito, como já demonstramos.
Contra Marcião, Livro II, 6
Bem, foi apropriado que Deus se tornasse conhecido, não há dúvida de que isso foi uma coisa boa e razoável. Apropriado também que houvesse alguma coisa que fosse digna de conhecer a Deus. O que poderia ser mais digno do que a imagem e semelhança de Deus? Isto também foi algo indubitavelmente bom e razoável. Portanto, foi apropriado que aquele que é a imagem e semelhança de Deus fosse formado com tamanho livre-arbítrio e tal maestria de si mesmo, para que exatamente isto, a saber, a liberdade da vontade e o autocontrole, pudessem ser reconhecidos como a imagem e semelhança de Deus nele. Para este propósito, tal essência foi adaptada ao homem para que contivesse esta característica, como reflexo divino, sendo Deus mesmo livre e fora de qualquer controle. Deixemos que apenas a bondade de Deus ocupe nossa atenção, bondade esta que concedeu tão grande dom ao homem, a própria liberdade da sua vontade.
Contra Marcião, Livro II, 6
Agora, apenas Deus é bom por natureza. Pois ele, que a tem sem que isso tenha tido início, não a tem por criação, mas por natureza. O homem, contudo, que existe plenamente pela criação, e tendo um princípio, com este princípio obteve a forma na qual existe hoje; assim, o homem não é disposto ao bem por natureza, mas por criação, não que ele tenha isso como seu próprio atributo de ser bom, mas porque, como já dissemos, não é por natureza, mas por criação, que ele está disposto a fazer o bem, de acordo com o desígnio de seu bom Criador, que é o próprio Autor de todo o bem.
Contra Marcião, Livro II, 6
Portanto, para que o homem pudesse ter uma BONDADE PRÓPRIA, que lhe fora concedida da parte de Deus, e para que essa qualidade pudesse estar no homem como UM ATRIBUTO NATURAL DE BONDADE, foi-lhe atribuída na constituição da sua natureza como um testemunho oficial da bondade que Deus lhe concedeu. A liberdade e o poder da vontade deveriam ser tais QUE FIZESSEM COM QUE O BEM FOSSE REALIZADO ESPONTANEAMENTE PELO HOMEM, como uma propriedade que lhe é característica, partindo do princípio que nada menos que isso poderia ser requerido na realização do bem – que deveria ser voluntariamente praticado por ele, ou seja, PELA LIBERDADE DA SUA VONTADE, e não por um favor ou subserviência na constituição de sua natureza, PARA QUE O HOMEM PUDESSE SER BOM, se de fato ele devesse demonstrar sua bondade em consonância com sua constituição natural. Entretanto, sendo ainda o resultado da sua vontade, como uma propriedade da sua natureza, e, por meio de um exercício natural deste tipo de volição, deveria também se mostrar forte o suficiente contra o mal (pois até isso, Deus, obviamente, previu), SENDO ASSIM LIVRE, e MESTRE DE SI MESMO; porque SE ELE FOSSE CARENTE NESSA PRERROGATIVA DE AUTOCONTROLE, como se só pudesse fazer o que é bom por uma força extraordinária, e NÃO POR SUA VONTADE, por causa desta condição deplorável de subserviência, ele se tornaria sujeito à usurpação do mal como um escravo, tanto para o mal quanto para o bem.
Contra Marcião, Livro II, 6
Portanto, a plena liberdade da vontade fora conferida a ele para ambas as tendências, de maneira que, como mestre de si mesmo, ele poderia constantemente experimentar o bem pela observância espontânea dele, e lidar com o mal por sua espontânea evitação. Se o homem tivesse sido envolvido em circunstâncias diferentes destas, na perspectiva do julgamento de Deus, ainda seria dever obrigatório do homem praticar a justiça de acordo com as moções da sua vontade, que ainda seria considerada, claro, como livre. Porém, a retribuição tanto pelo bem quanto pelo mal, não poderia ser dada ao homem que, porventura, tivesse sido considerado bom ou mau por meio da imposição de uma força externa e não por sua escolha. Nisto, realmente reside a lei, que não excluiu, em vez disso provou a liberdade humana, seja através da prática espontânea da obediência, ou da prática espontânea da iniquidade, de tão patente que esteve a liberdade da vontade do homem para qualquer um dos lados.
Contra Marcião, Livro II, 6
Portanto, uma vez que tanto a bondade, quanto o propósito de Deus, são descobertos no dom concedido ao homem – dom este que se trata da liberdade em sua vontade – não é certo, ignorando a definição original de bondade e propósito que foi necessária estabelecer antes de qualquer discussão sobre este assunto, não é certo, a respeito dos fatos subsequentes [a queda do homem], dizer que Deus não deveria ter formado o homem desta forma, porque a questão era outra e não o que se pensava ser apropriado para Deus.
Contra Marcião, Livro II, 6
Em vez disso, deveríamos, depois da devida consideração de que fora apropriado a Deus criar o homem da forma que foi, deixar esta questão intacta, e passarmos a pesquisar sobre outros aspectos do caso. Sem dúvida, para pessoas que se ofendem pela queda do homem, é muito fácil pôr a culpa em Deus pelo que aconteceu, sem antes analisarem os detalhes dos fatos relacionados à sua criação, sem qualquer análise dos seus propósitos. Para concluir: a bondade de Deus, quando plenamente considerada desde o princípio de suas obras, será suficiente para nos convencer de que coisa alguma má jamais poderia ter vindo de Deus, e que, depois de se pensar duas vezes no assunto, veremos que a liberdade do homem, apenas ela, é imputável pelo erro que ela mesma cometeu.
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