João 8.43, 44 43 Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. 44 Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.
Por volta do ano 230 d.C. Orígenes escreveu um comentário sobre o Evangelho de João, por muitos considerado como uma das primeiras obras de exegese bíblica. Nessa obra, Orígenes inclui citações de outro comentário sobre o Evangelho de João, escrito certa de sessenta anos antes, por um gnóstico chamado Heracleon, discípulo de Valentino. O comentário gnóstico do Evangelho de João, escrito por Heracleon no ano 170 d.C. foi completamente perdido, restando apenas os 48 fragmentos preservados na obra de Orígenes.
Heracleon usou os versículos acima para confirmar suas interpretações gnósticas das “naturezas perdidas”, aqueles que supostamente eram “constituídos essencialmente de um elemento mau” e por isso estariam “predestinados à destruição”. Os "filhos do diabo" seriam os Hílicos, completamente controlados pelo Demiurgo. Seu argumento era que Jesus estaria dizendo exatamente isso que ele queria, ou seja, que “alguns seres humanos eram filhos do Diabo” e que seriam simplesmente impossível que eles se pudessem compreender o Evangelho ou ser salvos.
Orígenes, em seu comentário sobre o Evangelho de João, combate essa interpretação, citando que Heracleon estava equivocado ao acreditar que “alguns homens poderiam ser filhos do Diabo”, pois, como normalmente se acreditava entre os cristãos antes das invencionices de Agostinho, todos os homens são filhos de Deus e podem ser considerados “filhos do Diabo” por causa de seus comportamentos, não “por nascimento” ou “por natureza”, como se tais homens estivessem numa “categoria especial de seres humanos impossíveis de se converter”.
Irineu também combate a mesma ideia gnóstica com o exato mesmo argumento de Orígenes em sua obra “Contra as Heresias”, da página 513 a 515. Os argumentos de Irineu a respeito dos seres humanos é irretocável, observe:
Irineu, Contra as Heresias, Livro IV.41.2,3
(41,2). Desde que todas as coisas foram feitas por Deus e o diabo se tornou para si e para os outros a causa da apostasia, é justo que a Escritura chame filhos do diabo e anjos do maligno OS QUE SE MANTÉM PARA SEMPRE NA APOSTASIA. A palavra “filho”, como disse alguém antes de nós, pode ser entendida de duas maneiras: primeira, por natureza, porque nasceu como filho; e segunda, por ser adotado ou por conveniência, ainda que continue a diferença entre ser e tornar-se: o primeiro nasceu do outro, o segundo foi feito pelo outro, respectivamente por via natural ou por via de ensinamento; quem foi instruído por outro por meio da palavra é chamado filho de quem o instruiu e este o pai daquele. SEGUNDO A NATUREZA, por assim dizer, SOMOS TODOS FILHOS DE DEUS, porque fomos criados por ele, mas segundo a obediência e o ensinamento nem todos somos filhos de Deus, mas o são somente os que creem nele e fazem a sua vontade. Os que não creem e não fazem a sua vontade são os filhos e os anjos do diabo, enquanto fazem as obras do diabo. Que as coisas sejam assim mesmo, ele o disse em Isaías: “Gerei filhos e os criei, mas eles me desprezaram”. E ele os chama também filhos estrangeiros: “Filhos estrangeiros mentiram a mim”. Com efeito, segundo a natureza eles são seus filhos, mas, SEGUNDO AS OBRAS NÃO O SÃO. (41,3). COMO ENTRE OS HOMENS OS FILHOS REBELDES AOS PAIS E REJEITADOS CONTINUAM FILHOS POR NATUREZA, mas juridicamente são renegados e não são mais os herdeiros dos seus pais naturais, assim se dá com Deus: OS QUE NÃO LHE OBEDECEM SÃO RENEGADOS, deixam de ser filhos e, por isso, perdem o direito à herança, como diz Davi: “Os pecadores são estrangeiros desde o seio materno, para eles uma cólera semelhante à contra a serpente”. Por isso, o Senhor chamou de raça de víboras aos que sabia serem da raça humana, porque, semelhantes a estes animais, se portam tortuosamente e prejudicam os outros [...] Isaías, pregando na Judéia e disputando com Israel, os chamava “Príncipes de Sodoma e povo de Gomorra”, indicando que a sua transgressão era semelhante à dos sodomitas e que cometeram os mesmos pecados que eles, e OS CHAMAVA COM O MESMO NOME POR CAUSA DA MESMA CONDUTA. E que não tivessem sido feitos assim por Deus e que poderiam ser capazes de agir também com justiça é o que o mesmo Isaías lhes dizia, dando-lhes um bom conselho: “Lavai vos, purificai-vos, tirai a malícia dos vossos corações de diante dos meus olhos, parai com as vossas iniquidades”; isto é, cometendo a mesma transgressão e pecado tiveram a mesma repreensão que os sodomitas, mas SE ELES SE CONVERTESSEM, arrependendo-se e cessando sua malícia, poderiam ser filhos de Deus e obter a herança da incorruptibilidade que lhes oferecia. É este o sentido com que o Senhor chamou anjos do diabo e filhos do maligno os que acreditam no diabo e cumprem as suas obras. No princípio todos foram criados pelo único e mesmo Deus e ENQUANTO ACREDITAM E PERMANECEM SUBMISSOS A DEUS e guardam os seus ensinamentos são filhos de Deus, mas quando apostatam e passam a ser transgressores são unidos ao diabo que foi o iniciador e a causa original da apostasia tanto para si como para os outros.
De forma semelhante, em outro de seus livros Orígenes argumenta o seguinte contra Celso: "Na lógica de seus princípios, Celso afirma que é muito difícil mudar radicalmente a natureza. Mas sabemos que as almas racionais todas têm a mesma natureza; sustentamos que nenhuma foi feita má pelo Criador do universo, mas que muitos homens se tornaram maus por causa da educação, da perversão, do seu ambiente humano, que fazem da malícia uma disposição natural em certas pessoas; estamos persuadidos de que não só é possível, mas também de que não é muito difícil ao Logos divino mudar A MALÍCIA QUE SE TORNOU NATURAL; a única condição é admitir que é preciso entregar-se ao Deus supremo e fazer tudo para agradá-lo".
A interpretação gnóstica de que seres humanos já nasceriam predestinados em classes das quais jamais poderiam sair, era considerada um absurdo intragável por todos os cristãos da antiguidade. Ao afirmar tais loucuras, os gnósticos iam contra um dos maiores fundamentos da doutrina cristã: o livre-arbítrio humano!
Tratado Sobre os Princípios, 3.1.8, p. 215
Vamos começar pelo que se diz a respeito do faraó e de Deus que o endurece para impedi-lo de deixar partir o povo; examinaremos ao mesmo tempo esta palavra do Apóstolo: “Terá piedade de quem ele quer e endurecerá quem ele quer” (Rm 9.18). Examinemos o que dizem alguns heterodoxos. Eles se servem desses textos PARA QUASE SUPRIMIR O LIVRE-ARBÍTRIO, argumentando que há naturezas perdidas, INCAPAZES DE SALVAVAÇÃO, e outras que estão salvas E SÃO INCAPAZES DE SE PERDER; dizem eles que o faraó era de uma natureza perdida, e endureceu por causa disso, porque Deus tem piedade dos espirituais [pneumáticos] e endurece os terrestres [hílicos]. Perguntamos se o faraó era de natureza terrestre; quando responderem, lhes diremos que aquele que tem uma natureza terrestre desobedece totalmente a Deus. Se desobedece, que necessidade existe de endurecer o seu coração, e isso não apenas uma, mas várias vezes?
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