No gnosticismo, havia um Deus verdadeiro, transcendente, inalcançável e invisível, entre os muitos nomes pelos quais era chamado, também era conhecido como o Proto-Pai. Na assembleia de deuses onde supostamente vivia este Deus, estavam casais divinos como, por exemplo, Cristo e Sofia.
De acordo com cada tradição gnóstica, a história é contada de uma forma ou de outra, mas, resumidamente, Sofia teria gerado um filho por contra própria, sem a participação de Cristo, o seu marido, e sem o conhecimento de Deus, o Proto-Pai. Este filho, posteriormente, teria se tornado o Deus criador do sol, da lua e das estrelas. Criador do universo, deste mundo e do homem.
Como criador do mundo material, o Demiurgo era visto como uma entidade inferior, ignorante e até maligna. Ele não tinha qualquer ligação com o verdadeiro Deus supremo, aquele que habita o Pleroma, e, além disso, era tão ignorante que sequer sabia da existência destas verdades superiores.
Este deus bastardo, fruto de degradações e derivado por um erro cósmico, teria sido o Deus conhecido por Abraão, Isaque, Jacó, Moisés e todos os outros hebreus. Consequentemente, as Escrituras hebraicas seriam em grande parte produzidas por um espírito de engano e não mereciam total confiança, pois, embora houvesse alguma verdade nelas, elas eram o resultado das afirmações de um ser medíocre, inferior e mau.
A ideia básica dos gnósticos era de que o Demiurgo controlava o mundo e os homens mantendo-os em uma prisão de trevas e profunda ignorância. Inúmeros gnósticos acreditavam que numa das primeiras manifestações da graça de Deus na história, o próprio Cristo teria tentado se comunicar com Adão e Eva através da serpente do paraíso para abrir seus olhos para a realidade que lhes estava encoberta. Neste sentido, Cristo, manifesto pela primeira vez no mundo como serpente, tentou libertar os homens da ignorância para lhes conferir o conhecimento supostamente correto e mais profundo sobre a verdade.
Na visão gnóstica, logo após a criação do homem e o surgimento da mulher, o Demiurgo observando a beleza de Eva, acabou estuprando-a, fazendo com que ela ficasse grávida de gêmeos: Caim e Abel. Após o assassinato de Abel, teria nascido um filho virtuoso e de natureza nobre, que seria Sete. A despeito dos pormenores contados por cada tradição gnóstica, a partir destes acontecimentos do início do mundo, a humana teria sido dividida em três categorias de seres:
- Os descendentes de Sete, que seriam os espirituais ou pneumáticos, também considerados como eleitos e predestinados, pois seriam os únicos possuidores da centelha divina em si.
- Os descendentes de Abel, que seriam apenas homens naturais ou psíquicos. Estes seriam os cristãos, que poderiam ser salvos ou não, pois dependeria do seu comportamento, e mesmo que fossem salvos, depois da morte iriam para o um céu de segunda classe chamado de Intermediário.
- Os descendentes de Caim, que seriam os seres humanos de natureza terrestre ou Hílica, o elemento mais vil e baixo de todo o universo. Os pertencentes a esta classe de gente estavam predestinados à destruição até mesmo antes de nascer. Possuidores de uma natureza inconversível, nunca poderiam ser salvos. Eram reprovados desde o ventre.
Após a primeira manifestação da graça de Cristo na terra por meio da Serpente do Paraíso, Cristo teria vindo outra vez à terra para libertar os eleitos da prisão do Demiurgo. Suas palavras e seus ensinamentos não seriam compreendidos por todos, pois nem todos teriam uma natureza apropriada para ouvir e entender. Os eleitos seriam os únicos que o ouviriam e seriam iluminados com a sua pregação do Evangelho.
O Demiurgo acreditava ser o único deus existente, e, segundo os gnósticos, por isso ele vivia se afirmando nos textos do Antigo Testamento, com declarações como: "eu sou Deus e não há outro além de mim", e outras coisas semelhantes. Acreditava-se que somente na vinda de Cristo, os homens puderem finalmente ver a diferença entre este deus enganador, falso e perverso do Antigo Testamento e o verdadeiro Deus, que apenas os eleitos poderiam reconhecer através das palavras do seu Cristo.
Por fim, por estas e outras razões, as centelhas divinas dos eleitos estariam aprisionadas aqui neste mundo ilusório sob o controle do Demiurgo e seus Arcontes, as potestades que supostamente lhe serviriam. Na visão gnóstica, a mensagem do Evangelho teria o único objetivo de despertar os eleitos espalhados pelo mundo que ainda não descobriram quem são, de onde realmente vieram e o que poderiam fazer para retornar para lá. A "graça do Evangelho" pregada pelos cristãos gnósticos se reduzia ao processo por meio do qual todos os eleitos seriam irremediavelmente salvos, pois eram predestinados a isto por causa de sua constituição espiritual, que havia sido definida na eternidade passada, quando eles ainda sequer existiam.
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