O Cristianismo surgiu numa época de ebulição de ideias relacionadas à busca de verdades superiores. Filosofias gregas haviam se espalhado e permeado o mundo de então. Doutrinas deterministas como o inatismo de Platão, o misticismo do Neoplatonismo e os conceitos de destino e microgerenciamento divino do Estoicismo, propiciaram o surgimento de uma das seitas cristãs mais persistentes de todos os tempos: o Gnosticismo.
Já no primeiro século, pouco tempo depois da morte de Cristo, apareceram entre os cristãos estes grupos, que, posteriormente, seriam conhecidos como “gnósticos”. O termo deriva da palavra grega Gnose, que, em português, poderia ser traduzida como “conhecimento”. Os gnósticos eram cristãos que alegavam possuir um conhecimento secreto, supostamente mais aprimorado e profundo, sobre os mistérios de Deus.
Através dos textos deixados por diversos pensadores cristãos dos primeiros séculos, que os combateram fortemente, podemos entender que eles se consideravam superiores no conhecimento e na experiência com o divino, inclusive tratando os outros cristãos como ignorantes e néscios, e isso, pelo simples fato destes não aceitarem suas interpretações mirabolantes e predestinistas. Veja por exemplo, o que disse Tertuliano ao comentar especificamente sobre a atitude arrogante deles e sobre como se apresentavam pretensamente mais sábios que os demais crentes, que, na cabeça deles, não compreendiam “os mistérios de Deus”.
Tertuliano, Tertulliani Adversus Valentinianos, II, 75
Somos caracterizados por eles como “inocentes”, e por esta razão eles não nos consideram “sábios”. Eles acham que a sabedoria não tem qualquer relação com a inocência, muito embora o Senhor conectou a ambos quando disse, “sede prudentes como as serpentes e sem malícia como as pombas”. Agora, porém, se somos estúpidos porque não temos malícia e somos inocentes, poderíamos dizer que eles seriam maliciosos e culpados por serem sábios? Em meu ponto de vista, eu preferiria ser condenado por um “erro melhor” se eu tivesse que escolher. É melhor ter uma inteligência inferior do que ter uma inteligência maligna. Melhor falhar por algum erro do que enganar os outros.
Irineu de Lyon, que também se opôs de forma contundente às ideias gnósticas, demonstra ter tido a exata mesma impressão de Tertuliano sobre a atitude pedante deles em relação aos outros crentes. Na visão dos gnósticos, os demais cristãos “não entendiam as questões defendidas por eles”. Na conclusão do primeiro livro de sua obra contra os gnósticos, Irineu diz o seguinte:
Irineu, Contra as Heresias, 1.31.3, p. 123
Mesmo envolvidos em fábulas tão miseráveis e inconsistentes, orgulharam-se a ponto de se julgarem melhores que os outros por causa [do seu conhecimento] da gnose, que mais se deveria chamar de ignorância.
Irineu, Contra as Heresias, 1.6.4, p. 48
Tacham-nos de simplórios e ignorantes, a nós, que pelo temor de Deus, procuramos não pecar sequer por pensamentos e palavras; e exaltam-se a si mesmos com o nome de perfeitos e sementes de eleição.
Irineu, Contra as Heresias, 3.15.2, p. 313
Se alguém se entrega a eles como cordeirinho, uma vez iniciado nos seus mistérios (...), envaidece-se de forma tal que já não pensa estar na terra (...), mas de ter entrado no Pleroma (...) e então anda com ares de importância, olhando do alto, como galo enfatuado.
A adaptabilidade do Gnosticismo era realmente surpreendente, pois seus adeptos não tinham muitos critérios que justificassem a exclusão de uma ideia do seu bojo de conceitos. Qualquer filosofia ou religião eram bem vindas, e poderiam ser encaixadas de uma forma ou de outra por um dos diversos grupos gnósticos dos primeiros séculos.
Basicamente o Gnosticismo defendia que havia um “Deus verdadeiro”, inalcançável e desconhecido, e que havia um “deus falso”, imperfeito, e que criara o mundo visível da matéria que conhecemos. Tudo que fosse físico era considerado ruim, e tudo que fosse espiritual era considerado bom. Os seres humanos de forma geral estariam presos nesta realidade e alguns destes seres humanos por terem uma "centelha divina" poderiam ser despertados do seu sono pela pregação do Evangelho.
Apenas os seres humanos "pneumáticos" estavam predestinados à salvação e ao céu. O famoso gnóstico Valentino dizia que Deus oferece a mensagem de salvação a todos os homens igualmente, porém, apenas os eleitos previamente determinados eram empoderados por Deus para aceitar este convite.
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