
Irineu de Lyon teve o privilégio de ouvir ministrações de Policarpo, que foi discípulo do apóstolo João. Irineu escreveu uma obra de cinco volumes para combater “os falatórios inúteis e profanos e todas as contradições da gnose, como falsamente lhe chamam” (1Timóteo 6.20). A palavra grega “gnose” significa “conhecimento”, por isso, Paulo diz que alguns dissidentes chamavam falsamente suas filosofias e crenças por este nome, ou seja "saber", "ciência" ou "conhecimento". O título original do livro de Irineu, escrito em grego, faz alusão direta a este texto de Paulo escrito a Timóteo. Em português, o livro de Irineu, publicado pela Editora Paulus, ficou conhecido pelo título “Contra as Heresias”. Abaixo você encontra algumas citações da sua obra.
Contra as Heresias, 1.25.6
Eles se chamam gnósticos. Possuem umas imagens, algumas pintadas outras feitas de materiais diversos, e dizem que reproduzem o Cristo e foram feitas por Pilatos quando Jesus estava com os homens. Coroam-nas e expõem-nas junto com aquelas de filósofos profanos, a saber, de Pitágoras, Platão, Aristóteles e outros e lhes prestam homenagem assim como fazem os pagãos.
Contra as Heresias, 1.26.2
Portanto, os que blasfemam o Criador — explícita e abertamente, como os discípulos de Marcião ou astuciosamente, como os discípulos de Valentim e todos os falsos gnósticos — SEJAM RECONHECIDOS POR TODOS OS QUE ADORAM A DEUS COMO INSTRUMENTOS DE SATANÁS.
Contra as Heresias, 1.31.3
Mesmo envolvidos em fábulas tão miseráveis e inconsistentes, orgulharam-se a ponto de se julgarem melhores que os outros por causa [do seu conhecimento], que mais se deveria chamar de ignorância.
Contra as Heresias, 2.14.4
Que o Demiurgo fez o mundo com matéria preexistente já o tinham dito antes deles Anaxágoras, Empédocles e Platão, inspirados, como é fácil de entender, pela Mãe destes gnósticos. Que necessariamente todas as coisas se dissolvam naquelas das quais foram feitas e que desta necessidade até Deus seja escravo, tanto que não possa conferir a imortalidade ao mortal ou dar a incorruptibilidade ao corruptível, mas que cada um recaia, numa substância similar em natureza a ele mesmo, foi afirmado também pelos estoicos, e por todos os poetas e escritores que não conhecem a Deus.
Contra as Heresias, 3.25.4,5
4 Assim, Deus, que com bondade, faz o seu sol levantar para todos e faz chover sobre os justos e os injustos, julgará todos os que receberam de modo igual da sua bondade, PORÉM NÃO SE COMPORTARAM DE MANEIRA CONDIGNA AO DOM RECEBIDO, mas entregues aos prazeres e às paixões carnais, contrariam a sua bondade e até blasfemam quem os cumulou de benefícios. 5 Bem mais religioso do que eles parece Platão, que reconheceu um Deus, ao mesmo tempo justo e bom, com poder sobre todos e que pronuncia pessoalmente o julgamento. Ele diz: “Segundo o dito antigo, Deus, possuindo o princípio, o meio e o fim de todas as coisas existentes, vai reto a seu fim, como é de sua natureza; e é sempre acompanhado pela justiça que castiga as infrações à lei divina”. E afirma que o Autor e Criador deste universo é um ser bom: “Naquele que é bom nunca nasceu a inveja de nada”. E estabelece como princípio e causa da criação a bondade de Deus e não a ignorância, nem um Éon desgarrado ou fruto de degradação, nem uma Mãe chorosa e queixosa, nem outro Deus ou outro Pai
Contra as Heresias, IV.37.1
A expressão de nosso Senhor, “Quantas vezes quis reunir os teus filhos e não quiseste”, ESTABELECE A ANTIGA LEI DA LIBERDADE HUMANA, POIS DEUS FEZ O HOMEM UM AGENTE LIVRE DESDE O PRINCÍPIO, tendo domínio sobre seu próprio poder, assim como tem sobre sua alma, para obedecer, voluntariamente, às ordens de Deus. POIS DEUS NÃO POR MEIO DE COERÇÃO, mas sua boa vontade para conosco está sempre disponível, continuamente. E, portanto, ele sempre dá bons conselhos A TODOS. Nos homens, como nos anjos, ELE COLOCOU O PODER DA ESCOLHA (pois os anjos são seres racionais), para que AQUELES QUE SE INCLINAREM à obediência possam usufruir do que é bom, como é justo, como algo CONCEDIDO por Deus, de fato, MAS PRESERVADO POR SI MESMOS. Por outro lado, seguindo os méritos do que é justo, aqueles que não obedecerem, também não possuirão as coisas boas, pelo contrário, receberão a PUNIÇÃO MERECIDA: isso porque Deus gentilmente derramou sobre eles o que era bom, mas ELES MESMOS não o conservaram com diligência, nem o consideraram como algo precioso, em vez disso, DESPREZARAM esta super evidente bondade. Portanto, AO REJEITAR O BEM, e como se o estivessem vomitando fora, eles incorrerão merecidamente no justo castigo de Deus, sobre o qual, também o Apóstolo Paulo testemunha em sua Carta aos Romanos, onde diz: “Mas desprezas as riquezas da sua bondade, e paciência, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus te conduz ao arrependimento?”
Contra as Heresias, IV.37.2
Se, por natureza, alguns fossem bons e outros maus, nem aqueles seriam louváveis por serem bons, porque nasceram assim, NEM ESTES SERIAM CONDENÁVEIS POR TEREM SIDO FEITOS ASSIM. Mas como TODOS são da mesma natureza, CAPAZES DE POSSUIR E REALIZAR O BEM e capazes de perdê-lo e de não fazê-lo, OS QUE ESCOLHERAM e perseveraram no bem, recebem digno testemunho por isso, e são justamente louvados pelas pessoas sensatas — e muito mais por Deus — os outros são repreendidos e recebem a MERECIDA infâmia POR TEREM RECUSADO o bem e o que é justo.
Contra as Heresias, IV.37.3
Por isso o Senhor diz: “Que a vossa luz brilhe diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (...) E TODAS AS OUTRAS COISAS QUE MOSTRAM O LIVRE-ARBÍTRIO DO HOMEM e como Deus o instrui com o seu conselho, exortando-nos à submissão a ele, precavendo-nos da incredulidade, MAS SEM NOS OBRIGAR COM A VIOLÊNCIA.
Contra as Heresias, IV.37.4
Não há dúvida de que SE ALGLUÉM NÃO QUISER O EVANGELHO, ESTÁ EM SEU PODER REJEITÁ-LO, ainda que isso não fosse conveniente. POIS ESTÁ NO PODER DO HOMEM DESOBEDECER A DEUS, e renunciar ao que é bom, mas tal conduta traz não pequeno dano e prejuízo. SE NÃO ESTIVESSE EM NOSSO PODER FAZER OU NÃO FAZER ESSAS COISAS, que razão teve o apóstolo, e muito mais o próprio Senhor, em nos aconselhar a fazer algumas coisas e a nos abstermos de outras? MAS PORQUE O HOMEM É POSSUIDOR DE LIVRE-ARBÍTRIO DESDE O PRINCÍPIO, tal qual Deus é possuidor de livre arbítrio, em cuja semelhança o homem foi criado, sempre lhe é dado conselho para SE APEGAR ao que é bom, o que é feito por meio da obediência a Deus.
Contra as Heresias, IV.37.5
Não somente nas ações, mas também na fé, O SENHOR DEIXOU LIVRE E INDEPENDENTE O ARBÍTRIO DO HOMEM. Ele disse: “Seja-te feito segundo a tua fé”, MOSTRANDO QUE A FÉ É PRÓPRIA DO HOMEM, pois tem o poder de decidir. E ainda: “Tudo é possível para quem crê”. E mais: “Vai, e te seja feito conforme acreditaste”. E todos os textos análogos que mostram O HOMEM LIVRE em relação a fé. Por isso “aquele que crê nele tem a vida eterna, mas aquele que não crê no Filho, não terá a vida eterna, mas a ira de Deus ficará sobre ele”. Segundo este princípio, indicando ao homem seu verdadeiro bem e afirmando ao mesmo tempo a SUA LIBERDADE DE ARBÍTRIO E DE PODER, o Senhor dizia a Jerusalém: “Quantas vezes quis reunir os teus filhos, como a galinha recolhe os pintinhos debaixo das asas, e não quiseste. Eis por que a vossa casa será deixada deserta”.
Contra as Heresias, IV.37.6
Aqueles que mantêm pensamentos contrários aos nossos, apresentam um Senhor destituído de poder, como se, na verdade, ele fosse incapaz de realizar a sua vontade, ou, por outro lado, como sendo ignorante sobre o fato de alguns serem por natureza “materiais”, como estes homens gostam de dizer, e por serem assim, não poderiam receber sua imortalidade.
Contra as Heresias, IV.37.6
Eles dizem, “Mas Deus não deveria ter criado os anjos com uma natureza que fosse capaz de transgredir, nem os homens, que imediatamente provaram ser ingratos para com ele, pois foram feitos seres racionais, revestidos de poder para examinar e julgar, e deveriam ter sido formados como coisas irracionais ou com uma natureza meramente animal, QUE NÃO PUDESSEM FAZER COISA ALGUMA DA SUA PRÓPRIA VONTADE, mas que fossem atraídos pela necessidade e pela compulsão do que é bom, em quais coisas há somente uma intenção e um propósito, funcionando mecanicamente em um só movimento (inflexível e sem sentido), e que fossem incapazes de ser qualquer outra coisa a não ser apenas o que eles foram criados para ser”.
Contra as Heresias, IV.37.6
Mas se fosse assim, eles não seriam gratos pelo que é bom, nem a comunhão com Deus seria preciosa, NEM AS COISAS BOAS SERIAM muito desejadas ou PROCURADAS, pois se apresentariam a si mesmas sem o devido esforço, cuidado, ou estudo, mas seriam implantadas dentro de suas possibilidades sem que os homens sequer estivessem conscientes delas. O resultado disso é que o fato de eles praticarem coisas boas não lhes traria qualquer consequência, porque se comportariam assim por natureza E NÃO POR SUA PRÓPRIA VONTADE, e seriam possuidores do bem de forma espontânea, NÃO POR SUA PRÓPRIA ESCOLHA; e por esta razão eles não entenderiam o que havia acontecido, pois o bem seria uma coisa comum, e não teriam prazer nele. Afinal, como aqueles que são ignorantes sobre o que significa ser bom poderiam ter prazer com isso? Ou que crédito caberia àqueles que não o almejam? E que tipo de coroa caberia àqueles que não procederam no desejo de alcançá-la, como fazem os vitoriosos em uma disputa?
● YouTube | Telegram | Instagram | Facebook | Aplicativo | Loja de Livros ●