Durante muitos séculos, as únicas fontes de informação sobre os pensamentos gnósticos da antiguidade estavam nos textos dos doutores e pais da Igreja, como Irineu, que escreveu cinco volumes para tratar especificamente das doutrinas gnósticas.
Além dele, outros autores também se opuseram especificamente contra os gnósticos através de suas obras, citando inclusive seus textos e declarações. Contudo, somente em 1945 foram achados livros escritos pelos próprios gnósticos por ocasião da descoberta da “Biblioteca de Nag Hammadi”, encontrada no Egito.
No final da década de 1970, foi descoberto o também gnóstico “Evangelho de Judas”, que, inclusive, parece já ter sido citado por Irineu por volta do ano 180 d.C., como se pode ver no texto abaixo:
Contra as Heresias, 1.31.1
[Os gnósticos] Dizem que Judas, o traidor, sabia exatamente todas estas coisas e por ser o único dos discípulos que conhecia a verdade, cumpriu o mistério da traição e que por meio dele foram destruídas todas as coisas celestes e terrestres. E apresentam, à confirmação, um escrito produzido por eles, que intitulam Evangelho de Judas.
Em algumas partes do Evangelho de Judas, Jesus considera Judas o mais importante dos seus discípulos, o único capaz de entender coisas que os outros não entendiam. O texto dá a entender que Judas conhecia até mesmo a origem do Cristo, que na visão gnóstica, teria vindo do “Reino Superior do Barbelo”, da parte do próprio “Deus verdadeiro” e de toda a “Plenitude da Divindade” – coisas a respeito das quais nenhum homem poderia saber, segundo o Gnosticismo.
Neste texto gnóstico, Jesus demonstra estar grato a Judas pelo favor que lhe prestará, pois através do seu sacrifício, de trair e entregar a Cristo, Judas o libertaria “do homem Jesus que o carregava”. A ideia é de que Judas estaria fazendo uma coisa boa para Cristo ao sacrificar o corpo de Jesus. Neste sentido, de acordo com a visão gnóstica defendida no Evangelho de Judas, Jesus era o homem sobre quem o Cristo teria descido no momento do Batismo das águas e, através do ato sublime de Judas, seria morto para que o Cristo pudesse voltar para o “Glorioso Reino do Barbelo”. Assim, Cristo incentivava Judas a realizar a “obra para qual estava destinado a fazer”.
Embora as Escrituras não ensinem em lugar algum que “Judas fora escolhido para trair Jesus”, como imaginavam os gnósticos, Agostinho também parecia ser partidário do mesmo sentimento.
Agostinho, A Graça (II), A correção e a Graça, VII.14, p. 99
São eleitos para reinar com Cristo, não como Judas foi escolhido para a obra à qual convinha. Foi escolhido por aquele que sabe usar até dos maus para fazer o bem, a fim de que pela sua ação reprovável se realizasse a grandiosa obra para a qual Cristo veio ao mundo.
Pouco tempo depois da descoberta do Evangelho Gnóstico de Judas, em 1978, no lançamento do álbum “Mata Virgem”, o cantor Raul Seixas, considerado o “Pai do Rock Brasileiro”, inseriu em seu repertório uma música intitulada simplesmente de “Judas”. Para esta música, que prega as ideias deterministas do Gnosticismo e do Hinduísmo, Raul parece ter se utilizado das ideias por trás do livro apócrifo de Judas, com base no qual, fazendo uso de linguagem supostamente cristã, Raul Seixas tentou transmitir a mesma velha ideia predestinista de sempre. Confira a letra desta canção a seguir
JUDAS
Ei, quem é você? Vamos, responda!
Eu sou... eu sou Judas Parte de um plano secreto Amigo fiel de Jesus Eu fui escolhido por ele Para pregá-lo na cruz
Cristo morreu como um homem Um mártir da salvação Deixando pra mim, seu amigo O sinal da traição
Mas é que lá em cima Lá na beira da piscina Olhando os simples mortais Das alturas Fazem escrituras E não me perguntam se é pouco ou demais
Se eu não o tivesse traído Morreria cercado de luz E o mundo hoje então não teria A marca sagrada da Cruz
E para provar que me amava Pediu outro gesto de amor Pediu que o traísse com um beijo Que minha boca então marcou
É que lá em cima Lá na beira da piscina Olhando os simples mortais Das alturas Fazem escrituras E não me perguntam se é pouco ou demais
Através desta canção, Raul Seixas conseguiu fazer uma ligação direta entre o pensamento gnóstico predestinista do segundo século, com os sentimentos predestinistas supostamente cristãos do nosso tempo. Eu não duvidaria que muitos que se dizem cristãos hoje concordariam com praticamente toda a letra desta música inspirada no evangelho gnóstico de Judas.
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