Efésios 2.1-9 1 Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, 2 nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; 3 entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. 4 Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, 5 e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos, 6 e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; 7 para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. 8 Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; 9 não de obras, para que ninguém se glorie.
GNÓSTICOS MUDARAM O SENTIDO DE EFÉSIOS 2.1-9
No livro As Origens Gnósticas do Calvinismo falamos sobre algumas das interpretações gnósticas de diversos textos bíblicos, inclusive Efésios capítulo dois. A razão dos integrantes da seita gnóstica citarem as Escrituras se deve ao fato de que a maioria esmagadora dos gnósticos considerava-se essencialmente cristã. Mesmo com diversificações entre os inúmeros grupos gnósticos existentes em relação a alguns detalhes aqui ou ali, ainda assim, todos consideravam-se cristãos, e como tais, também tinham suas próprias interpretações a respeito dos textos que circulavam nas comunidades cristãs daquela época.
Os gnósticos, por exemplo, foram os primeiros a usar o início do capítulo dois da carta de Paulo aos efésios, na tentativa de justificar uma suposta “incapacidade humana” de reconhecer os atributos de Deus por meio das coisas criadas desde o princípio do mundo, e, com base no mesmo texto, seguindo a mesma linha de raciocínio, também alegavam que Deus precisaria “infundir a fé no coração do homem”, de forma unilateral, sem qualquer participação humana, pois, segundo interpretavam, o “homem estaria morto por causa da sua natureza”, e somente Deus poderia decidir “se” e “quando” lhe concederia vida.
O primeiro texto “cristão” do qual se tem conhecimento, no qual se advogou a ideia de que a fé seria um “dom de Deus”, em vez de uma resposta humana, foi escrito por um gnóstico chamado Basílides, que foi refutado a respeito deste mesmo assunto por Clemente de Alexandria, no seu livro chamado “Stromata”, que em português seria algo como “Miscelâneas”. Confira abaixo:
Clemente de Alexandria, Stromata (Miscelâneas), Livro V, 1
Se alguém por sua própria natureza conhece a Deus, como pensa Basílides, que chama a fé de uma inteligência de ordem superior... e diz que A FÉ NÃO É A ACEITAÇÃO RACIONAL DA ALMA EXERCENDO O LIVRE-ARBÍTRIO, mas uma espécie de beleza indefinida QUE PASSA A PERTENCER À CRIATURA DE FORMA IDEDIATA – significa que os preceitos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento são todos supérfluos, se, de fato, alguém será salvo por sua natureza [pneumática], como Valentino costuma dizer, e se tal pessoa SERÁ UM CRENTE E ELEITO por tal natureza [pneumática], como Basílides pensa.
No texto acima, vemos o nome de dois gnósticos famosos, Valentino e Basílides, que entre outras coisas, defendiam que a salvação e a fé eram direitos apenas dos pneumáticos, uma espécie de classe de seres humanos privilegiada. Um grupo especial predestinado às coisas superiores, chamados por eles de "eleitos".
Para que se possa entender um pouco do que foi tratado no texto acima, precisamos dizer pelo menos o seguinte: os gnósticos enfatizavam a existência de três elementos presentes no Cosmos: o “Hílico”, ou material e terreno; o “Psíquico” ou natural; e o “Pneumático” ou espiritual. Eles diziam que, a partir destes elementos, a humanidade havia sido dividida em três classes de seres humanos – Os “Pneumáticos”, os “Psíquicos” e os “Terrenos”.
Os “Terrenos” eram considerados pelo gnósticos como indivíduos que seriam constituídos, em sua natureza, daquilo que era o elemento mais vil do universo. Por causa destas propriedades da sua natureza, que supostamente teria sido estabelecida por ordenamentos cósmicos alheios à sua vontade, todos os “Terrenos” estariam predestinados à destruição. Não haveria qualquer chance de salvação para eles, absolutamente – eles já estariam reprovados antes mesmo de nascer. Sequer poderiam ter a chance de se arrependerem e se converterem, pois, no predestinismo cristão dos gnósticos, eles seriam constituídos de um "elemento inconversível", tornando simplesmente impossível qualquer chance de conversão de seres humanos pertencentes a esta classe.
Os “Pneumáticos”, por sua vez, seriam aqueles que estariam numa posição diametralmente oposta à dos “Terrenos”. Os gnósticos acreditavam que os homens desta classe haviam recebido uma “semente de eleição” que os tornava “predestinados” à glória de Deus até mesmo antes do nascimento. Segundo o pensamento gnóstico, apenas estes seriam indubitavelmente salvos, sem possibilidade disso não acontecer. Além de salvos, por causa das propriedades da sua “natureza”, por serem possuidores da “Centelha Divina”, os Pneumáticos, também chamados por eles de "eleitos", jamais poderiam perder esta salvação, mesmo se porventura vivessem uma vida desregrada de pecados até o dia da sua morte.
No texto de Clemente de Alexandria que vimos acima, ele refutava algumas destas interpretações gnósticas que, na ocasião, estavam sendo feitas com base no texto de Efésios 2.1-9. Os cristãos gnósticos negavam a existência do livre-arbítrio, que era defendido massivamente por todos os cristãos da época, e, além disso, diziam que toda a humanidade estaria completamente depravada, presa neste mundo material controlado por um “deus menor e cheio de imperfeições”, e que, para serem salvos, apenas os “eleitos receberiam a fé como um dom instantâneo, divinamente concedido”.
Como se pode ver pela refutação de Clemente, a ideia de predestinação fantasiosamente articulada pelos gnósticos era considerada absurda e sem sentido pelos cristãos e teólogos da Igreja. Não apenas por causa das fábulas e mitos por eles criados, como também pela negação de que Deus havia feito “toda a raça humana a partir de um só homem, para buscarem a Deus”, sem distinções, classes ou acepções, e também pelo fato de os gnósticos desconsiderarem a realidade bíblica do livre-arbítrio.
No livro VI das suas "Miscelâneas", capítulo 11, Clemente de Alexandria diz que os gnósticos hereges erram, pois, "Primeiro, que eles tropeçam em relação à MAIS ELEVADA DAS COISAS — a saber, O LIVRE ARBÍTRIO DA MENTE". Clemente não é o único que defendeu a majestade e a importância do livre-arbítrio ensinado nas Escrituras, e mais especialmente no Cristianismo ortodoxo, mas, observe que ele parece acreditar que um dos principais erros dos gnósticos era ignorar uma das coisas mais sublimes de todas: O livre-arbítrio humano!
Com isso, a afirmação de Clemente feita mais acima, resume muito bem a tradição cristã defendida pelos primeiros pais da Igreja: “a fé é a aceitação racional da alma exercendo o livre-arbítrio”.
Todos os textos deixados pelos primeiros autores e teólogos da igreja defenderam essencialmente as mesmas coisas, tais como:
- A imagem de Deus presente no homem, mesmo depois da queda.
- A capacidade humana, divinamente concedida, para escolher livremente entre o bem e o mal.
- A possibilidade de salvação de todos os homens, sem qualquer conceito de classes, castas ou predestinação impeditiva de pessoas.
Até o quinto século, quando Agostinho finalmente mudará o rumo da interpretação ortodoxa, todos quantos escreveram antes dele seguiram os mesmos princípios e o mesmo fundamento doutrinário quanto aos pontos vistos acima.
Embora as doutrinas dos cristãos gnósticos tenham sido combatidas por diversos pensadores e escritores cristãos, os gnósticos insistiam em usar textos canônicos específicos para justificar suas interpretações deterministas.
De acordo com o registro histórico e segundo as explanações de especialistas da área, sabemos que os gnósticos tinham predileção pelo Evangelho de João, bem como pelos textos deixados principalmente por Paulo, tais como Efésios 2.1-9, Filipenses 2.13, e alguns dos versículos de Romanos 9, entre outros. Os gnósticos de viés maniqueísta, por exemplo, costumavam citar João 6.65 e João 14.6 como “textos que comprovavam” a ideia de uma “eleição divina incondicional” contra a interpretação cristã da época, que se baseava na livre escolha humana.
Esse confronto aberto, entre o conceito cristão da liberdade humana divinamente concedida e o conceito gnóstico de intervenção divina unilateral para o estabelecimento de destinos eternos individuais, permaneceu até por volta do quinto século, quando Agostinho, que havia sido gnóstico por 10 anos, depois de convertido ao Cristianismo, passou a utilizar argumentos e interpretações gnósticas por meio da terminologia cristã tradicional no final da sua vida. A partir de então, perdeu-se a distinção clara entre o pensamento da Igreja Primitiva que defendia incondicionalmente o livre-arbítrio humano e o predestinismo cristão dos gnósticos. Inclusive, pela influência de Agostinho na administração dos negócios da Igreja, passou-se até mesmo a considerar como heresia o pensamento cristão ortodoxo antetior.
FORTUNATO, O MANIQUEU
Como vimos, o gnóstico Basílides foi um dos primeiros a usar o texto de Efésios 2 para sugerir uma interpretação fatalista e determinista, destoando da interpretação cristã tradicional. Além dele, sabemos que o gnóstico maniqueísta Fortunato, conhecido de Agostinho, também fazia interpretações semelhantes do texto de Efésios. No livro de Agostinho conhecido resumidamente como "Contra Fortunato", no capítulo 16, relata-se Fortunato citando longamente Efésios 2 durante o debate, e neste momento, Fortunato procura enfatizar temas como morte espiritual nos pecados (Ef 2:1-3), salvação pela graça (Ef 2:8-9) e a reconciliação (Ef 2:14-18). Seguindo a linha maniqueísta, seus argumentos defendiam que certas almas sofrem por causa de uma natureza adversa supostamente misturada à sua essência, e que algumas das almas seriam pertencentes a uma espécie de "raça das trevas", incriadas e tão eternas quanto Deus. Sua fala reflete conceitos de predestinismo advindos do gnosticismo maniqueísta. Segundo Agostinho, no capítulo 15, Fortunato havia dito o seguinte:
Contra Fortunato, 15: "Não há uma única substância, embora da mesma ordem do Uno elas tenham vindo à composição e formação deste mundo. Mas é evidente nas próprias coisas que não há semelhança entre trevas e luz, verdade e falsidade, morte e vida, alma e corpo, e outras coisas semelhantes que diferem umas das outras tanto nos nomes quanto nas aparências. E com boa razão disse nosso Senhor: "A árvore que meu Pai celestial não plantou será desarraigada e lançada ao fogo, porque não produz bom fruto:" e que a árvore foi desarraigada. Daí, verdadeiramente, se segue da razão das coisas que há duas substâncias neste mundo que concordam em formas e nomes, das quais uma pertence às naturezas corpóreas, mas a outra é a substância eterna do Pai omnipotente, que cremos ser a substância de Deus".
Fortunato refletia sobre o dualismo ontológico das duas supostas substâncias eternas: luz e verdade divinas versus trevas e o mundo material. Assim também, algumas almas seriam boas e dignas de Deus e outras almas más e pertencentes ao reino das trevas. Inclusive, como era costume dos gnósticos, ele cita Mateus 15.13 adaptando-o para enfatizar a separação radical entre uma coisa e outra. As almas que não foram plantadas pelo Pai celestial, seriam aquelas que não poderiam ser resgatadas.
Citando parcialmente a ressurreição da morte espiritual mencionada por Paulo em efésios 2, Fortunato também diz o seguinte:
Este é o meu ponto, que Deus quis impedir isso, não de forma imprudente, mas por poder e presciência. Mas negue que o mal esteja separado de Deus, quando outros preceitos podem ser mostrados que são feitos à parte de sua vontade. Um preceito não é introduzido, a menos que haja contrariedade. A faculdade livre de ter vida não seria dada, exceto onde há uma queda [e consequente morte], de acordo com o argumento do apóstolo que diz: "E vos deu vida, quando estáveis mortos em vossas transgressões e pecados..." (Contra Fortunato, 16)
Fortunato estava defendendo que algumas almas, como partículas do reino da luz, partículas de Deus, haviam caído neste mundo e estariam presas numa condição contrária ao seu reino natural, e que, por isso, necessitavam receber vida, para que somente assim, pudessem retornar à "cidade da luz", a "cidade de Deus" no reino superior.
Agostinho rebate interpretando o texto efésios corretamente como a evidência do livre-arbítrio pecaminoso humano, e não como a defesa de uma suposta queda essencial de um reino para outro ou como a descrição de uma suposta "raça de trevas" perdida e morta. Na época, Agostinho também acreditava que Paulo estava ensinando que "estávamos mortos por causa da prática dos delitos e dos pecados" mencionados no texto e não por causa de uma condição espiritualmente herdada. Além disso, Agostinho ainda acrescenta que o texto de efésios 4.18 ensina que a morte é uma consequência "do estilo de vida do pecador" e não necessariamente de um estado essencial proveniente de algum tipo específico de natureza. Agostinho falou: “Digo que não é pecado, se não for cometido pela própria vontade da pessoa; por esta razão também existe a recompensa, porque pela nossa própria vontade faremos aquilo que é certo”. A ênfase da importância da vontade, na resposta de Agostinho, vai contra as insinuações gnósticas de que cada alma estaria numa classe própria a despeito da sua vontade, como se cada alma possuísse um destino próprio devido à sua natureza e à sua própria substância essencial, ou seja, algumas almas seriam boas e outras almas seriam más, haveria almas do reino da luz e almas do reino das trevas, almas dignas de salvação e almas indignas de redenção.
Os gnósticos usavam textos como este de Efésios 2 para justificar suas ideias de “total depravação e incapacidade humana de responder a Deus”, e argumentavam que Deus precisaria intervir de para salvar os “eleitos”. Desta forma, com a ideia de uma determinação divina unilateral para o estabelecimento dos destinos eternos dos indivíduos, os gnósticos acreditavam que seria preciso Deus conceder a fé para que alguém pudesse ser salvo. Como Clemente já havia dito, para eles "os eleitos" receberiam de forma instantânea uma “iluminação sobrenatural” sobre o Evangelho, um “Dom de Fé”, e assim, seriam salvos. No entanto, se isso fosse verdade, “a fé seria uma espécie de beleza indefinida que passaria a pertencer à criatura de forma imediata” e não o que se defendia no Cristianismo, ou seja: “a aceitação racional da alma exercendo o livre-arbítrio”.
Clemente, e mesmo Agostinho em sua frase ortodoxa, não foram os únicos a defender o pensamento cristão básico quanto à mensagem de Efésios 2 sobre fé e salvação. Veja o que disse Gregório de Nissa a respeito deste mesmo assunto:
LIVRO: A GRANDE CATEQUESE CAPÍTULO XXX - OBJEÇÕES DOS ADVERSÁRIOS
2. Mas, deixando de lado suas objeções movidas contra este ponto acerca do ensinamento da nossa fé, OS ADVERSÁRIOS O ACUSAM DE QUE A FÉ NÃO TENHA CHEGADO EM SUA PROPAGAÇÃO A TODOS OS HOMENS. Por que razão, dizem, a graça [do Evangelho] não chegou a todos os homens, mas que, junto a certo número de homens que abraçaram a doutrina, há uma parte nada pequena que dela está excluída? DEUS TALVEZ NÃO QUISESSE DISTRIBUIR A TODOS O BENEFÍCIO generosamente ou não teve de fato o poder para isso? Nenhuma destas hipóteses está isenta de censura, POIS NÃO CONVÉM A DEUS O NÃO QUERER O BEM, nem ser incapaz de realizá-lo. OS ADVERSÁRIOS DIZEM: Se, portanto, a fé é um bem, por que a graça não chegou a todos?
Por todos os livros da sua obra Stromata, Gregório cita os nomes de diversos gnósticos, inclusive de alguns dos mais famosos: Valetino, Basílides e Marcião. Gnósticos usavam argumentos como os que aparecem na citação acima para justificar suas intepretações de classes de seres humanos para os quais a salvação não seria possível. Eles acreditavam que o simples fato de haver homens fora da graça do Evangelho já era prova suficiente para acreditar que Deus não queria conceder o mesmo benefício a todos os homens. Além disso, se realmente existisse a classe dos Hílicos, predestinados à destruição e constituídos de um elemento inconversível, como eles defendiam, Deus não apenas não quereria beneficiar a estes, como também não teria poder ou condições de promover esta mudança nesse tipo de gente.
Gregório argumenta que todas essas ideias são merecedoras de repreensão, pois não convém atribuir a Deus o sentimento de "não querer fazer o bem" a qualquer ser humano, assim como também não convém dizer que Deus seria incapaz de realizar isso. Os gnósticos acreditavam que o benefício da fé por meio da graça não havia chegado a todos pois este era o destino para os que haviam sido excluídos. Contudo, Gregório contra-argumenta da seguinte forma:
3. Na realidade, se nós também afirmássemos que, segundo a nossa doutrina, A FÉ É DISTRIBUÍDA POR SORTEIO AOS HOMENS PELA VONTADE DE DEUS, de modo que alguns seriam chamados, enquanto outros não teriam parte na chamada, SERIA JUSTO PROFERIR UMA ACUSAÇÃO DO GÊNERO CONTRA A [NOSSA] RELIGIÃO; mas, SE O CHAMADO DE DIRIGE POR IGUAL A TODOS SEM DISTINÇÃO DE CLASSE, de idade ou de raça (porque já desde o início da pregação os ministros do Evangelho falaram com a língua de todos os povos por inspiração divina, para que ninguém permanecesse excluído dos benefícios deste ensinamento), como, pois, poderia alguém com razão acusar ainda a Deus de que sua doutrina não atingiu a todos?
Uau! Parece até que Gregório está respondendo aos predestinistas dos nossos dias, não é mesmo? Veja o que ele disse: A fé não é distribuída por sorteio com base exclusivamente nos caprichos do que Deus quer ou não quer! Como se Deus chamasse alguns e outros não. Como se Deus escolhesse alguns homens e outros não. Se fosse isso que afirmassem os cristãos, disse Gregório, aí sim, seria justo acusar a religião cristã de elitista, parcial e discriminatória. Porém, segundo Gregório de Nissa, o chamado divino para a salvação se dirige a todos os homens igualmente sem qualquer tipo de distinção!
LIVRO: A GRANDE CATEQUESE CAPÍTULO XXXI - OBJEÇÕES DOS ADVERSÁRIOS
1. Mas, MESMO DIANTE DE TAIS ARGUMENTOS, os adversários não deixam de replicar com objeções capciosas. De fato, dizem que Deus, SE VERDADEIRAMENTE O QUISESSE, PODIA INDUZIR À FORÇA OS RECALCITRANTES A ACEITAR a mensagem proclamada. MAS ONDE ESTARIA NESTE CASO A LIBERDADE DE ESCOLHA? Onde estaria a virtude? Onde estaria a glória daqueles que vivem com retidão? Porque É PRÓPRIO DOS SERES INANIMADOS OU DOS IRRACIONAIS SEREM ARRASTADOS PELO CAPRICHO DE UMA VONTADE ALHEIA. A natureza racional e pensante, ao contrário, se renuncia ao exercício da liberdade, perde instantaneamente o dom da inteligência. COM EFEITO, DE QUE LHE SERVIRIA A RAZÃO, SE A FACULDADE DE ESCOLHER SEGUNDO O PRÓPRIO JUÍZO DEPENDE DE UM OUTRO?
Gnósticos pensavam assim: "Se fosse realmente da vontade de Deus, ele teria forçado à conversão a quem ele quisesse por sua divina capacidade e arbítrio". Porém, essa não reflete a concepção cristã mantida na tradição da igreja. Apenas os hereges assimilaram estas ideias loucas e sem sentido algum. Afinal, defender esse tipo de coisa, feriria um dos elementos mais sublimes e caros do Cristianismo: A Liberdade de Escolha. O homem criado à imagem e semelhança de Deus é um ser racional e pensante, dotado como Deus, de livre-arbítrio, e somente objetos inanimados ou seres irracionais poderiam ser arrastados pelo capricho da vontade de alguém, o homem não.
LIVRO: A GRANDE CATEQUESE XXXI - OBJEÇÕES DOS ADVERSÁRIOS
2. Ora, se a vontade livre permanece inativa, a virtude desaparece necessariamente, impedida pela inércia da vontade. E se não há virtude, a vida perde seu valor, se elimina o elogio dos que vivem com retidão, peca-se impunemente e é impossível distinguir toda diferença entre as maneiras de viver. Quem poderia ainda reprovar razoavelmente o homem dissoluto ou louvar o virtuoso? A resposta que nos restaria seria esta: NENHUMA DECISÃO DEPENDE DE NÓS, MAS de UM PODER SUPERIOR QUE CONDUZ AS VONTADES HUMANAS A AGIR SEGUNDO O CAPRICHO DO MESTRE. Portanto, NÃO É CULPA DA VONTADE DIVINA o fato de que A FÉ NÃO TENHA se enraizado NO CORAÇÃO DE TODOS OS HOMENS, MAS DA DISPOSIÇÃO DAQUELES QUE RECEBEM A MENSAGEM EVANGÉLICA.
Gregório volta mais uma vez ponto central de toda disputa: a Vontade Livre do Homem. Seu argumento é simples: se a vontade do homem não é verdadeiramente livre, como se diz na Bíblia e na tradição cristã da Igreja Primitiva, então, deixa de existir o conceito de virtude e não faria sentido haver punição para quem comete pecado. Toda a vida perderia o sentido, afinal, se as coisas fossem como os gnósticos queriam, quem poderia reprovar o pecador ou louvar a pessoa virtuosa? A conclusão lógica da ideia de uma vida sem a ação de um livre-arbítrio real e não apenas fictício, seria que "nenhuma decisão dependeria de nós, e sim de uma espécie de poder superior conduzindo as vontades e ações humanas". Em outras palavras, Gregório está ridicularizando a proposta determinista dos gnósticos, e finaliza explicando que a razão de a fé para a salvação não estar presente no coração de todos os homens é por causa da própria falta de disposição dos homens que ouvem a mensagem do Evangelho.
Os gnósticos diziam que o "Deus criador deste mundo e do homem" era um Deus diferente do Deus verdadeiro e Pai de Cristo, a quem também chamavam de demiurgo. Eles afirmavam que a condição humana era de total depravação pelo simples fato de terem sido colocados numa prisão por este Deus mau e perverso. Prisão essa da qual os "eleitos" seriam retirados através da graça vinda do alto para libertá-los. Gregório, tratando de algumas destas questões, disse que as paixões que se agitavam no homem não estavam presentes em nós apenas visando aquilo que era mal, mas, se a ideia gnóstica do demiurgo fosse real, então, ele "de fato seria verdadeiramente o responsável pelos males, se fosse ele que tivesse lançado em nossa natureza as forças que conduzem inevitavelmente ao pecado" (A Alma e a Ressurreição, Cap. II, A Natureza da Alma). Gregório não concordava com a ideia gnóstica de que era inevitável cometer pecados, e, além disso, afirmou que se o deus gnóstico tivesse estabelecido isso de fato, então, obviamente que ele é quem seria o responsável pelos males experimentados pelos homens. Não é necessário dizer que o próprio argumento sarcástico de Gregório, sobre o demiurgo, já revela que ele não defenderia que o Deus verdadeiro pudesse fazer isso. Então, ele acrescenta o seguinte:
LIVRO A ALMA E A RESSURREIÇÃO CAPÍTULO II - A NATUREZA DA ALMA
Ao contrário, segundo O USO QUE SE FAZ DO LIVRE ARBÍTRIO, tais movimentos da alma se tornam INSTRUMENTOS DE VIRTUDE OU VÍCIO, tal como o ferro, quando recebe a marca determinada pela vontade do artista, assume a forma desejada pelo seu pensamento, tornando-se ou uma espada, ou qualquer outro instrumento do agricultor.
Gregório está simplesmente dizendo que as paixões presentes em nossa alma são características inerentes ao livre-arbítrio, que tanto pode ser usado para o bem, quanto para o mal. E que por meio do livre-arbítrio o homem tanto pode desenvolver a virtude, quanto pode ceder ao que é ruim e desenvolver o vício.
LIVRO: A GRANDE CATEQUESE CAPÍTULO VII. O HOMEM
4. Por conseguinte, DEUS É ESTRANHO A TODA CAUSALIDADE DO MAL, sendo criador daquilo que existe e não daquilo que não existe: Ele criou a vista e não a cegueira; suscitou a virtude e não a privação da virtude; ele dispensou como prêmio da boa vontade o dom de seus bens ÀQUELES QUE REGULAM VIRTUOSAMENTE A PRÓPRIA VIDA, sem submeter à natureza humana O JUGO DE SUA PRÓPRIA VONTADE COMO VIOLENTA NECESSIDADE, ARRASTANDO-A FORÇOSAMENTE AO BEM COMO UM OBJETO INANIMADO.
Deus é totalmente alheio à toda e qualquer razão para a existência do mal. Gregório afirma com todas as letras: Deus não faz, não aprova e nem causa o mal. Gregório deixa implícito que o mal não é uma criação de Deus, mas uma aberração daquilo que Deus realmente criou. Segundo Gregório, para quem Deus concede as dádivas dos seus bens? Ele mesmo responde: "Àqueles que regulam virtuosamente a própria vida". E Gregório ainda acrescenta que "Deus não submete os homens ao jugo de sua própria vontade com força ou violência, como se Deus arrastasse a vontade dos homens ao que é bom como se fossem um objeto inanimado qualquer". Nem mesmo para o que é bom, Deus arrastaria forçosamente os homens por pura coerção. Pensando como se vê, Gregório jamais concordaria com a interpretação gnóstica de Efésios 2.
LIVRO: A GRANDE CATEQUESE CAPÍTULO XXX - OBJEÇÕES DOS ADVERSÁRIOS
4. Com efeito, aquele que exerce seu livre domínio sobre todas as coisas permitiu também, por um excesso de seu apreço pelo homem, que DISPUSÉSSEMOS DE UM DOMÍNIO, DO QUAL CADA UM SERIA O ÚNICO MESTRE. TRATA-SE DA VONTADE LIVRE, faculdade isenta de escravidão E DOTADA DE AUTONOMIA, que tem seu fundamento na independência da razão. Por conseguinte, seria mais justo que tal acusação se dirigisse ÀQUELES QUE NÃO SE DEIXARAM CONQUISTAR pela fé, e não que recaia sobre AQUELE QUE CHAMOU OS HOMENS para dar o assentimento.
De forma brilhante e suprema, Gregório demonstra que a única razão verdadeiramente cristã para que alguns homens tenham fé e outros não, não repousa na ideia gnóstica de destino e predestinação. Seria injusto afirmar que é Deus quem dá a fé para uns e para outros não, pois, segundo ele, somos mestres sobre os domínios da nossa própria vontade que é verdadeiramente livre, uma propriedade divinamente concedida dotada de autonomia. De quem é a culpa então que alguns homens tenham fé e outros não? Por que a fé não é de todos? A resposta é muito simples: Alguns se deixaram persuadir em prol da fé e outros não.
LIVRO: A GRANDE CATEQUESE CAPÍTULO XXX - OBJEÇÕES DOS ADVERSÁRIOS
5. De fato, quando nos inícios Pedro proclamou a doutrina diante de uma assembleia considerável de judeus, e justamente naquela ocasião acolheram a fé umas três mil pessoas, AQUELES QUE NÃO SE DEIXARAM PERSUADIR, embora mais numerosos que os que haviam acreditado, não repreenderam o apóstolo pelo fato de não tê-los convencido a crer. Não teria sido razoável que, enquanto A GRAÇA DO EVANGELHO ERA PROPOSTA A TODOS, aquele que DELIBERADAMENTE A REPUDIAVA acusasse de seu infortúnio um outro E NÃO A SI MESMO.
Pedro pregou e alguns acolheram a fé, outros, porém, não se deixaram persuadir. Não faria sentido que os incrédulos pusessem a culpa de sua incredulidade sobre o pregador ou sobre Deus, pois foram eles mesmos que deliberadamente repudiaram a mensagem da graça do Evangelho que lhes era proposta. Se o homem não tem fé, a culpa não é de Deus, mas dele mesmo!
LIVRO: A GRANDE CATEQUESE CAPÍTULO XXXVIII - FÉ E MISTÉRIO DA TRINDADE
2. No presente tratado, acreditamos que será bom dizer a respeito da fé só quanto está contido na palavra do Evangelho, a saber: que Aquele que é engendrado segundo a regeneração espiritual sabe por quem foi gerado e de que natureza é a sua vida. Com efeito, unicamente este tipo de geração tem O PODER DE CHEGAR A SER O QUE PRECISAMENTE ESCOLHER SER.
Observe que tratando ainda sobre Efésios 2, Gregório afirma que o novo nascimento de todos aqueles que se encontravam mortos em delitos e pecados, é o único tipo de nascimento em que se pode escolher o que se pretende ser. Em outras palavras, quem quiser ser filho de Deus, basta receber a mensagem do Evangelho no coração, e por meio da divina semente, qualquer pessoa poderá ser gerada como filha de Deus com a própria natureza do Pai celeste.
LIVRO: A GRANDE CATEQUESE CAPÍTULO XXXIX - FÉ E MISTÉRIO DA TRINDADE
1. Enquanto os demais seres que nascem devem a sua existência ao impulso de seus progenitores, O NASCIMENTO ESPIRITUAL, AO CONTRÁRIO, DEPENDE DA VONTADE DAQUELE QUE NASCE. Mas, nesse último caso, visto que cada um dispõe da liberdade de escolha, há o perigo de que alguém erre sobre o que é verdadeiramente conveniente, POIS A ESCOLHA É LIVRE PARA TODOS; seria bom, digo, que aquele que tenta realizar O PRÓPRIO NASCIMENTO conheça, pela reflexão, antecipadamente, a quem lhe será proveitoso ter por pai, e de quem sairá constituída a sua natureza, pois se disse que nesta classe de nascimento se escolhe livremente os seus genitores.
Se Gregório estivesse entre nós hoje em dia, já teria sido queimado na fogueira mais próxima do melhor calvinista da cidade, ou, talvez, já teria sido chamado de Pelagiano, como se isso fosse realmente xingamento capaz de ofendê-lo.
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