VALENTINO
Valentino ou Valentim, teria vivido entre os anos 100 d.C. a 160 d.C.. Foi um dos mais influentes mestres gnósticos do século II, ativo em Alexandria e Roma. Seu sistema fora desenvolvido com riqueza de bastante detalhes e sofisticação e se tornou conhecido pelo termo que remete ao seu nome, o Valentinianismo.
Ele defendia um mito complexo de Eons, ou Emanações, provenientes do Pleroma. Tratava sobre a queda de Sophia, que consequentemente geraria o Demiurgo e o mundo material. Ele era um dos principais proponentes na defesa da suposta distinção das três classes de seres humanos:
- Os pneumáticos ou espirituais, que sem sombra de dúvidas seriam certamente salvos. Primeiro por serem predestinados e possuírem a semente da eleição vinda de Sofia, depois por meio do seu suposto conhecimento mais profundo, a gnose.
- Os psíquicos ou naturais, seriam as almas comuns, que poderiam até ser salvos pela fé, mas não estariam predestinados como os pneumáticos.
- Os Hílicos ou terenos e materiais, que eram condenados antes mesmo de nascer neste mundo. Predestinados à destruição.
A doutrina de Valentim enfatizava a redenção por meio deste conhecimento supostamente mais profundo que foi popularizado pelo próprio termo grego para conhecimento, que é a palavra gnose. Exerceu grande influência no Gnosticismo cristão sendo combatido por muitos, talvez de forma mais especial por Irineu de Lyon em seu livro de cinco volumes intitulado Contra as Heresias.
Irineu, Contra as Heresias 1.31.3
Era necessário mostrar que os valentinianos derivam de tais pais e mães, como revelam as suas teorias e sistemas, expô-los abertamente e contestá-los. Talvez assim alguns deles se arrependam e se convertam ao único Deus, Criador e Autor do universo e outros não sejam desviados pela sua doutrina falsa e persuasiva, JULGANDO CONHECER POR MEIO DELES UM MISTÉRIO MAIOR E MAIS PROFUNDO. Todos aprenderão corretamente de nós o que eles incorretamente ensinam, conhecerão o ridículo dessas doutrinas e terão compaixão dos que, mesmo envolvidos em fábulas tão miseráveis e inconsistentes, ORGULHARAM-SE A PONTO DE SE JULGAREM MELHORES QUE OS OUTROS POR CAUSA DO CONHECIMENTO, que mais se deveria chamar de ignorância.
Irineu, Contra as Heresias, 1.26.2
Portanto, os que blasfemam o Criador — explícita e abertamente, como os discípulos de Marcião ou astuciosamente, como os discípulos de Valentim e todos os falsos gnósticos — sejam reconhecidos por todos os que adoram a Deus como instrumentos de Satanás.
Muitos acadêmicos e eruditos, especialistas em Gnosticismo antigo, debatem sobre as possíveis motivações para o desenvolvimento da doutrina determinista dos gnósticos. Pagels, no entanto, acredita que suas principais motivações não eram necessariamente as que são mais comumente debatidas entre os estudiosos, mas, segundo ela, o objetivo gnóstico primordial seria explicar a verdadeira “teologia de Paulo”. Veja seu comentário a respeito do assunto:
Elaine Pagels, The Johannine Gospel in Gnostic Exegesis: Heracleon’s Commentary on John, p. 100
A questão filosófica do determinismo e do livre-arbítrio não é a questão que motiva o desenvolvimento da antropologia gnóstica. Como sugeriu Quispel, a descrição valentiniana das “naturezas” emerge, em vez disso, DE UMA TEOLOGIA DA ELEIÇÃO. Mais especificamente, os Valentinianos desenvolveram a sua descrição das “naturezas” hílica, psíquica e pneumática (como eles próprios afirmam) COMO UMA INTERPRETAÇÃO EXEGÉTICA DA TEOLOGIA DA ELEIÇÃO joanina e paulina.
Observe que Pagels comenta que “os próprios gnósticos explicavam que eles tinham desenvolvido suas divisões da humanidade em classes, com base numa interpretação exegética da teologia da eleição percebida no Evangelho de João e nas epístolas de Paulo”. Para Quispel, citado por Pagels, “o Gnosticismo valentiniano era um tipo de misticismo que colocava sua ênfase nos temas da graça e da eleição”, e que, além disso, “os Valentinianos consideravam o espírito que haviam recebido não como um dom natural, mas como um dom da graça”.
BASÍLIDES
Basílides, que teria vivido entre os anos 120 d.C. e 140 d.C. foi um teólogo gnóstico de Alexandria, contemporâneo de Valentino. Seu sistema difere um pouco do valentiniano: ele rejeita o mito clássico da queda de Sofia e propõe uma cosmologia com 365 céus, ou 365 Eons ou emanações, cuja influência veio diretamente de algumas proposições do Estoicismo. Para ele, o Deus supremo é transcendente e desconhecido, e o mundo teria surgido de uma série de emanações. O mal, por sua vez, seria o resultado da ignorância. Em sua concepção a salvação ocorre por meio do conhecimento dos mistérios gnósticos, que, supostamente, libertariam a centelha divina presa na matéria.
Basílides enfatizava que o sofrimento e o mal não vêm do verdadeiro Deus, mas de forças inferiores. Na citação abaixo, observe que Clemente de Alexandria cita os discípulos de Basílides, que, como todo bom gnóstico, supunham que os “Eleitos” jamais poderiam perder sua salvação, pois estavam “predestinados”. Nem mesmo qualquer pecado praticado neste mundo controlado pelo Demiurgo teria poder de impedir seus destinos estabelecidos pela essência do “grande e verdadeiro Deus” presente em suas naturezas pneumáticas, pois, diferentemente de outros homens, eles “eleitos desde o nascimento”.
Clemente de Alexandria, Stromata, Livro III, 1.3
Citei estas observações para provar que estão errados aqueles [gnósticos] Basilidianos que não vivem puramente, supondo, ou que têm o poder de até cometer pecado por causa da sua perfeição, ou que serão salvos por sua natureza mesmo que pequem nesta vida, porque eles POSSUEM UMA “ELEIÇÃO INATA”.
MARCIÃO
Marcião de Sinope (85 d.C. – 160 d.C.) foi um pensador cristão radical considerado por alguns como defensor da filosofia gnóstica ou talvez de um tipo de proto-gnosticismo. Ele ficou famoso por fazer distinção radical entre dois supostos deuses: o Deus do Antigo Testamento, o Demiurgo ou criador justo, mas vingativo e legalista e o Deus desconhecido revelado por Jesus, o Pai bom e misericordioso que o mundo não havia conhecido até então.
Ele rejeitou o Antigo Testamento e editou o Novo Testamento selecionando os livros que considerava verdadeiramente úteis para comunidade cristã, ou seja, o Evangelho de Lucas e mais 10 epístolas de Paulo. Seu objetivo era retirar os elementos "judaizantes" e toda as declarações proferidas sob a influência do Demiurgo supostamente registradas no Antigo Testamento.
Irineu, Contra as Heresias, 1.27.2, p. 109
Marcião mutilou o evangelho segundo Lucas, eliminando tudo o que se refere à geração do Senhor e expungindo muitas passagens dos ensinamentos do Senhor nas quais este reconhece abertamente como seu Pai o criador do universo. Fez crer aos seus discípulos ser ele mais verídico do que os apóstolos que transmitiram o evangelho, entregando-lhes nas mãos não o evangelho, mas uma parte do evangelho. Da mesma forma mutila as cartas do apóstolo Paulo eliminando todos os textos em que se afirma claramente que o Deus que criou o mundo é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo e também as passagens onde o Apóstolo lembra as profecias que prenunciavam a vinda do Senhor.
Sua igreja marcionista foi uma das maiores rivais do Cristianismo ortodoxo no século II. Marcião enfatizava um Evangelho de salvação pela graça, em oposição a qualquer pregação associada ou relacionada com a Lei.
Marcião se tornou relativamente mais conhecido por sua ligação com o que viria a ser conhecido como “Docetismo”. De fato, muitos atribuem a ele a criação desta linha de pensamento. A palavra “docetismo” vem do termo grego δοκέω [dokeō] que significa “parecer”, de “aparência”. A ideia central era que o corpo de Jesus Cristo seria uma ilusão, e que sua crucificação teria sido apenas “aparente”, mas não real. O docetismo não era uma religião à parte do Cristianismo, mas uma corrente de pensamento que permeava diversos segmentos da Igreja. Havia cristãos gnósticos que aderiam ao docetismo e outros que tinham uma interpretação diferente a respeito do tema. Marcião, por exemplo, era um cristão gnóstico defensor do docetismo. Para ele, Jesus Cristo não passava de um espectro ou espírito, e até poderia ter aparência humana, mas não possuía carne e sangue de fato. Já outros gnósticos acreditavam que Jesus era um homem comum, como outro qualquer, e que o Eon do Pleroma chamado Cristo teria vindo sobre ele na ocasião do Batismo e que o teria deixado quando Jesus foi morto na cruz. O Evangelho de Judas, por exemplo, retrata essa visão gnóstica, que, como vimos, é diferente da linha docética defendida por Marcião.
Aqueles que negavam a existência do corpo de Jesus Cristo diziam que sua crucificação teria sido apenas aparente. Os docetas acreditavam que a carne era maligna, e por isso o Cristo, como mensageiro do Pleroma, não poderia ter um corpo humano.
Marcião negava a segunda vinda de Cristo para julgar os vivos e os mortos, pois, segundo ele pensava, o “Deus bom e verdadeiro”, que não seria o mesmo “Deus dos judeus e criador do mundo e dos homens”, sendo constituído apenas de bondade plena, não puniria aqueles que o rejeitam. Segundo ele pensava, Deus apenas “deixaria que os pecadores seguissem seu rumo de perdição de acordo com suas naturezas más”. Desta forma, na cabeça de Marcião, “Deus não seria responsável por mandar os pecadores para o inferno, pois eles já estavam indo por si mesmos”. A isto Tertuliano chamou de “bondade sem propósito”, pois o “deus dos gnósticos” era considerado bom, mas não poderia fazer coisa alguma para salvar a todos. Os “pecadores de natureza terrena” estavam predestinados à destruição e não havia absolutamente nada que o “bondoso deus gnóstico” pudesse fazer por eles, pois ele só salvava os “Eleitos”
MANI
Mani (216 d.C. – 277 d.C.) foi o fundador do seguimento gnóstico conhecido pelo termo que remete ao seu nome, o Maniqueísmo. De tão abrangente o Maniqueísmo chegou a ser considerado uma religião própria com fortes traços gnósticos, mas distinta.
Mani, começou seu movimento por volta do ano 250 d.C., e se apresentava como o “Paracleto”, aquele sobre o qual Jesus teria dito que “viria ao mundo para ensinar sobre todas as coisas”. Ele se via como o "apóstolo da luz final", sucedendo Jesus, Buda e Zoroastro.
Seu sistema seguia a abordagem dualista radical. Para ele havia dois princípios eternos:
- A Luz: o bem e o mundo espiritual
- As Trevas: o mal e a matéria
As forças dos dois reinos estariam em uma luta cósmica eterna. O mundo material teria surgido da mistura desses dois princípios distintos, e disto teria resultado as almas humanas que seriam partículas de luz aprisionadas no corpo material. A salvação defendida por Mani também viria através do conhecimento supostamente mais profundo, a famosa gnosis. Além da própria gnose em si, também se pregava o ascetismo, uma abstenção generalizada do prazer, que associada ao conhecimento faria com que a luz fosse separada da matéria. O maniqueísmo se espalhou amplamente saindo da Pérsia ao Império Romano e à China, influenciando o pensamento medieval.
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