A palavra "pneumáticos" vem da palavra grega "pneuma", que em português seria comumente traduzida por "espírito". Os pneumtáticos ou "espirituais", seriam os indivíduos que tivessem tido a sorte de ter sido formados pelo elemento eterno do universo considerado divino. Estes seriam os únicos seres humanos possuidores da "centelha divina" e portadores da "semente da eleição". Os gnósticos se consideravam todos como pneumáticos, ou seja, os únicos predestinados à salvação, e após a morte, também predestinados à comunhão com Deus no céu mais elevado, chamado por eles de "Pleroma".
Irineu, Contra as Heresias, 1.6.2, p. 47, 48
[Segundo os gnósticos] os homens psíquicos são educados com ensinamentos psíquicos, confirmados pelas obras e a fé simples e dizem que estes homens somos nós que pertencemos à Igreja e que por isso nos é indispensável boa conduta, de outro modo é impossível a salvação. ELES, PORÉM, SE SALVAM NÃO PELAS OBRAS, E SIM POR SEREM PNEUMÁTICOS POR NATUREZA. Como o que deriva do lodo não pode receber a salvação por não ter a capacidade receptiva dela, assim o elemento PNEUMÁTICO, que pretendem ser eles, está na impossibilidade absoluta de se corromper, sejam quais forem as obras que praticarem. Como o ouro lançado na lama não perde o brilho e conserva a sua natureza sem que a lama o prejudique em nada, assim, dizem eles, podem estar misturados com qualquer obra [terrena] que não sofrerão dano nenhum, nem perderão sua substância pneumática.
Observe bem as implicações das declarações gnósticas vistas no texto acima: os “Eleitos”, como se intitulavam, eram salvos por serem de uma “natureza” diferente da dos outros irmãos da igreja, “os Psíquicos”, e, por isso, não precisavam se preocupar em ter uma boa conduta. Eles se comparavam a “uma barra de ouro”, que mesmo jogada na lama, nem por isso, chega a perder suas propriedades essenciais. Por essa razão, diziam os gnósticos, os “Eleitos” poderiam fazer qualquer coisa, praticar qualquer obra carnal e terrena, pois isso jamais poderia afetar sua substância essencialmente espiritual. Se o crente fazia parte do grupo dos “Eleitos”, na concepção gnóstica, estava predestinado ao Pleroma, e uma vez salvo, estaria “salvo para sempre”.
Irineu, Contra as Heresias, 1.6.3, 1.6.4, p. 48, 49
Por isso, entre eles, os perfeitos praticam sem escrúpulos todas aquelas obras proibidas das quais as Escrituras afirmam: quem pratica essas obras não herdará o reino de Deus... E além de cometer muitas outras ações vergonhosas e ímpias, tacham-nos de simplórios e ignorantes, a nós, que pelo temor de Deus, procuramos não pecar sequer por pensamentos e palavras... [Segundo eles] nós, que eles chamam psíquicos e estamos no mundo, precisamos da continência e das boas obras para chegar, graças a elas, ao lugar do Intermediário; eles porém, que se autodefinem PNEUMÁTICOS e perfeitos, não precisam de nada disso, porque não são as obras que os introduzem ao Pleroma, e sim a semente [da Eleição] enviada pequenina do alto e aqui levada à perfeição.
É importante observar a distinção que os gnósticos faziam entre crentes e crentes, pois, como vemos, eles não apenas dividiam a humanidade em três categorias diferentes, como também dividiam a comunidade cristã em duas classes distintas: os “Pneumáticos” e os “Psíquicos”. Cada uma com características próprias. Segundo os gnósticos, os “Psíquicos” poderiam ser salvos se cumprissem todos os pré-requisitos e obrigações que lhes cabiam, se fossem salvos, iriam para um céu de segunda classe chamado de "Intermediário". Já os “Pneumáticos”, por serem “Eleitos” e predestinados, não precisavam de qualquer esforço para alcançar a salvação, assim como não corriam qualquer risco de perdê-la, a despeito dos tipos de pecado que porventura praticassem, ou do estilo de vida que vivessem.
Em sua teologia tardia, próximo ao fim de sua vida, Agostinho passou a usar as três classes de seres humanos oriundas do Gnosticismo, adaptano-as ao Cristianismo. Embora não tenha usado exatamente os mesmos termos, ele os classificou da forma que segue:
- Os Pneumáticos: Os crentes predestinados antes mesmo de nascer e que jamais poderiam perder a salvação. Os únicos que poderiam ser chamados de "eleitos de Deus". Para Agostinho, eram os filhos de Deus regenerados e predestinados.
- Os Psíquicos: Os filhos de Deus regenerados, que receberam o Espírito Santo, mas que não foram predestinados, por isso não seriam "eleitos". Ficariam firmes com Cristo por um tempo, mas como "Deus não os quis entre os eleitos, então, por isso, Deus não lhes deu o Dom da Perseverança, o que lhes fará se desviar em algum momento, ocasião em que Deus aproveitará para matá-los".
- Os Hílicos: Estes são aqueles que supostamente foram predestinados para a destruição. Nunca poderiam ser salvos e estão reprovados mesmo antes de nascer. Os indivíduos pertencentes a esta classe foram chamados por Agostinho de "réprobos", aqueles que haviam sido supostamente predestinados por Deus ao inferno.
Abaixo você pode ler algumas das declarações feitas por Agostinho em suas últimas obras, quando, desenvolvendo sua teologia tardia, fez as adaptações necessárias para usar os conceitos gnósticos com uma terminologia mais semelhante às expressões que aparecem na Bíblia.
Agostinho, A Graça (II), A Correção e a Graça, VIII.18, p. 102, VIII.19, p. 104
Com efeito, é de admirar e muito que Deus tenha outorgado a alguns de seus filhos regenerados em Cristo a fé, a esperança e a caridade, mas não lhes concede a perseverança... A uns é concedido e a outros é negado.
Agostinho, A Correção e a Graça, VIII. 17, p. 101, VIII. 19, p.104
Se me perguntarem a razão pela qual Deus negou a perseverança aos que concedeu o amor para viverem uma vida cristã digna, respondo que não tenho ideia. Por isso, se você também reconhecer que a perseverança até o final é um dom de Deus, creio que, como eu, você também não tem ideia do porquê um recebe o dom e outro, não. Não podemos penetrar nos inescrutáveis desígnios de Deus (...) E sobre o motivo pelo qual a uns é concedido e a outros é negado, dignem-se a serem tão ignorantes quanto nós, sem murmuração contra Deus.
Agostinho, A Graça (II), A Correção e a Graça, IX.21, p. 106
Estes cristãos fizeram parte do inumerável grupo dos chamados, mas não pertenceram ao pequeno número dos escolhidos. DEUS NÃO CONCEDEU a perseverança A SEUS FILHOS NÃO PREDESTINADOS...
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