Filipenses 2.13 porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.
Algumas pessoas são ignorantes quanto ao fato de que foram os gnósticos, com sua interpretação determinista da vida, que, pela primeira vez, interpretaram esse texto exatamente como os calvinistas fazem hoje. No livro de Orígenes intitulado “Tratado sobre os Princípios” e mais especialmente no Livro 3, no capítulo específico sobre o Livre-Arbítrio, ele se dedicou a refutar metodicamente os principais pressupostos das heresias e erros encontrados entre os gnósticos Basílides, Valentino e Marcião.
Os gnósticos usavam o texto para dizer que “não temos livre-arbítrio”. Também diziam que os “eleitos” ou “pneumáticos” estavam debaixo de uma espécie de “controle divino”, e que tudo em suas vidas era sobrenaturalmente gerenciado por Deus, inclusive seus pensamentos e ações. Segundo Orígenes, os gnósticos queriam dizer que “até nisso não temos autonomia”. Sua refutação às ideias deles demonstrou que Paulo estava simplesmente dizendo que “tudo que temos na vida vem de Deus”, incluindo nossa capacidade de pensar, sentir e agir, e que Paulo não estava querendo insinuar de modo algum que a forma como usamos estas dádivas divinas seriam controladas milimetricamente por Deus.
Orígenes, Tratado Sobre os Princípios, III.1.20, p. 229, 230
Em seguida vem: “O querer e o agir vêm de Deus”. Dizem alguns: “Se o querer vem de Deus, e o agir vem de Deus, mesmo que desejemos o mal, e se agimos mal, isso vem de Deus para nós, e, se é assim, NÃO SOMOS SENHORES DE NÓS MESMOS. De igual modo, quando queremos os melhores bens e quando agimos bem, não somos nós que executamos essas ações louváveis, mas como é de Deus que vem o querer e o agir, embora pareça que nós o fazíamos, foi Deus quem nos concedeu o fazê-lo: assim, ATÉ NISSO NÃO TEMOS AUTONOMIA”.
A isso é preciso dizer que a palavra do Apóstolo não diz que o querer mal vem de Deus e que o querer bem vem de Deus, e também não diz para fazer o bem ou o mal, mas ele fala sobre “o querer” em geral ou “o agir” em geral. Tal como é de Deus que temos a nossa natureza de seres vivos e de homens, assim também o querer em geral, como acabei de dizer, e o fato genérico de agir, ou, se mover. Porque somos vivos, temos a faculdade de nos mover, e, por exemplo, de agitar tais membros, mãos ou pés; não está aí uma razão para dizer que temos de Deus o caráter específico das nossas ações, por exemplo, de agitar um membro para bater, para matar ou para roubar os bens alheios; trata-se somente do seu caráter genérico de nos mover, que recebemos de Deus; nós é que utilizamos essa faculdade para o pior ou para o melhor. Assim, nós recebemos de Deus o agir como seres vivos, e do Criador o querer, mas somos nós que nos servimos do querer, e de modo semelhante do agir, para o melhor e para o pior.
A explicação acima, feita por Orígenes, por mais simples que seja, ainda pode parecer difícil de ser compreendida por quem tem a mente obscurecida pelo doutrinamento determinista. O que Orígenes explicou é basicamente a mesma coisa que Paulo disse em outro lugar: “Deus dá a todos a vida, a respiração e tudo mais” (Atos 17.25). O fato de a vida de um bandido vir de Deus, não significa que o que ele faz com ela foi determinado por Deus. Ao tratar com os irmãos de Flipos, Paulo pede-lhes que “sejam obedientes” para que façam a parte que lhes cabe no “desenvolvimento da sua salvação”. Se Paulo tivesse tido a intenção de dar a este versículo o sentido que normalmente é referido pelos deterministas, ele não teria se expressado da forma que fez no versículo anterior! Parafraseando, é como se Paulo estivesse simplesmente dizendo:
“Meus amados, vocês sempre foram obedientes quando estive com vocês pessoalmente, então que agora, na minha ausência, vocês continuem fazendo o que deve ser feito, desenvolvam a salvação de vocês, pois Deus nos concede a capacidade para isso. Afinal, a força da vontade e as próprias realizações são todas dádivas divinas!” (Filipenses 2.12,13, parafraseado)
A interpretação gnóstica desse versículo também foi combatida na Homilia 11, Capítulo 8, do texto atribuído a Clemente de Roma.
The Ante-Nicene Fathers, The Clementine Homilies, Homily XI, Chap. VIII. — Liberty and Necessity, p. 286
Mas, você diz, “Primeiramente Deus deveria nos ter feito de forma a que não pensássemos em todas estas coisas”. Você que diz isso, não sabe o que é o livre-arbítrio, e como é possível ser realmente bom, porque aquele que faz o bem por sua própria escolha é bom, de fato. Mas o que faz o bem por causa de outro, sob a força de uma imposição superior, então ele não é bom, de fato, porque ele não está sendo o que é por sua própria escolha. Portanto, uma vez que a liberdade de cada um constitui o verdadeiro bem e mostra o verdadeiro mal, Deus planejou que a amizade ou a hostilidade existissem em cada homem de acordo com a ocasião. Contudo, alguém dirá: “Tudo o que pensamos, é Deus que nos faz pensar”. Cale-se! Por que você blasfema ainda mais dizendo uma coisa dessas? Pois se estivéssemos debaixo da influência de Deus em tudo que pensamos, como você diz, isso significaria que Deus é a causa das fornicações, luxúrias, avarezas e todas as blasfêmias. Encerrem essa maledicência, vocês que deveriam bendizer a Deus e render-lhe toda a honra.
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