Referências do Debate

João 8.42,47

João 8.42, 47 42 Replicou-lhes Jesus: Se Deus fosse, de fato, vosso pai, certamente, me havíeis de amar; porque eu vim de Deus e aqui estou; pois não vim de mim mesmo, mas ele me enviou. 47 Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso, não me dais ouvidos, porque não sois de Deus.

Por volta do ano 230 d.C. Orígenes escreveu um comentário sobre o Evangelho de João, por muitos considerado como uma das primeiras obras de exegese bíblica. Nessa obra, Orígenes inclui citações de outro comentário sobre o Evangelho de João, escrito certa de sessenta anos antes, por um gnóstico chamado Heracleon, discípulo de Valentino. O comentário gnóstico do Evangelho de João, escrito por Heracleon no ano 170 d.C. foi completamente perdido, restando apenas os 48 fragmentos preservados na obra de Orígenes.

Heracleon usou os versículos acima para argumentar em favor das supostas três classes de seres humanos, afirmando que apenas os “eleitos” amariam a Jesus, pois eles seriam “os únicos e verdadeiros filhos de Deus”, e que, somente os “eleitos” seriam capazes de “ouvir as palavras de Deus e realmente acreditar em Jesus”.

No Fragmento 43 da exegese gnóstica feita por Heracleon sobre João 8.37, por exemplo, texto em que Jesus disse “a minha palavra não está em vós”, Heracleon sugeriu que isso poderia ser interpretado de duas formas: “ou sua palavra não estava neles porque eles eram de uma substância incompatível com a palavra de Deus, ou porque eles não estavam dispostos”. Certamente Heracleon sabia que a interpretação cristã convencional ensinava que era preciso haver disposição no coração dos homens para se receber a Palavra de Deus. Porém, para os gnósticos, seria impossível que alguém cuja substância fosse de natureza “Terrena” pudesse ouvir, entender e ser salvo, pois estes não faziam parte da classe dos “Pneumáticos”, cuja substância seria de natureza divina. Apenas os possuidores da “Centelha Divina”, que eram também considerados por eles como os “Eleitos”, eram capazes de “compreender as palavras de Cristo”.

Heracleon segue o mesmo tipo de raciocínio no Fragmento 44 de sua exegese gnóstica. Desta vez, o comentário é sobre João 8.43,44.

43 Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. 44 Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.

A explicação de Heracleon segue a mesma lógica gnóstica das “três classes de naturezas” existentes entre os seres humanos. Os “Pneumáticos” seriam os “Eleitos”, predestinados ao céu, os “Terrenos”, seriam aqueles de substância terrena, incapazes de salvação e predestinados à destruição, e os “Psíquicos” seriam “os crentes da Igreja de Cristo”, que poderiam ou não ser salvos, dependendo do seu comportamento – o que difere totalmente dos “Eleitos”, que serão salvos incondicionalmente, não importando como vivam, o que façam, ou o que deixem de fazer. As palavras de Heracleon sobre o versículo citado acima, são as seguintes:

Heracleon, Fragments from a Commentary on the Gospel of John by Heracleon, Fragment 44 (Framentos de um Comentário do Evangelho de João escrito por Heracleon, Fragemento 44).

O motivo pelo qual eles eram incapazes de ouvir as palavras de Jesus e entender o que ele dizia é fornecido nas palavras: “Vós sois do vosso pai, o Diabo.” Ele diz: “Por que vocês são incapazes de ouvir minha palavra? Porque vocês são do seu pai, o Diabo”, isto significa “vocês são da substância do Diabo”. Desta forma, Jesus deixa bem claro qual era a natureza deles, depois de tê-los convencido antecipadamente de que não eram filhos de Abraão, caso contrário não o teriam odiado, e também não eram filhos de Deus, porque não o amavam.

Observe as categorias distinguidas pelo gnóstico Heracleon:

  1. Filhos de Deus
  2. Filhos de Abraão
  3. Filhos do Diabo

Os “filhos de Deus”, na visão gnóstica mais especialmente valentiniana, como era o caso de Heracleon, discípulo de Valentim, seriam aqueles que tivessem recebido a “Semente da Eleição”, oriunda da “Mãe Sofia”, cuja natureza seria “Pneumática” e divina. Os “Filhos de Abraão”, seriam os “Psíquicos”, crentes em Cristo, grupo formado tanto pelos judeus da comunidade de Israel, como pelos gentios. Os “Filhos do Diabo”, seriam os de natureza “Terrena”, cuja substância era proveniente do Diabo. Estes “Filhos do Diabo”, estavam predestinados à destruição eterna desde seu nascimento, e, na visão gnóstica, seria simplesmente impossível que fossem salvos. Segundo eles, estes “Reprovados” por causa de “sua natureza”, eram impedidos de “ouvir e entender” as palavras de Cristo.

Muitos acadêmicos e eruditos, especialistas em Gnosticismo antigo, debatem sobre as possíveis motivações para o desenvolvimento da sua doutrina determinista. Elaine Pagels, especialista renomada e mundialmente conhecida na área de teologia e interpretações gnósticas, no entanto, acredita que suas principais motivações não eram necessariamente as que são mais comumente debatidas entre os estudiosos, mas, segundo ela, o objetivo gnóstico primordial seria explicar a verdadeira “teologia de Paulo e de João”.

Elaine Pagels, The Johannine Gospel in Gnostic Exegesis: Heracleon’s Commentary on John, p. 100 (O Evangelho de João segundo a Exegese Gnóstica: O Comentário de Heracleon sobre o Evangelho de João)

A questão filosófica do determinismo e do livre-arbítrio não é a questão que motiva o desenvolvimento da antropologia gnóstica. Como sugeriu Quispel, a descrição valentiniana das “naturezas” emerge, em vez disso, de uma teologia da eleição. Mais especificamente, os Valentinianos desenvolveram a sua descrição das “naturezas” hílica, psíquica e pneumática (como eles próprios afirmam) como uma interpretação exegética da teologia da eleição joanina e paulina.

Observe que Pagels comenta que “os próprios gnósticos explicavam que eles tinham desenvolvido suas divisões da humanidade em classes, com base numa interpretação exegética da teologia da eleição percebida no Evangelho de João e nas epístolas de Paulo”.

Senhores, entendam que qualquer semelhança, não é mera coincidência. Para Quispel, citado por Pagels, “o Gnosticismo valentiniano era um tipo de misticismo que colocava sua ênfase nos temas da graça e da eleição”, e que, além disso, “os Valentinianos consideravam o espírito que haviam recebido não como um dom natural, mas como um dom da graça”.

Pagels normalmente demonstra grande simpatia pelas interpretações gnósticas. Em seus livros, pode-se perceber uma tentativa de suavizar o tom determinista que os gnósticos associaram às Escrituras. E como se vê pelos parágrafos acima, suas palavras de defesa do Gnosticismo, curiosamente, soam exatamente iguais às defesas predestinistas dos nossos colegas da comunidade calvinista atual.

Não deveria passar despercebido ao leitor que a tentativa de suavizar essa interpretação louca e determinista seja adotada tanto por Pagels como pelos calvinistas, com termos muito semelhantes. Na tentativa de tornar essa blasfêmia e absurdidade mais palatável, eles usam expressões tais como: “Teologia da Graça e da Eleição”, a suposta verdadeira “Teologia Paulina”, as “Doutrinas da Graça”, a “Eleição na Teologia Joanina”, e outras variações.

Até mesmo nas justificativas baseadas em versículos bíblicos, Pagels, com seu profundo conhecimento do Gnosticismo, sabedora do que diz por sua grande familiaridade com a teologia gnóstica, argumenta com bastante propriedade, da seguinte forma:

Elaine Pagels, The Johannine Gospel in Gnostic Exegesis: Heracleon’s Commentary on John, p. 100,101 (O Evangelho de João segundo a Exegese Gnóstica: O Comentário de Heracleon sobre o Evangelho de João)

Ele [Heracleon] explica que o próprio Pai se comunicou com eles [os eleitos] da mesma forma que fez com o salvador. Referindo-se a João 6.45 (“todo aquele que ouviu do Pai e aprendeu vem a mim”), Heracleon diz que tais pessoas “aprenderam do Pai antes de nascer”. Ele os vê como tendo sido “gerados” do Pai, citando passagens como João 8.42 e 47 (“Se Deus fosse, de fato, vosso pai, certamente, me havíeis de amar”, “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso, não me dais ouvidos, porque não sois de Deus”). Alternativamente, eles podem ser descritos como tendo sido “atraídos” pelo Pai (João 6.44, “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”) e como tendo sido “escolhidos” por ele (João 15.16, “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros”). Estes são os que “pertencem” ao salvador, os que “ouvem as suas palavras” (8.47, “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso, não me dais ouvidos, porque não sois de Deus”, João 10.27, “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem”) e o amam (João 8.42).

O querido leitor seria capaz de acreditar que a utilização dos mesmos versículos, com as exatas mesmas interpretações gnósticas que hoje em dia se faz no Calvinismo, não passa de uma mera e curiosa coincidência?

Na verdade, nem os próprios calvinistas sabem que há tanta semelhança entre as suas interpretações e o que defendiam os gnósticos. Muitos deles não sabem, ou não aceitam, que essa linha de pensamento supostamente cristã teve a sua gênese com os cristãos gnósticos. Muitos entram em estado de negação ao se depararem com a realidade dos fatos, ou, quando muito, se empenham numa campanha de "ressignificação" da história, uma espécie de "releitura" do passado, pela qual se possa criar uma narrativa que faça algum tipo de sentido para eles.

Infelizmente, essas informações parecem ser totalmente desconhecidas da comunidade cristã de forma geral, e muitos, inclusive pregadores e profissionais da palavra, ao se depararem com os registros históricos deste fato, reagem com ceticismo e profunda desconfiança.


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Atualizado em 25/03/2026