Referências do Debate

Romanos 9.11-21

Romanos 9.11-21 11 E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), 12 já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. 13 Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú. 14 Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! 15 Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. 16 Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. 17 Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra. 18 Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz. 19 Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade? 20 Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? 21 Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?

Os gnósticos de forma geral usavam esse texto para justificar suas suposições quanto à divisão da humanidade em três classes, afirmando que havia pessoas a quem Deus não poderia salvar, pois estariam “predestinadas à destruição”, enquanto outras estariam “predestinadas à salvação e à glória”. Segundo eles, apenas “os vasos de honra”, cuja “natureza era de substância pneumática”, poderiam receber a salvação pois eram “eleitos” para tal.

Eles também usavam Romanos 9 para justificar suas interpretações deterministas, alegando que Deus “endurecia o coração dos homens, como fez com Faraó”, e que supostamente mantinha tudo sob seu microgerenciamento absoluto. Não sabemos especificamente quais dos gnósticos tenham escrito ou falado sobre o assunto, mas na obra de Irineu, que cita o texto de Romanos 9, ele combate de forma geral aos gnósticos Valentim, Ptolomeu, Marcião, Simão e Basílides, dentre outros. Orígenes, que cita uma porção ainda maior de Romanos 9 que Irineu, escreveu contra os gnósticos Basílides, Valentino e Marcião.

Em sua obra “Tratado Sobre os Princípios”, Orígenes tratou basicamente de todas as partes de Romanos 9 mais utilizadas pelos gnósticos: a escolha de Jacó em detrimento de Esaú, o endurecimento do coração de Faraó, a formação e o destino dos vasos de honra e de desonra, e também tratou abundantemente sobre o conceito bíblico do Livre-Arbítrio, a fim de demonstrar onde estavam os equívocos nas interpretações dos gnósticos sobre o capítulo 9 de romanos.


Orígenes, Tratado Sobre os Princípios, p. 213, 214

Algumas passagens do Antigo e do Novo Testamento PARECE que vão no sentido contrário, isto é, COMO SE SER SALVOS OU CONDENADOS NÃO DEPENDESSE DE NÓS, nem de observarmos os mandamentos ou infringi-los; vamos, por isso, expor essas passagens uma por uma e apresentar as soluções para que, partindo dos casos expostos, cada um possa escolher os textos que lhe PARECEM CONTRADIZER O LIVRE-ARBÍTRIO e examinar a sua solução.

No texto citado acima, Orígenes usa essa abordagem como uma breve introdução ao que passará a fazer deste ponto em diante. Sua intenção é preparar o leitor para mencionar passagens que poderiam servir de base para os gnósticos defenderem sua ideia de determinismo e predestinação. Orígenes vai citar:

  1. O “endurecimento do coração de Faraó” – Ex 4.21
  2. As promessas de Deus de que ele “tiraria o coração de pedra e lhes concederia um coração de carne” – Ez 11.19, 20.
  3. Quando Deus disse que “lhes faria andar em seus estatutos” – Ez 11.19, 20.
  4. Quando Jesus disse para que “ouvindo não entendam, não seja o caso que se convertam e sejam perdoados” – Mt 13.10 e Mc 4.12, 13.
  5. Quando Paulo disse que “não depende de quem quer ou de quem corre” – Rm 9.16
  6. O texto que diz que o “querer e o agir vem de Deus” – Fp 2.13
  7. Toda a exposição de Paulo contida em Romanos 9.18-21.

O livro de Orígenes intitulado “Tratado Sobre os Princípios” é um conjunto de quatro livros agrupados em um só volume. Do ponto daquela pequena introdução na página 214 até o final do terceiro livro na página 282, Orígenes tratará detalhadamente dos textos mencionados acima e de outras questões relacionadas exclusivamente ao tema do livre arbítrio, assunto do qual trata exclusivamente o terceiro livro da sua obra. Em diversos pontos ele citará a interpretação gnóstica de trechos de Romanos 9 e os refutará um a um. Os argumentos usados por Orígenes são excelentes, porém, o que realmente é mais importante disso, é o fato histórico de que os gnósticos foram os primeiros cristãos a usar textos como estes para justificar suas ideias predestinistas e de suposto controle arbitrário de Deus sobre tudo e todos.


Orígenes, Tratado Sobre os Princípios, p. 215

Vamos começar pelo que se diz a respeito do faraó e de Deus que o endurece para impedi-lo de deixar partir o povo; examinaremos ao mesmo tempo esta palavra do Apóstolo: “Terá piedade de quem ele quer e endurecerá quem ele quer” (Rm 9.18). Examinemos o que dizem alguns heterodoxos. ELES SE SERVEM DESSES TEXTOS PARA QUASE SUPRIMIR O LIVRE-ARBÍTRIO, argumentando que há naturezas perdidas, INCAPAZES DE SALVAÇÃO, e outras que estão salvas e SÃO INCAPAZES DE SE PERDER; dizem eles que o faraó era de uma natureza perdida, e endureceu por causa disso, porque Deus tem piedade dos espirituais e endurece os terrestres.

Observe Orígenes mencionando “o que dizem os heterodoxos”, e segundo ele, os “heterodoxos” se utilizavam desse tipo de texto para “destruir” o livre-arbítrio, como aparece, por exemplo, na versão em inglês da mesma obra: “Essencialmente, eles destroem o livre-arbítrio ao introduzir o conceito de naturezas arruinadas incapazes de receber salvação e pela introdução da ideia de outros que são salvos de uma forma tal que jamais poderiam se perder”.

Outro ponto importante a ser observado é que Orígenes está falando especificamente de um tipo de heterodoxos: os gnósticos, com suas invencionices predestinistas. Sabemos disso, porque Orígenes faz menção especificamente à doutrina gnóstica das “naturezas” e aos termos gnósticos “espirituais” ou “pneumáticos” dependendo da tradução feita, e se refere aos “Terrestres” ou “Hílicos”, que aparecem no final da última citação. 

É muito importante tomar nota do fato que os gnósticos foram os que, pela primeira vez na história da Igreja, interpretaram esses textos dessa forma. Não foi Agostinho, não foi Lutero, não foi Calvino, mas os gnósticos!

Se os cristãos realmente acreditassem nessa predestinação arbitrária em que Deus decide quem vai ser criado para ser jogado no inferno, e quem Deus quer criar para fazer parte do grupo da sorte, esta não seria uma boa hora para Orígenes expressar isso?

Ele poderia ter aproveitado a ocasião e dizer: “não é por causa da natureza que alguns não conseguem se converter e ser salvos; não é por isso que estão predestinados a ir para o inferno desde o dia em que nasceram, a razão disso é porque Deus graciosamente planejou o inferno para eles. Isto é, não foi por causa de sua natureza inconversível, foi por causa da vontade de Deus!”

Sei que há calvinistas que, por terem o mínimo de bom senso, se distanciam do conceito da “predestinação para o inferno”, pois seria vergonhoso assumir isso em público. No entanto, essa é a essência do Calvinismo raiz. Calvino disse:

João Calvino, Institutas, Volume 3, p. 41

“Denominamos predestinação o conselho eterno de Deus pelo qual ele determinou o que desejava fazer com cada ser humano. Porque ele não criou todos em igual condição, mas ordenou uns para a vida e os demais para a condenação eterna. Assim, conforme a finalidade para a qual o homem foi criado, dizemos que foi predestinado para a vida ou para a morte”.

Orígenes, Tratado Sobre os Princípios, p. 227

Vejamos agora a que se refere a frase: “Não é, pois, daquele que quer, nem daquele que corre, mas de Deus misericordioso” (Rm 9.16). OS ADVERSÁRIOS DIZEM: se não é obra daquele que quer, nem daquele que corre, mas de Deus, que faz misericórdia, A SALVAÇÃO NÃO VEM DE NOSSA VONTADE, mas da nossa natureza, obra daquele que assim nos criou, ou daquele que tem misericórdia quando quer.

Alguns gostam de dizer que Deus criou o homem perfeito, mas, após a queda, “sua natureza” já não é mais a mesma. Curiosamente nenhum dos escritores cristãos antigos diziam isso. Nenhum. Os únicos que usavam “a natureza” como argumento para justificar a perdição ou a predestinação do homem, eram os gnósticos. Outro ponto importante no texto acima é que ao contra-argumentar com os gnósticos Orígenes diz que hereges defendiam que "a salvação não vem da nossa vontade". Por mais que hoje em dia muitos estejam perdidos em relação ao simples fato de que a Bíblia ensina que quem quiser poderá ser salvo, na teologia primitiva isso era a coisa mais óbvia para todos os crentes: quem quiser, pode e será salvo! Exatamente como se diz em diversos lugares das Escrituras, que repetem essencialmente o conteúdo de Apocalipse 22.17: "Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida".


Orígenes, Tratado Sobre os Princípios, p. 231

Por causa de Romanos 9.18-21, [os gnósticos] dirão: “tal como o oleiro a partir da mesma massa faz vasos para uso respeitável e outros para uso menos digno, se Deus destina uns à salvação e outros à perdição, não está em nosso poder ser salvos ou nos perder: NÃO TEMOS LIVRE-ARBÍTRIO”. Não é próprio do Apóstolo repreender o pecador digno de censura, e aprovar como louvável aquele que agiu bem, e, por outro lado, dizer, como se não estivesse em nós, que o Criador é responsável por um vaso ter sido feito para uso respeitável e outro para uso vulgar.

Pelo que parece, Orígenes percebia que os adversários tinham um discurso diferente da linha convencional. Orígenes não era o único teólogo que dizia isso nos primeiros anos da igreja cristã, os únicos que diziam que "não temos livre-arbítrio" e que "é Deus que determina quem vai ser salvo e quem não vai", e que além disso, ainda "usava os textos de Romanos 9 para justificar essas ideias", eram os gnósticos, não os crentes tradicionais da igreja.

Preste atenção em como argumentou Orígenes: “não é próprio do Apóstolo dizer, como se não estivesse em nós, e que o Criador é que é responsável”. Ele está explicando que Paulo não tinha esse padrão de abordagem. Como Paulo repreenderia um pecador, como o de 1Coríntios 5.1-7, e elogiaria quem merecia crédito, como Onesíforo em 2Tm 1.16-18, e depois, se contradiria em Romanos 9 afirmando que Deus era quem fazia os homens assim – uns como vasos honrosos e outros como vasos desonrosos – como se essa responsabilidade não fosse nossa?


Orígenes, Tratado Sobre os Princípios, 3.1.21, p. 231, 232

Como pode ser verdade dizer que: “Todos nós compareceremos diante do tribunal de Cristo para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do seu corpo, seja no bem ou no mal” (2Cor 5.10), SE aqueles que agiram mal o fizeram porque foram criados como vasos destinados a um uso vulgar, e se aqueles que viveram virtuosamente fizeram o bem porque desde o início foram feitos com essa finalidade, como vasos destinados a um uso honrado? Há ainda outra contradição no fato de ser da responsabilidade do Criador um vaso ser respeitável ou ser um vaso vulgar; assim o compreendem nossos objetores nas palavras que citamos, e pelo que nos é dito noutro lugar: “Numa casa grande, não há somente vasos de ouro e prata, mas vasos de madeira e de barro, uns para uso respeitável, outros para uso desprezível. Se alguém se purifica a si mesmo, será um vaso respeitável, santificado, útil ao Senhor, pronto para toda boa obra” (2Tm 2.20-21). Porque, se aquele que se purifica se torna um vaso para uso respeitável, e se aquele que olhou com indiferença a sua própria impureza se torna um vaso de desonra, a julgar por essas palavras, O CRIADOR NÃO É DE MODO NENHUM RESPONSÁVEL. Pois o Criador faz os vasos de honra e de desonra desde o princípio segundo a sua presciência, mas não é por ela que antecipadamente condena nem justifica; mas ele faz vasos de honra COM AQUELES QUE SE PURIFICAM A SI MESMOS, e vasos de desonra DAQUELES QUE COM INDIFERENÇA olharam a sua própria impureza.

O Criador não é de modo nenhum responsável pela conduta de qualquer indivíduo! Se alguém terá uma vida digna ou não, depende das escolhas e da vontade livre de cada um. O destino para cada conduta foi traçado por Deus, mas quem receberá sobre si o que Deus estabeleceu de bom ou de mau, vai depender da própria pessoa. Segundo Orígenes, os vasos de honra serão aqueles que se purificam a si mesmos, e da mesma forma para com os vasos desonrosos, ou seja, se eles tratam com indiferença suas próprias impurezas e não buscam arrependimento e mudança, ficarão na classe de vasos de ira para a qual Deus preparou as consequências de antemão.


Orígenes, Tratado Sobre os Princípios, p. 233, 235

Àqueles que vêm com a doutrina das naturezas e que aduzem essa frase [a transportam para seu lado] para demonstrar a sua opinião, é preciso dizer o seguinte: se eles mantêm a afirmação de que de uma só massa procedem os perdidos e os salvos, e que há um mesmo autor para os perdidos e os salvos, não há naturezas diferentes nas almas; e se é bom aquele que cria não só os espirituais, mas os terrestres, já que as duas vão juntas, então é o mesmo o Criador de todos. No texto já citado, o Apóstolo não menciona a ação de Deus no caso de se tornar vaso de honra ou de desonra, MAS TUDO NOS ATRIBUI, quando diz: “Se alguém se purificar a si mesmo, será um vaso destinado ao que é digno, santificado e útil para o seu dono, preparado para toda boa obra” (2Tm 2.21).

Orígenes despreza completamente a ideia de uma suposta distinção de classes de seres humanos, como se os pneumáticos fossem eleitos e predestinados ao céu e os hílicos fossem réprobos incapazes de conversão e destinados ao inferno. As exatas palavras de Orígenes são: "O apóstolo não menciona ação de Deus no caso de se tornar vaso de honra ou de desonra, mas TUDO nos ATRIBUI".


Irineu, Contra as Heresias, IV.29.1, p. 461, 462

Eles [os gnósticos] objetam: Deus endureceu o coração do faraó e dos seus ministros. Por que os que fazem esta acusação não leem o trecho do Evangelho em que os discípulos perguntam ao Senhor: “Por que lhes falas em parábolas?” e a resposta do Senhor: “Porque a vós foi dado conhecer os mistérios do reino dos céus; mas a eles falo em parábolas para que olhando não vejam e ouvindo não entendam, para que se cumpra neles a profecia de Isaías que diz: Endurece o coração deste povo, fecha-lhe os ouvidos, e torna-lhes cegos os olhos. Quanto a vós, felizes os vossos olhos que veem o que vedes e os vossos ouvidos que ouvem o que ouvis”.
É UM SÓ E MESMO SENHOR que torna cegos OS QUE NÃO CREEM NELE E O NEGAM — como o sol, sua criatura, o faz com os que, por alguma doença dos olhos, não podem ver a sua luz — ao passo que AOS QUE CREEM NELE E OSEGUEM dá uma iluminação da inteligência mais plena e maior. Da mesma forma fala também o Apóstolo na segunda carta aos Coríntios: “...cegou as mentes DOS INFIÉIS para que não resplandeça neles a luz do Evangelho de glória do Cristo”. E, novamente, na carta aos Romanos, diz: “Como NÃO SE ESFORÇARAM por conhecer Deus, Deus os abandonou à sua inteligência pervertida para fazer o que não é conveniente”. Na segunda carta aos Tessalonicenses, ele fala abertamente, dizendo do Anticristo: “Eis por que Deus lhes enviou uma Potência de desviação para que acreditem na mentira e sejam condenados TODOS OS QUE NÃO ACREDITARAM NA VERDADE E CONSENTIRAM NA INIQUIDADE”.

Tenha em mente que os gnósticos acreditavam que o Deus dos hebreus, o Deus do Antigo Testamento, não era o mesmo Deus apresentado ao mundo através de Cristo, o Deus da Nova Aliança. Na concepção gnóstica, os predestinados à ruína e destruição, eram todos filhos deste “deus mau”, chamado por eles de Demiurgo. Para os seres humanos desta classe, seria simplesmente impossível que fossem salvos, pois eram considerados seres humanos constituídos por uma “substância inconversível”. Neste sentido, segundo a linha de raciocínio gnóstica, “faraó estava predestinado à destruição, por ser filho do Demiurgo, e, exatamente por isso, tinha o coração endurecido, pois lhe seria impossível aceitar ou entender as coisas do Deus verdadeiro”. Quando Irineu menciona que os gnósticos diziam que “Deus endureceu o coração de faraó”, ele se refere às concepções gnósticas do que isso significava na interpretação deles, ou seja, “que esta seria uma prova de que havia dois deuses diferentes e que o deus mau do Antigo Testamento fazia isso com seus filhos, mas o Deus bom e verdadeiro do Novo Testamento, não agia assim, e o objetivo do Deus verdadeiro seria salvar os que poderiam ser salvos”, ou seja, os que tinham a semente de Sofia, pois estes eram os eleitos.

É exatamente em razão do que foi explicado no parágrafo anterior que Irineu, ao responder, demonstra que não havia “dois deus diferentes”, com “atitudes, propósitos e ações diferentes”. Por isso ele faz a seguinte pergunta retórica: “Os que fazem esta acusação não leem o trecho do Evangelho onde o Senhor disse que falava em parábolas para que olhando não vejam e ouvindo não entendam, para que se cumpra neles a profecia de Isaías que diz: Endurece o coração deste povo, fecha-lhe os ouvidos, e torna-lhes cegos os olhos?”. Irineu está dizendo o seguinte: “os gnósticos não perceberam que o Deus que endureceu o coração de faraó, é o mesmo Deus de quem Jesus fala que endurece o coração deste povo que lhe ouvia de mau grado?” [1].

Não havia dois deuses, era um só e o mesmo Deus, que endureceu o coração de faraó e que endurecia os ouvintes contemporâneos de Cristo. Por isso Irineu acrescenta: “É um só e mesmo Senhor que torna cegos os que não creem nele e o negam”. Um só e o mesmo! Ele endurecia antes e endurece hoje.

Tendo dito isso, Irineu já passa a explicar por que e como Deus faz isso. Afinal, cabe a pergunta: Com base em que critérios Deus endureceria alguém? Ou, quem sabe, pelo fato de ele ser Deus ele simplesmente pode sair endurecendo o povo sem critério algum, apenas por que pode e deu vontade?

Se Irineu defendesse a ideia de um Deus regente de um sistema totalitário, uma espécie de déspota que manda e desmanda sem qualquer critério lógico, o próprio Irineu estaria se contradizendo em toda sua vasta defensa ao livre arbítrio humano exposta no mesmo livro Contra as Heresias, que, diga-se de passagem, fora escrito com o exato objetivo de refutar o predestinismo gnóstico e suas loucas mistificações. Afinal, como poderia Irineu ter dito em dezenas de lugares do mesmo livro que o homem se prejudica a si mesmo por meio de más escolhas e depois dizer que os pecados e rebeldias humanas seriam consequências de um endurecimento espiritual imposto por Deus previamente? Simplesmente não faria sentido.

Como já havia feito em diversos outros lugares do mesmo livro, como vimos na citação acima, Irineu explica da forma mais simples possível que, “um só e mesmo Senhor torna cegos OS QUE NÃO CREEM NELE E O NEGAM, ao passo que AOS QUE CREEM NELE E O SEGUEM dá uma iluminação da inteligência mais plena e maior”. Não há qualquer defesa nos textos de Irineu de um Deus duas caras, de caráter duvidoso, que em público se apresenta como bom e justo, mas que, por debaixo dos panos, toma providências para que o contrário daquilo que falou aconteça.

Deus é o mesmo e de um só caráter para com todos. Ele é bom e justo ao mesmo tempo e interage com cada um de acordo com as suas obras. Aos que não creem e o negam, ele endurece e aos que creem e o seguem, ele ilumina. Irineu então usa o sol como ilustração para o seu ensinamento: “como o sol que ilumina os caminhos daquele que vê e ao mesmo tempo dificulta a visão daqueles que por alguma doença dos olhos, não podem ver a sua luz”. O que Irineu quer dizer com isso é que o mesmo sol, com as mesmas propriedades e características, sem qualquer alteração em sua essência, causa experiências diferentes em pessoas em situações e condições diferentes.

Quando Orígenes se propõe a refutar as especulações gnósticas em seu livro Tratado Sobre os Princípios, ao comentar as interpretações predestinistas dos gnósticos sobre o endurecimento do coração de Faraó citado em Romanos 9, ele também usa o sol como exemplo de uma mesma fonte que tanto seca algumas substâncias, enquanto, ao mesmo tempo, liquefaz outras [2]. O sol pode ter efeitos opostos em diferentes materiais, como derreter a cera e endurecer a argila. Essa analogia ilustra como uma mesma fonte pode produzir resultados diferentes dependendo da natureza do que é exposto a ela. Neste quesito, tanto Irineu quanto Orígenes, argumentam que em seus relacionamentos com Deus, os homens tanto podem ser endurecidos, quanto podem ser agraciados com a sua misericórdia. Tudo dependerá da atitude do coração do homem para com Deus.

É seguindo o raciocínio apresentado acima que Irineu argumenta que alguns homens, como faraó, recebem a punição merecida pelos seus erros. Irineu diz que é por isso que está escrito na segunda carta aos Coríntios que "Deus cegou as mentes dos infiéis", observe o ponto pensado por Irineu: "Deus cega sim, Deus endurece sim, mas somente aquele que primeiro tiver sido infiel". Deus cegou os infiéis. Depois disso, corroborando seu argumento, Irineu continua seguindo o mesmo raciocínio ao dizer: "E, novamente, na carta aos Romanos, diz: “Como NÃO SE ESFORÇARAM por conhecer Deus, Deus os abandonou à sua inteligência pervertida para fazer o que não é conveniente”. Segundo Irineu de Lyon, a quem Deus pune dessa forma? A resposta está no texto: "Aqueles que tem uma inteligência pervertida, que não fazem qualquer esforço para conhecer a Deus". Por fim, Irineu ainda complementa seus argumentos mencionando o castigo de Deus enviado aos pecadores por meio da pessoa do Anticristo: “por este motivo, pois, que Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira, A FIM DE SEREM JULGADOS todos quantos NÃO DERAM CRÉDITO À VERDADE; antes, pelo contrário, deleitaram-se com a injustiça” (2ª Tessalonicenses 2.11,12).

Sim, Deus pune aos que merecem! Trata-se de uma retribuição e não de uma iniciativa divina em “endurecer” alguém por causa de algum motivo sombrio e misterioso, que seria simplesmente injustificável.


[1] - Mateus 13.15 - “Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os ouvidos e fecharam os olhos; para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados”.

[2] - Tratado Sobre os Princípios, 3º Livro 1.11, p. 217


Irineu, Contra as Heresias, IV.29.2, p. 462

Se, portanto, Deus, que é conhecedor de todo o futuro, abandona, agora, na SUA INCREDULIDADE todos os que sabe que não acreditarão e desvia o seu rosto de homens desta espécie, abandonando-os às trevas QUE ELES MESMOS ESCOLHERAM, o que há de se admirar se, naquele tempo, abandonou à sua incredulidade os que nunca teriam crido, o faraó e todos os que estavam com ele? Com efeito, o Verbo diz assim a Moisés, falando de dentro da sarça: “EU SEI que o faraó, rei do Egito, não os deixará ir embora, se não for por meio de mão poderosa”. E como o Senhor falava em parábolas provocando a cegueira de Israel, para que olhando não vissem, porque conhecia a sua incredulidade, DA MESMA FORMA endurecia o coração do faraó.

Se havia um momento para Irineu corrigir os gnósticos e explicar em que tipo de “predestinação a Igreja Cristã acreditava”, o momento seria esse. No entanto, em vez de continuar o texto com argumentos de decretos e determinações arbitrárias, Irineu fala de “presciência”. Irineu disse que Deus "abandonou", ele não criou seres maus, ele apenas os abandonou. E por que Deus faria isso? Por causa da PRÓPRIA INCREDULIDADE DELES. Deus apenas os abandonou às trevas que ELES MESMOS ESCOLHERAM! É desta forma que Irineu, escrevendo contra as interpretações dos gnósticos sobre Romanos 9, trata sobre o endurecimento do coração de Faraó ou de qualquer outro que, por si mesmo, escolha as trevas e não a luz, que insista na incredulidade e não na fé.

Deus, por ser conhecedor do que nós chamamos de futuro, soube quais incrédulos não se converteram, e, segundo Irineu, Deus os deixou em sua própria incredulidade, ou seja, “nas trevas que eles mesmos escolheram para si”.


Gregório de Nissa, A Alma e a Ressurreição, Capítulo IV: A Purificação, obra de Deus que atrai a Alma

Uma vez que O MAL NÃO PODE, por natureza, EXISTIR FORA DO LIVRE-ARBÍTRIO, quando o livre-arbítrio se encontra em Deus, o mal irá ao encontro da total destruição porque não lhe resta mais nenhum receptáculo.” [...] As naturezas racionais nasceram para que a riqueza dos bens divinos não seja estéril: os receptáculos das almas foram fabricados pela sabedoria que formou o universo COMO VASOS DOTADOS DE LIVRE-ARBÍTRIO, para ser uma espécie de espaço capaz de receber os bens e que aumentasse constantemente com o acréscimo do que nele é vertido.

Embora Gregório não diga explicitamente que usou o conceito de "vasos" da citação acima extraindo sua ideia do texto de Romanos 9, vemos que como Orígenes ele também relaciona o conceito de vasos ao livre-arbítrio humano, afirmando que, se assim o indivíduo quiser, poderá "receber a riqueza dos bens divinos, pois, sua alma fora criada por Deus como um vaso capaz de receber estes bens".


1ª Clemente 51.1,3-5

1 Portanto, peçamos que nos sejam perdoadas as faltas e ações inspiradas pelo adversário. Os que foram chefes da revolta e da divisão devem considerar o que nos é comum na esperança. 3 É melhor para o homem confessar suas faltas DO QUE ENDURECER O CORAÇÃO, assim como se endureceu o coração dos que se revoltaram contra Moisés, o servidor de Deus. A condenação deles foi evidente, 4 “pois desceram vivos para o Hades”, e “a morte os apascentará.” 5 O faraó, seu exército e todos os chefes do Egito, com os carros e aqueles que os montavam, afundaram no mar Vermelho e pereceramSEUS CORAÇÕES insensatos SE ENDURECERAM, depois dos sinais e prodígios que Moisés, o servidor de Deus, tinha realizado no Egito.

Observe que Clemente de Roma trata sobre o endurecimento do coração de Faraó e dos que com ele estavam, como o resultado de obsessão dos indivíduos que não se deixam admoestar e não se arrependem. Clemente usa o acontecimento como exemplo para dizer aos irmãos de Corinto que eles devem se arrepender e confessar seus pecados em vez de endurecer seus corações. Nos dois exemplos citados por Clemente a insensatez levou as pessoas a endurecer seus corações, tanto o povo que se revoltou contra Moisés, quanto Faraó, seu exército e os chefes do Egito.

Se Clemente entendesse que Paulo estaria ensinando em Romanos 9 que a dureza do coração humano é consequência de um decreto divino, ele não teria dito o que lemos acima, sabendo que a interpretação de Paulo seria outra completamente diferente. A única razão porque Clemente sugeriu a interpretação acima, de que o endurecimento do coração é pessoal e auto infligido, é porque ele sabia que o sentido do texto de Paulo a respeito do coração de Faraó era exatamente o mesmo.



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Atualizado em 27/03/2026