Referências do Debate

João 6.44

João 6.44 Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.

Aparentemente usado por diversos gnósticos diferentes, mas mencionado especificamente por Homero, cuja interpretação é combatida por Hipólito de Roma no livro “Refutação de todas as Heresias”, Livro 5, Capítulo 3. Homero usou João 6.44 para dizer que “seria muito difícil aceitar os mistérios de Deus”, e que por isso, “apenas os eleitos por Deus poderiam conhecer tais verdades”, ou seja, “aqueles que o Pai trouxesse até Jesus”. A resposta de Hipólito foi que todos os seres humanos são possuidores de livre-arbítrio e todos têm o poder de aceitar ou rejeitar o Evangelho, pois o homem fora feito “uma criatura dotada de uma capacidade de autodeterminação”, possuindo a “capacidade de querer ou não querer” o que lhe fosse proposto.

Hipólito de Roma, Refutação de Todas as Heresias, Livro V, 3

Esses maravilhosos gnósticos, inventores de uma nova arte gramatical, exaltam Homero como seu profeta – alguém que, segundo os mistérios por eles adotados, anuncia “verdades”. Eles também zombam daqueles que não são doutrinados nas Sagradas Escrituras, traindo-os com as suas interpretações distorcidas. “Estes são”, diz ele, “o que todos chamam de mistérios secretos... E estes são”, diz ele, “os mistérios inefáveis do Espírito, que só nós conhecemos. A respeito destes”, diz ele, “o Salvador declarou: Ninguém pode vir a mim, a menos que meu Pai celestial traga alguém a mim (João 6:44), pois é muito difícil”, diz ele, “aceitar e receber este grande e inefável mistério”.

Como você acha que um livro escrito por volta de 220 d.C. conseguiria retratar a exata mesma interpretação de seguimentos cristãos da atualidade? Coincidência? Sorte? Destino? Além disso, cabe outra pergunta: Quem veio primeiro: o ovo ou a galinha? Todos os que têm um pingo de juízo sabem que a galinha veio primeiro, pois Deus criou os animais e estabeleceu que se reproduzissem cada um segundo sua própria espécie. Da mesma forma, as atuais interpretações calvinistas, seguem a exata mesma essência interpretativa de sua gênese: o predestinismo gnóstico.


Refutação de todas as Heresias, Livro V, 18

Todos esses, entretanto, se autodenominam gnósticos neste sentido peculiar, de que SOMENTE ELES absorveram o maravilhoso conhecimento daquele que é Bom e Perfeito.

Mas o que Hipólito teria a dizer sobre essas loucuras? Será que ele também acreditava que apenas alguns teria essa sorte de ser separados por Deus por uma ação unilateral sua? Será que ele também achava que os homens já vinham pré-selecionados cada um para sua própria categoria? Será que Hipólito também dizia que havia seres humanos que já nasciam em uma classe de eleitos e outros destinados à destruição? Será mesmo que a igreja cristã acreditava nessa loucura de destino imutável a respeito do qual homem nenhum jamais poderia se insurgir? Vejamos.

Refutação de todas as Heresias, Livro X, 29

VISTO QUE O HOMEM TEM LIVRE-ARBÍTRIO, uma lei foi definida pela Divindade para a sua orientação, não sem atender a um bom propósito. Pois se o homem não possuísse o poder de “querer” e de “não querer”, por que deveria ser estabelecida uma lei? Pois não se estabelece lei para um animal desprovido de razão, em vez disso se utiliza um freio e um chicote; ao passo que ao homem foi dado um preceito e uma penalidade a se cumprir, caso o homem não levasse à execução o que foi ordenado. Para o homem assim constituído, leis também foram promulgadas por homens justos nas eras primitivas.

Acho inacreditável que ainda tem gente hoje em dia querendo ser igual um preá, um peru ou um guaxinim. Semelhantes a animais irracionais são estes homens que têm fetiche em serem controlados pelo chicote do destino, sem variações e sem novidades. Que parecem ter medo de assumir o controle da própria vida. Seus desejos se resumem a serem apenas bichos controlados pelo que o "chicote do destino estabelece".


Muitos acadêmicos e eruditos, especialistas em Gnosticismo antigo, debatem sobre as possíveis motivações para o desenvolvimento da sua doutrina determinista. Elaine Pagels, especialista renomada e mundialmente conhecida na área de pesquisas e publicações da teologia gnóstica, acredita que suas principais motivações não eram necessariamente as que são mais comumente debatidas entre os acadêmicos e eruditos, mas, segundo ela, o objetivo gnóstico primordial seria explicar a verdadeira “teologia de Paulo e de João”.

Em 1945 foram achados 13 códices, como eram chamados os antigos livros antes da era da Imprensa, que haviam sido escritos pelos próprios gnósticos. Tal descoberta denominou-se como a “Biblioteca de Nag Hammadi”. Os papiros, embrulhados em couro, foram encontrados na região do Alto Egito, perto da cidade de Nag Hammadi. Há pelo menos três principais fontes gnósticas valentinianas relacionadas ao Evangelho de João, encontradas na Biblioteca de Nag Hammadi. Ao todo foram encontrados treze livros puramente gnósticos nesta pequena coleção. Elaine Pagels, especialista renomada e mundialmente conhecida, a partir desta descoberta, publicou “O Evangelho de João na Exegese Gnóstica” em 1973, “O Paulo Gnóstico, Uma Exegese Gnóstica das Epístolas de Paulo” em 1975, e “Os Evangelhos Gnósticos” em 1979. Na obra relacionada ao Evangelho de João, Pagels faz inúmeras citações do texto de um gnóstico combatido por Orígenes conhecido pelo nome de Heracleon. O objetivo de Pagels é demonstrar como deveria ser feita uma verdadeira exegese do Evangelho de João, segundo a perspectiva gnóstica. Entre as muitas coisas, que ela fala, também diz o seguinte:

Elaine Pagels, The Johannine Gospel in Gnostic Exegesis: Heracleon’s Commentary on John, p. 100 (O Evangelho de João segundo a Exegese Gnóstica: O Comentário de Heracleon sobre o Evangelho de João)

A questão filosófica do determinismo e do livre-arbítrio não é a questão que motiva o desenvolvimento da antropologia gnóstica. Como sugeriu Quispel, a descrição valentiniana das “naturezas” emerge, em vez disso, de uma teologia da eleição. Mais especificamente, os Valentinianos desenvolveram a sua descrição das “naturezas” hílica, psíquica e pneumática (como eles próprios afirmam) como uma interpretação exegética da teologia da eleição joanina e paulina.

Observe que Pagels comenta que “os próprios gnósticos explicavam que eles tinham desenvolvido suas divisões da humanidade em classes, com base numa interpretação exegética da teologia da eleição percebida no Evangelho de João e nas epístolas de Paulo”. Senhores, entendam que qualquer semelhança, não é mera coincidência. É exatamente por isso que se diz que "não conhecer nosso passado nos torna vulneráreis a repeti-lo em nosso futuro".

Não deveria passar despercebido ao leitor que a tentativa de suavizar essa interpretação louca e determinista seja adotada tanto por Pagels como pelos calvinistas, com termos muito semelhantes. Na tentativa de tornar essa blasfêmia e absurdidade mais palatável, eles usam expressões tais como: “Teologia da Graça e da Eleição”, a suposta verdadeira “Teologia Paulina”, as “Doutrinas da Graça”, a “Eleição na Teologia Joanina”, e outras variações. Trata-se apenas de uma nova embalagem para o mesmo veneno antigo: A suposta divisão dos seres humanos em castas pré-selecionadas por uma força superior.

Observe a defesa de Pagels a respeito das interpretações gnósticas quanto ao conteúdo das inúmeras passagens do Evangelho de João, que, diga-se de passagem, são exatamente as mesmas feitas até hoje na comunidade calvinista:

Elaine Pagels, The Johannine Gospel in Gnostic Exegesis: Heracleon’s Commentary on John, p. 100,101 (O Evangelho de João segundo a Exegese Gnóstica: O Comentário de Heracleon sobre o Evangelho de João)

Ele [Heracleon] explica que o próprio Pai se comunicou com eles [os eleitos] da mesma forma que fez com o salvador. Referindo-se a João 6.45 (“todo aquele que ouviu do Pai e aprendeu vem a mim”), Heracleon diz que tais pessoas “aprenderam do Pai antes de nascer”. Ele os vê como tendo sido “gerados” do Pai, citando passagens como João 8.42 e 47 (“Se Deus fosse, de fato, vosso pai, certamente, me havíeis de amar”, “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso, não me dais ouvidos, porque não sois de Deus”). Alternativamente, eles podem ser descritos como tendo sido “atraídos” pelo Pai (João 6.44, “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”) e como tendo sido “escolhidos” por ele (João 15.16, “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros”). Estes são os que “pertencem” ao salvador, os que “ouvem as suas palavras” (8.47, “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso, não me dais ouvidos, porque não sois de Deus”, João 10.27, “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem”) e o amam (João 8.42).



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Atualizado em 27/03/2026